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Intolerância religiosa: é preciso olhar para os casos, compreender a história e enfrentar o problema

  • há 9 horas
  • 4 min de leitura

Por: Prof. Dr. Babalawô Ivanir dos Santos

30/8/2026 | 08:13


A intolerância religiosa não pode ser tratada apenas como um episódio isolado, uma discussão pontual ou um conflito entre indivíduos. Cada caso carrega uma história, revela estruturas sociais e expõe como determinados grupos ainda são vistos como menos legítimos em sua forma de crer, existir e ocupar espaços na sociedade. Por isso, olhar para os casos concretos de intolerância religiosa é também olhar para a história do Brasil e para as relações de poder que ajudaram a construir o país.


Do ponto de vista acadêmico, o fenômeno da intolerância religiosa precisa ser compreendido dentro de um campo mais amplo: o das relações entre religião, cultura, poder, raça e direitos humanos. A religião não é apenas uma dimensão privada da vida. Ela também produz identidades, estabelece vínculos comunitários, preserva memórias e transmite conhecimentos entre gerações. Quando um grupo religioso é atacado, não é somente a sua fé que está sendo atingida. São também sua história, seus símbolos, seus territórios, seus modos de vida e sua dignidade.


No caso brasileiro, essa discussão ganha uma dimensão histórica ainda mais profunda. A formação da sociedade brasileira foi marcada pela presença de diferentes tradições religiosas, mas também por processos de imposição, perseguição e tentativa de apagamento de determinadas crenças. Práticas religiosas de povos indígenas e, posteriormente, de populações africanas escravizadas foram durante séculos classificadas como inferiores, primitivas ou demoníacas. Essa herança não desapareceu simplesmente com as mudanças legais e institucionais.




As religiões de matriz africana, em particular, carregam as marcas desse pprocesso histórico. Terreiros foram perseguidos, objetos sagrados apreendidos e sacerdotes e sacerdotisas criminalizados. Durante diferentes períodos da história brasileira, práticas religiosas negras foram alvo da repressão do Estado e de setores da sociedade. a liberdade religiosa, portanto, não foi uma conquista abstrata: foi resultado de lutas concretas de grupos que precisaram defender o direito de existir.


É nesse ponto que precisamos olhar para os casos atuais. Quando um terreiro é invadido, vilipendiado, quando símbolos sagrados são destruídos, quando uma criança é constrangida na escola por sua religião, quando alguém é agredido verbal ou fisicamente por utilizar uma roupa, um fio de contas ou qualquer outro elemento de sua tradição religiosa, não estamos diante de acontecimentos sem conexão entre si. Cada episódio precisa ser investigado em sua particularidade, mas também compreendido dentro de um contexto histórico maior.


Olhar para os casos significa ouvir as vítimas, registrar os acontecimentos, identificar os responsáveis e compreender as circunstâncias em que a violência ocorreu. Significa também produzir dados, pesquisas e conhecimento. Sem memória e sem documentação, a intolerância corre o risco de ser naturalizada, relativizada ou simplesmente esquecida.


A universidade e os centros de pesquisa têm papel fundamental nesse processo. A produção acadêmica pode ajudar a retirar o tema do campo do senso comum e colocá-lo no lugar que merece: o de uma questão social, histórica, política e de direitos humanos. Pesquisar a intolerância religiosa é investigar suas causas, seus mecanismos de reprodução e suas consequências para indivíduos e comunidades.


Também é necessário compreender que liberdade religiosa não significa apenas o direito de professar uma fé dentro de casa. Significa poder viver publicamente essa identidade sem sofrer discriminação. Uma democracia verdadeiramente plural precisa garantir que diferentes tradições religiosas possam ocupar escolas, universidades, espaços culturais, meios de comunicação e instituições públicas sem que uma crença seja utilizada para desqualificar outra.


Por isso, enfrentar a intolerância religiosa exige mais do que discursos de ocasião. É necessário fortalecer políticas públicas, ampliar a educação para a diversidade religiosa, formar profissionais para reconhecer e encaminhar situações de discriminação e garantir que as denúncias sejam efetivamente acolhidas e investigadas.


Precisamos, sobretudo, abandonar a ideia de que esses episódios são menores. Nenhum ataque contra uma tradição religiosa deve ser tratado como algo banal. A violência contra a fé do outro também é uma violência contra o princípio de convivência democrática.

O Brasil é um país plural. Sua história foi construída por diferentes povos, culturas e tradições religiosas. Reconhecer essa diversidade não significa concordar com todas as crenças, mas compreender que nenhuma pessoa deve ter sua dignidade violada por aquilo em que acredita.


Olhar para cada caso é, portanto, um exercício de responsabilidade. É reconhecer a dor de quem sofreu, compreender as raízes históricas da violência e construir instrumentos para que ela não se repita.


A intolerância religiosa não nasce de um episódio isolado. Ela é alimentada pela ignorância, pelo preconceito, pela desinformação e por heranças históricas que ainda precisam ser enfrentadas. E somente quando formos capazes de olhar para esses casos com seriedade, individualmente, mas também dentro de seu contexto histórico e social, estaremos mais próximos de construir uma sociedade em que a liberdade religiosa deixe de ser apenas um princípio constitucional e seja, de fato, uma experiência cotidiana para todos.




Babalawô Ivanir dos Santos


Babalawô, Dr. Prof. do Programa de pós-graduação em História Comparada da Universidade Federal do RJ, interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR) e Fundador do Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP)/Membro da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN).


Há 40 anos atuando em prol das liberdades, dos direitos humanos, das pluralidades contra o racismo e a intolerância religiosa, Ivanir dos Santos recebeu o prêmio International Religious Freedom (IRF), em julho de 2019. O Prêmio foi entregue pelo Departamento de Estado do Governo dos Estados Unidos, durante evento em Washington, pela sua importância na luta contra a intolerância a praticantes de religiões de matriz africana no Brasil. Ele foi o único líder religioso do Ocidente a ser premiado


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