Intolerância religiosa, quem cuida dos professores (as)?
- WR Express

- 8 de jan.
- 5 min de leitura
Por: Gisele Rose

✅ 07/11/2025 | 15:33
Todo chão é chão. Mas nenhum chão pode contar por si mesmo a sua história, contar sobre os que passaram por cima de si, sobre as conversas às escondidas, sobre os pés que passaram por cima de si apressados, fugindo de algum caçador.
Ivanir dos Santos
As inquietações presentes neste artigo surgem com base na compreensão de que a escola é um espaço múltiplo, diverso, pulsante e dinâmico. Um local que gera questionamentos e tensionamentos, onde expectativas, ações e direcionamentos se encontram, mas que, apesar disso, pode contar por si só as suas histórias. Estas observações, que parecem banais e até mesmo óbvias, são necessárias para forjarmos uma escola que seja acolhedora e respeitosa, pois:
A escola é o espaço da diversidade. É o local do encontro das diferenças, das ideias e valores, que talvez não se encontrassem em outros espaços, e por isso ela é tão rica em possibilidades. Contudo, ao observá-la mais de perto, percebemos que esta riqueza não é explorada, sendo, na maioria das vezes, desconsiderada, porque não está nos padrões esperados. As relações de gênero, as diferenças étnicas, de classe, de pertencimento religioso, de origem regional, as configurações familiares, as necessidades educacionais especiais são invisibilidades se não estiverem dentro da configuração homogênea da escola (Gouvêa et al., 2014, p. 88).
Compreendemos então a escola como o local de encontro da multiplicidade onde os discursos sobre diversidade aparecem em diferentes campos de conhecimento. Pensar sobre a escola e o seu cotidiano é também compreender a valorização de todos aqueles. Não existe escola sem alunos e alunas e nem sem professores e professoras.
Com base nesta realidade, percebemos que muitas pesquisas são construídas na base no bem-estar dos alunos e alunas, porém poucas são as pesquisas que visam compreender a realidade dos professores e professoras.
O desrespeito e a desvalorização da docência no ambiente escolar são visíveis através de uma série de fatos que chegam a público e que, ao longo das últimas décadas, sofre com baixos salários, condições precárias de trabalho, violência, com ataques de cunho político, social e também religioso.
Ao analisarmos este triste cenário, não podemos deixar de ressaltar que, para termos instituições de ensino atuando com base na diversidade e na valorização, cada pessoa tem que ser considerada igualmente, ser tratada como um igual, tendo direitos básicos iguais, onde as posições e ocupações estão abertas a todos(as) dentro do princípio da igualdade justa de oportunidade. Sendo assim, com base neste recorte, precisamos saber: quem cuida dos professores(as)?
A princípio, este questionamento parece ser de fácil resolução, porém, se formos analisar de forma crítica, observamos uma série de entraves e que, diante de todos os problemas enfrentados por professores(as), não podemos negar que a intolerância religiosa é uma realidade vivenciada e que também atinge a categoria docente, pois:
Observa-se que a intolerância religiosa não é um fenômeno recente no interior da história política, social e religiosa do Brasil. A intolerância religiosa faz parte de um processo dicotômico da dominação social, política e religiosa entre a “boa” e a “má” religião, travado desde o período colonial, a partir do encontro entre a religião cristã e as religiosidades africanas em solo brasileiro, onde os adeptos das religiões africanas, com suas culturas e suas representações, configuram um mal a ser combatido pelos não adeptos a estas religiosidades (Santos, 2019, p. 47).
Muitos professores(as) das escolas públicas e privadas estão comprometidos com as questões de um universo repleto de demandas que vão além do pedagógico (Gouvêa et al., 2014), sendo desafiados a inserir, a todo momento, mais questões neste mosaico repleto de atravessamentos, e quando as discussões pautadas surgem com base na liberdade religiosa, os tensionamentos são muitos.
Essa falta de habilidade ou vontade de respeitar a diversidade religiosa se dá pelo fato do incentivo à intolerância dentro das várias instituições sociais, incluindo as instituições religiosas, o que gera também tensões dentro das instituições de ensino.
Se nenhum chão pode contar por si mesmo a sua história, como professores(as) estão vivenciando a intolerância religiosa dentro das escolas? O ambiente escolar consegue ser um espaço seguro para que professoras e professores se sintam à vontade com a própria fé? O que fazer quando um aluno ou aluna persegue um professor ou uma professora por ser de uma religião diferente da sua? Como gestores lidam com essas ações? E quando a própria instituição persegue esse professor(a)? Pois,
A intolerância, configurada em âmbitos religiosos, caracteriza-se pela falta de habilidade ou vontade de reconhecer e respeitar as crenças e diversidades religiosas. A intolerância religiosa não é um fenômeno social que acontece exclusivamente no Brasil; entretanto, decorre do fato de que, no Brasil, há um íntimo namoro, regado pelas pétalas do preconceito, entre intolerância e racismo (Santos, 2019, p. 191).
Esses questionamentos surgem para fomentar uma discussão onde a falta de dados sobre a intolerância religiosa sofrida por docentes nos seus locais de trabalho já se torna um dado extremamente relevante, pois o apagamento foi uma estratégia utilizada durante séculos para propagar o racismo. Diante disto, podemos dizer que:
Tanto a intelectualidade brasileira quanto a Igreja Católica e o Estado colaboraram, cada um a seu modo, para construir e moldar o imaginário social desqualificador do negro e das suas religiões e ressignificações religiosas no Brasil (Santos, 2019, p. 191).
Enquanto não pudermos falar abertamente de toda intolerância religiosa vivida por professores e professoras, não teremos uma educação de qualidade, pois xingamentos, ameaças (por parte de responsáveis, religiosos, estudantes e até mesmo gestores e coordenadores escolares) e, em casos mais extremos, até agressões físicas fazem parte de uma triste realidade, que poucas vezes consegue chegar na grande mídia e, quando chega, não sabemos qual é o desfecho.
Não podemos afirmar um compromisso com a valorização da diversidade e das diferenças sem respeito a professoras e professores, pois é crescente o número de docentes que sofrem intolerância religiosa no Brasil, manifestada por meio de violência, discriminação e perseguição dentro do ambiente escolar.
A Constituição Federal de 1988 garante a liberdade religiosa e, ao denunciar e combater atos de intolerância religiosa, estamos contribuindo para a construção de uma sociedade mais justa, onde todos têm o direito de vivenciar suas crenças.
REFERÊNCIAS
Gouvêa, Fernando César Ferreira; Oliveira, Luiz Fernandes de; Sales, Sandra Regina. Educação e relações étnico-raciais: entre diálogos contemporâneos e políticas públicas. 1. ed. Petrópolis, Rio de Janeiro: De Petrus et Alii; Brasília, DF: CAPES, 2014.
Santos, Ivanir dos. Marchar não é caminhar: interfaces políticas e sociais das religiões de matriz africana no Rio de Janeiro. 1. ed. Rio de Janeiro: Pallas, 2019.

Gisele Rose
Filósofa e escritora. Professora da Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro (SEEDUC-RJ). Mestra em Relações étnico raciais pelo Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET-RJ), Especialista em Energia e Sociedade no Capitalismo Contemporâneo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Graduada em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)... [+ informações de Gisele Rose]
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