Ogbom Mimó, quando a ancestralidade entra na escola e transforma o futuro do Brasil
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Por: Dr. Aurélio de Odé, Babalorixá

✅ 26/8/2026 | 08:49
O Brasil ainda carrega cicatrizes profundas deixadas por séculos de racismo estrutural, intolerância religiosa e apagamento histórico dos povos africanos e afro-brasileiros. Durante muito tempo, nossas histórias foram silenciadas dentro das salas de aula.
Nossos heróis foram esquecidos.
Nossas espiritualidades demonizadas.
Nossos saberes tratados como invisíveis.
Porém, mesmo diante de tantas tentativas de apagamento, a ancestralidade resistiu.
Resistiu nos terreiros, nos tambores, na oralidade, nos quintais, nas cozinhas ancestrais, nos cantos, nos corpos e nos corações de um povo que jamais deixou sua memória morrer.
É nesse lugar de resistência, amor, educação e reconstrução histórica que nasce o Ogbom Mimó.
Muito mais do que um projeto cultural, o Ogbom Mimó tornou-se um movimento educacional, social e ancestral. Uma ponte viva entre escola, comunidade, identidade e pertencimento. Uma experiência que ultrapassa qualquer definição técnica e alcança algo raro nos tempos atuais: a capacidade de tocar profundamente a alma humana através da educação.
A segunda fase do Ogbom Mimó representa a continuidade de um sonho coletivo que começou a ganhar forma em 2024 e rapidamente transformou-se em um dos mais belos exemplos da aplicação viva da Lei 10.639/03, legislação que estabelece a obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas brasileiras.
Infelizmente, mesmo sendo uma lei federal, ainda são poucas as instituições de ensino que realmente colocam essa prática em ação de maneira séria, profunda e comprometida. Em muitos espaços, a lei permanece apenas escrita no papel. O Ogbom Mimó rompe exatamente com essa superficialidade. Ele não trata a cultura afro-brasileira como algo decorativo ou secundário. Pelo contrário. O projeto coloca os saberes ancestrais no centro da educação, mostrando sua grandiosidade, riqueza e importância para a construção da sociedade brasileira.
A primeira edição do projeto foi histórica.
As atividades desenvolvidas alcançaram repercussão extremamente positiva em jornais, rádios, portais culturais, páginas educativas, blogs, redes sociais e inúmeros perfis que passaram a compartilhar a potência transformadora daquela experiência. O nome Ogbom Mimó começou a circular como referência de educação antirracista, valorização cultural e fortalecimento da identidade afro-brasileira dentro dos espaços escolares. Mas nada foi tão impactante quanto a devolutiva humana recebida após cada ação.
Os olhos brilhando das crianças.
Os estudantes emocionados.
Os professores agradecendo.
Os relatos de jovens que finalmente se sentiram representados dentro da escola. As perguntas curiosas sobre ancestralidade, cultura, religiosidade e história africana. As mensagens recebidas de alunos pedindo que a imersão acontecesse novamente. Talvez o maior sucesso do Ogbom Mimó tenha sido exatamente esse: despertar pertencimento.
Muitos estudantes relataram que nunca haviam participado de uma experiência educativa tão viva, tão bonita e tão emocionante. Não era apenas uma palestra. Não era apenas uma apresentação cultural. Era uma verdadeira imersão ancestral, artística e educativa.
O teatro emocionava.
Os tambores despertavam memórias.
As danças encantavam.
As músicas aproximavam.
As conversas quebravam preconceitos.
As oficinas despertavam curiosidade.
E a ancestralidade ensinava sem precisar impor.
O Ogbom Mimó mostrou que educar também pode ser acolher. Pode ser emocionar. Pode ser transformar.
O mais bonito de tudo é perceber que crianças e adolescentes compreenderam, de maneira natural e profunda, algo que muitos adultos ainda se recusam a entender: o Brasil não existe sem a contribuição dos povos africanos e afro-brasileiros.
Cada atividade realizada reafirmou a necessidade urgente de uma educação verdadeiramente plural, democrática e antirracista.
Uma educação que respeite todas as formas de fé.
Que ensine diversidade sem intolerância.
Que apresente os povos tradicionais de matriz africana não através dos estigmas, mas através de sua riqueza civilizatória, cultural, espiritual, artística e humana. Infelizmente, durante essa caminhada, também enfrentamos o preconceito de maneira explícita.
Uma escola da rede pública recusou-se a receber o projeto simplesmente porque sua direção estava ligada a um determinado segmento religioso que não demonstrou respeito pela diversidade espiritual e pelas tradições afro-brasileiras. Foi um episódio doloroso, mas extremamente revelador.
Revelador porque mostra que ainda existe intolerância religiosa dentro de espaços que deveriam promover conhecimento, inclusão e respeito.
Revelador porque evidencia o quanto projetos como o Ogbom Mimó são necessários. Revelador porque confirma que o racismo religioso ainda tenta impedir o avanço de iniciativas que valorizam as culturas afro-brasileiras.
