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Ancestralidade em Alerta: Democracia, Racismo e o compromisso dos povos de axé com o progresso social

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    WR Express
  • há 2 dias
  • 4 min de leitura

Por: Dr. Aurélio de Odé, Babalorixá

05/02/2026 | 09:30


Ser povo tradicional de matriz africana no Brasil de hoje é, antes de tudo, um ato contínuo de resistência. Resistimos para existir, para permanecer e para transmitir saberes que atravessaram séculos de violência, silenciamento e tentativa de apagamento. Nossos terreiros não são apenas espaços religiosos, são territórios de memória, cuidado, alimentação, educação comunitária e reconstrução da dignidade de um povo historicamente ferido pelo racismo estrutural.


Falo a partir do lugar de babalorixá, de quem carrega a responsabilidade ancestral de cuidar de pessoas, de histórias e de fundamentos sagrados. A luta que travo não começou comigo e não termina em mim. Ela nasce com nossos ancestrais sequestrados de África, passa pelos quilombos, pelos terreiros perseguidos, pelas casas queimadas, pelos objetos sagrados apreendidos e segue viva cada vez que somos obrigados a justificar nossa fé diante de um Estado que ainda insiste em nos tratar como problema.



O racismo que enfrentamos hoje se manifesta de forma sofisticada e cruel. Ele aparece nas leis que não nos reconhecem plenamente, nas ações policiais que invadem terreiros, nas denúncias infundadas, no discurso de ódio travestido de liberdade religiosa e na negação sistemática de políticas públicas para nossas comunidades. É um racismo que mata, adoece, empobrece e tenta nos empurrar para a invisibilidade social.


A violência contra os povos de axé não é apenas física, ela é simbólica, institucional e

emocional. Quando um terreiro é atacado, não se destrói apenas um espaço, rompe-se um elo de cuidado coletivo. Quando uma liderança religiosa é desrespeitada, todo um povo sente o impacto. Ainda assim, seguimos firmes, porque nossa fé é construída no coletivo, no axé compartilhado, na força do tambor e na sabedoria dos mais velhos.

Minha luta como babalorixá sempre esteve ligada à justiça social. Não há spiritualidade

verdadeira onde há fome, abandono e exclusão. Por isso, nossas casas de axé acolhem,

alimentam, orientam e protegem. Fazemos o que muitas vezes o poder público não faz.

Cuidamos de crianças, idosos, mulheres e jovens em situação de vulnerabilidade, sem

perguntar de onde vêm ou o que acreditam. Isso também é sagrado.


Ao olhar para 2026, carrego expectativas que nascem da esperança ativa, não da espera passiva. Espero um ano de fortalecimento das organizações dos povos tradicionais, de maior unidade entre as casas de axé e de avanços concretos no enfrentamento ao racismo religioso. Desejo que o Estado compreenda, de forma definitiva, que nossos territórios são espaços de direito e que nossas práticas são patrimônio vivo da sociedade brasileira. Espero também que 2026 seja um ano de formação política para nossas lideranças, de proteção jurídica para nossos terreiros e de ampliação das políticas públicas voltadas à segurança alimentar, à cultura e à educação nos espaços tradicionais. Que possamos ocupar mesas de decisão sem precisar pedir permissão para existir. Que nossas crianças cresçam orgulhosas de sua ancestralidade, sem medo de dizer quem são.


Seguiremos caminhando com os pés no chão, com o coração nos ancestrais e com o olhar no futuro. Porque o axé não se dobra ao ódio. Ele se renova na luta, na coletividade e na certeza de que nossos saberes são fundamentais para a construção de um Brasil mais justo, plural e verdadeiramente democrático.


Ano de eleição: Democracia, Axé e Vigilância, Reflexões sobre o Momento Político Brasileiro O Brasil vive um tempo que exige atenção, memória e posicionamento. Para os povos tradicionais de matriz africana, o debate político nunca foi algo distante ou abstrato. As decisões tomadas nos palácios sempre chegaram primeiro aos nossos terreiros, aos nossos corpos e às nossas comunidades. Por isso, olhar para o cenário político atual é, para nós, um exercício de sobrevivência e responsabilidade histórica.


