Da Casa de Oxumarê à Sapucaí: o orixá do arco-íris ganha o Carnaval do Rio de Janeiro em 2027 pela Unidos do Jacarezinho
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A escola será a segunda a desfilar na sexta-feira de Carnaval, 5 de fevereiro

✅ 29/8/2026 | 09:02
Uma das mais tradicionais celebrações dedicadas a Oxumarê na Bahia ganhará a Marquês de Sapucaí no Carnaval de 2027. O Ajodun Oxumarê, realizado pela histórica Casa de Oxumarê, será o eixo do enredo que a Unidos do Jacarezinho levará para a Avenida: “Ajodun Oxumarê — O Dia em que o Arco-Íris Tocou a Terra”.
A proposta celebra Oxumarê, orixá associado ao movimento, à continuidade da vida, à renovação e à transformação, e estabelece uma conexão entre Salvador e o Rio de Janeiro ao levar para o centro do Carnaval carioca uma tradição religiosa preservada pela Casa de Oxumarê há gerações. Construído com a colaboração da Casa, o enredo reúne pesquisa, memória e saberes ancestrais em uma narrativa que será traduzida pela escola para a linguagem do Carnaval.
Da celebração religiosa ao enredo
Realizado pela Casa de Oxumarê, o Ajodun integra uma tradição religiosa que atravessa gerações e está profundamente ligada à memória do terreiro e à continuidade dos saberes do candomblé na Bahia. Em 2027, essa celebração ganhará uma nova dimensão ao ser traduzida pela linguagem do Carnaval e apresentada diante de milhares de pessoas na Sapucaí.
A escolha acontece em um momento particularmente simbólico para o Unidos do Jacarezinho. A escola completa 60 anos e busca reconstruir sua trajetória depois de um período marcado por dificuldades. É justamente a ideia de transformação associada a Oxumarê que passa a orientar também o momento vivido pela agremiação.
A própria escola resume essa conexão a partir da ideia de “trocar de pele”: deixar para trás aquilo que passou, renovar forças e iniciar um novo ciclo.
O enredo, porém, não pretende simplesmente transportar para a Avenida uma narrativa histórica sobre Oxumarê. A proposta dos enredistas Mateus Pranto, Raphael Homem e João Gabriel, com participação do carnavalesco Cadu (Carlos Eduardo) na pesquisa, no texto e no desenvolvimento do projeto, parte de uma perspectiva mais íntima.

A história será conduzida pela experiência de um filho de Oxumarê, que percorre um caminho de autoconhecimento até reconhecer a presença do orixá em si mesmo e no mundo ao seu redor. O percurso transforma-se, assim, em uma narrativa sobre pertencimento, renascimento, reinvenção e recomeço.
A intenção é fazer com que essa transformação não seja apenas uma ideia apresentada ao público, mas uma experiência compartilhada pelos próprios componentes da escola.
Uma Casa de quase dois séculos no Carnaval carioca
A presença da Casa de Oxumarê confere ao projeto uma dimensão que ultrapassa a escolha de uma temática religiosa. Considerada uma das mais tradicionais casas de candomblé da Bahia, a instituição preserva uma trajetória histórica que se estende por quase dois séculos, mantendo vivos conhecimentos, práticas, memórias e tradições das religiões de matriz africana.
O Ajodun nasce justamente desse território de memória. A celebração reúne elementos de fé, ancestralidade e continuidade e, ao chegar à Sapucaí, passa a dialogar com outra importante expressão da cultura popular brasileira: o Carnaval.
Por isso, a participação da Casa na construção do enredo é um dos aspectos centrais do projeto. A pesquisa e o desenvolvimento da narrativa contam com a contribuição do Babá Egbé da Casa de Oxumarê, em Salvador, estabelecendo uma colaboração entre o terreiro e a escola de samba para que a celebração seja apresentada respeitando sua dimensão simbólica e religiosa.
A iniciativa também cria uma oportunidade para ampliar o conhecimento sobre a própria Casa de Oxumarê e sobre o Ajodun, levando para além dos espaços do terreiro uma tradição que permanece viva na Bahia.
Oxumarê como movimento e transformação
Na cosmologia iorubá, Oxumarê está associado ao movimento, à renovação e à continuidade. A imagem do arco-íris, frequentemente relacionada ao orixá, torna-se uma das referências visuais mais conhecidas de sua presença simbólica.
Mas é justamente nesse ponto que o projeto carnavalesco pretende ir além do óbvio.
Para Cadu, o desafio será transformar em imagens uma história que nasce muito mais do sentimento do que da representação literal.
“Oxumarê nos oferece um universo visual poderoso, mas não queremos ficar apenas na beleza do arco-íris ou na figura da serpente. Existe uma história de autoconhecimento, renascimento e transformação que precisa aparecer na avenida. E, principalmente, precisamos fazer com que o componente se reconheça nesse caminho”, afirma.
A proposta é fazer com que a estética acompanhe a trajetória do personagem central do enredo: alguém que precisa olhar para si, reconhecer sua própria força e compreender o processo de transformação como possibilidade de recomeço.
Essa escolha também aproxima o universo de Oxumarê da própria história recente do Jacarezinho. Ao apostar em um enredo de temática afro, a escola busca valorizar a ancestralidade e, simultaneamente, construir uma narrativa capaz de dialogar com sua comunidade no presente.
Uma escola em busca de um novo ciclo
A renovação não está apenas no argumento do enredo. Ela se tornou o conceito que orienta o projeto da escola para 2027.
Segundo o presidente Valdir Bytoko, a escolha de Oxumarê responde a uma necessidade de reconstrução da própria agremiação e ao desejo antigo de seus componentes de levar à Avenida uma temática afro que valorize sua ancestralidade.
O objetivo declarado pela direção é recuperar o orgulho de ser Jacarezinho e recolocar a escola no caminho de volta ao Grupo Especial.
Na direção de Carnaval, Jurandir Baptista afirma que o trabalho está sendo estruturado a partir de quatro princípios: respeito, lealdade, organização e orgulho. A intenção é fazer com que esses valores estejam conectados à proposta de renovação apresentada pelo enredo. Assim, a trajetória de um filho de Oxumarê em busca de si mesmo encontra a trajetória de uma escola que também pretende se reconstruir.
Da Bahia para a Sapucaí
A escolha do Ajodun estabelece, ainda, uma importante conexão cultural entre dois territórios.
De um lado, está Salvador, onde a Casa de Oxumarê preserva uma tradição religiosa construída ao longo de gerações. Do outro, o Rio de Janeiro, onde o Carnaval transformará essa celebração em narrativa visual, musical e coletiva.

A Sapucaí será, portanto, o ponto de encontro entre a memória de um terreiro histórico e a capacidade do samba de transformar histórias, símbolos e tradições em uma experiência compartilhada por milhares de pessoas.
Em um Carnaval marcado pelos 60 anos do Unidos do Jacarezinho, Oxumarê aparece como inspiração para um movimento de retorno e continuidade: olhar para a ancestralidade sem permanecer preso ao passado e transformar essa força em impulso para o futuro.
O Unidos do Jacarezinho será a segunda escola a desfilar na sexta-feira de Carnaval, em 5 de fevereiro de 2027, apresentando ao público o Ajodun Oxumarê sob o título “O Dia em que o Arco-Íris Tocou a Terra”. O samba-enredo será encomendado e divulgado posteriormente.
E, quando o arco-íris chegar à Avenida, não será apenas a representação de um orixá. Será também a passagem de uma tradição ancestral da Casa de Oxumarê para um novo território de memória, celebração e reconhecimento.

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