Esse lamentável episódio não foi ignorado nem silenciado. A situação foi oficialmente registrada em nosso relatório final encaminhado ao Ministério da Cultura, para que as devidas providências sejam tomadas. O espaço escolar não pode ser utilizado para excluir culturas, discriminar espiritualidades ou negar direitos garantidos pela Constituição Federal e pela própria Lei 10.639/03.
Nenhuma crença religiosa pode estar acima do direito à educação plural.
Nenhuma direção escolar pode transformar a escola em um território de exclusão cultural.
A educação precisa libertar, nunca censurar.
Apesar desse episódio isolado, o Ogbom Mimó continuou florescendo com ainda mais força. Porque onde existe ancestralidade verdadeira, existe também resistência. A segunda fase do projeto chega justamente para ampliar horizontes, fortalecer caminhos e aprofundar ainda mais esse diálogo entre cultura, educação e transformação social. Ogbom Mimó não é apenas um projeto do Ilê Odé Axé Opô Inle.
Ogbom Mimó é um modelo de educação que deveria ser executado em todas as escolas do Brasil, todos os anos letivos.
Não como favor.
Não como evento opcional.
Mas como dever institucional.
Como compromisso pedagógico.
Como prática permanente de combate ao racismo.
Como valorização da identidade brasileira.
Como cumprimento legítimo da Lei 10.639/03.
Quando uma criança aprende sobre África de maneira digna, ela cresce diferente. Quando um estudante negro se vê representado positivamente dentro da escola, sua autoestima muda.
Quando a cultura afro-brasileira é ensinada com respeito, o preconceito perde força. Quando os tambores entram na escola, a ignorância recua.
Quando a ancestralidade ocupa espaço, o racismo começa a perder terreno.
O Ogbom Mimó é exatamente isso: educação que cura feridas históricas. E nada disso seria possível sem pessoas que acreditaram nesse sonho coletivo. É fundamental reconhecer e parabenizar a Érika Kokay, que confiou na potência desse projeto e acreditou na capacidade transformadora da arte, da educação e da ancestralidade. Seu apoio demonstra compromisso verdadeiro com a cultura, os direitos humanos, a igualdade racial e o fortalecimento das comunidades tradicionais.
Nosso profundo reconhecimento também à Asiwajú Produções, que assumiu essa missão com coragem, sensibilidade, responsabilidade e excelência, conduzindo um trabalho que ultrapassou expectativas e deixou marcas profundas por onde passou. Ao Ilê Odé Axé Opô Inle, espaço de ancestralidade, acolhimento, resistência e construção coletiva, nosso respeito e gratidão por manter viva a chama dos saberes tradicionais e transformá-los em instrumentos de educação e dignidade. Ao grupo teatral Cenas Emendadas, que emocionou estudantes através da arte e mostrou que o teatro também é ferramenta de consciência social e transformação humana. Ao Afoxé Omó Ayó, que levou musicalidade, identidade, alegria e ancestralidade para dentro das escolas, despertando encantamento e respeito através da cultura afro-brasileira. Ao grupo junino Arrasta-pé, que mostrou a beleza das tradições populares brasileiras e sua profunda ligação com as raízes afrodescendentes. E principalmente a cada artista, educador, oficineiro, produtor, técnico, voluntário, liderança comunitária, estudante e colaborador que ajudou a construir essa gigantesca obra chamada Ogbom Mimó.
O projeto já não pertence apenas aos seus realizadores. Ele pertence às crianças que se reconheceram. Aos jovens que perderam o medo de suas raízes. Aos professores que decidiram ensinar com mais consciência. Às comunidades que compreenderam a importância da ancestralidade dentro da educação. E pertence também ao futuro. Porque o Ogbom Mimó planta sementes. Sementes de respeito. Sementes de pertencimento. Sementes de consciência racial. Sementes de humanidade.
O Brasil precisa urgentemente compreender que investir em projetos como este não é gasto, é reparação histórica. É construção de cidadania. É fortalecimento da democracia. É proteção cultural. É combate ao racismo. É valorização da diversidade. É educação em sua forma mais bonita, mais humana e mais transformadora. Enquanto houver preconceito, o Ogbom Mimó será necessário.
Enquanto houver intolerância religiosa, o Ogbom Mimó será resistência.
Enquanto houver crianças negras precisando enxergar sua beleza e sua história dentro da escola, o Ogbom Mimó continuará sendo urgente.
Porque ancestralidade também educa. E quando a ancestralidade entra na escola, o futuro inteiro começa a mudar.

Dr. Aurélio de Odé, Babalorixá
Eu sou Paulo Aurélio Carvalho Lopes, nasci em 12 de agosto de 1968, em Simões, Piauí. Sou o primogênito de uma família de seis irmãos, criado por minha mãe solo, Maria do Socorro Carvalho e o apoio de meus avós Dona Maria e Seu José... [+ informações do Dr. Aurélio de Odé, Babalorixá]
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