A experiência recente com um governo de perfil extremista deixou marcas profundas.

Vivemos um período de ataques diretos e indiretos às políticas de promoção da igualdade racial, ao reconhecimento dos povos tradicionais e à própria democracia. O discurso de ódio foi naturalizado, a intolerância religiosa ganhou espaço e o racismo institucional encontrou respaldo no silêncio e, muitas vezes, na ação do Estado.


Durante esse período, assistimos ao desmonte de conquistas construídas com muito

esforço. Conselhos foram esvaziados, políticas públicas desmontadas, recursos cortados e programas essenciais interrompidos. Para o povo de axé, isso significou menos proteção aos terreiros, menos reconhecimento cultural, menos apoio às ações sociais que historicamente desenvolvemos nos territórios onde o Estado raramente chega.


O retrocesso não foi apenas administrativo, ele foi simbólico. Houve uma tentativa clara de deslegitimar nossas existências, nossas práticas e nossa contribuição para a sociedade brasileira. Quando um governo desqualifica a diversidade religiosa e cultural, ele enfraquece os pilares da democracia e abre espaço para a violência e a exclusão.


É nesse contexto que a escolha política se torna um ato de cuidado coletivo. Defender a democracia é defender o direito de existir. Defender um projeto político comprometido com os direitos humanos é garantir que os povos tradicionais não sejam novamente empurrados para a margem da sociedade. Não se trata de idolatria política, mas de compromisso com um projeto de país que reconheça seu povo em toda a sua diversidade.


A presença de um presidente de esquerda, como Luiz Inácio Lula da Silva, pela quarta vez, representa a retomada de um caminho interrompido. Um caminho onde o diálogo volta a existir, onde os povos tradicionais são chamados à mesa, onde políticas de combate à fome, ao racismo e à intolerância religiosa voltam a ser prioridade. Para o povo de axé, isso significa respirar novamente em um ambiente institucional menos hostil.


Há a certeza de que o progresso social passa pelo fortalecimento da democracia, pela

valorização da cultura popular e pelo respeito às tradições ancestrais. Nenhum país avança quando nega sua própria história. Nenhuma nação se fortalece atacando seus povos originários e tradicionais.


Seguimos atentos e organizados, porque aprendemos que direitos não são permanentes, eles precisam ser defendidos todos os dias. O axé nos ensina a cuidar do presente sem esquecer o passado e a preparar o futuro com responsabilidade. Que o Brasil escolha, mais uma vez, o caminho do diálogo, da justiça social e do progresso coletivo. Isso não é apenas uma escolha política, é uma escolha civilizatória.




Dr. Aurélio de Odé, Babalorixá - AxéNews

Dr. Aurélio de Odé, Babalorixá

Eu sou Paulo Aurélio Carvalho Lopes, nasci em 12 de agosto de 1968, em Simões, Piauí. Sou o primogênito de uma família de seis irmãos, criado por minha mãe solo, Maria do Socorro Carvalho e o apoio de meus avós Dona Maria e Seu José... [+ informações do Dr. Aurélio de Odé, Babalorixá]



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7 comentários


pheunafita
há um dia

Que orgulho meu pai ver a sua trajetória ser reconhecida é uma honra fazer parte dessa história de fé e axé pra nossa comunidade Ile ode axe opo inle.

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Giovanna Palatucci
Giovanna Palatucci
há um dia

Excelente texto. Não admitiremos retrocesso, precisamos resistir e lutar pelos nossos direitos

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Fabyele Rissardi
Fabyele Rissardi
há um dia

sabedoria de um babalorixá que honra o sagrado, sou grata a meu pai Ode por ter me feito sua filha. Ser filha de um Baba que tem um conhecimento rico no que leva.

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Festejar Eventos José
Festejar Eventos José
há um dia

Que riqueza de conteúdo meu pai.

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Edmo Antonio da Silva
Edmo Antonio da Silva
há um dia

Extremamente necessário uma reflexão sobre letramento racial e consciência de classe, parabéns Pai, sua bença!

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