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Religiões de Matriz Africana no Censo: retratos incompletos de uma tradição resistente

  • Foto do escritor: WR Express
    WR Express
  • 15 de jun. de 2025
  • 3 min de leitura

Por Ana Paula Miranda e Andréia Soares Pinto

15/06/2025 | 12:13


O censo demográfico é uma pesquisa destinada a realizar uma contagem da população, em um determinado território, para saber sobre idade, gênero, escolaridade e também sobre religião — funcionando como uma “fotografia” da população brasileira. Mas essa imagem nem sempre mostra todos com nitidez.


Invisibilidades históricas

Até 1980, as religiões de matriz africana não apareciam nas estatísticas oficiais. Seus praticantes eram agrupados sob a categoria de “espiritismo”. A adoção da classificação “Umbanda e Candomblé”, em 1991, pelo IBGE, para se referir às religiões de matriz africana buscou dar conta da diversidade desse universo — um avanço importante, mas ainda limitado



Apesar dessas duas tradições serem as mais conhecidas, elas não representam toda a riqueza e diversidade das práticas religiosas de origem africana no Brasil.


Uma diversidade que vai além da Umbanda e do Candomblé

Nos territórios brasileiros, principalmente nas regiões Norte e Nordeste, existem tradições religiosas enraizadas em matrizes africanas e indígenas, muitas vezes invisibilizadas pelo Censo: Babaçuê, Batuque, Catimbó, Encantaria, Jarê, Jurema, Tambor de Mina, Terecô, Toré, Xambá, , entre outras.


O reconhecimento dessa diversidade é essencial para compreender a complexidade da vida religiosa no Brasil. Reduzi-la a rótulos simplificadores não apenas empobrece a análise, como contraria a legislação nacional: a Lei nº 14.519/2023 instituiu o Dia Nacional das Tradições das Raízes de Matrizes Africanas e Nações do Candomblé, celebrado em 21 de março. 


Religiões negras e resistência

As religiões de matriz africana são, majoritariamente, compostas por pessoas negras. Quando o Censo separa os dados de raça/cor em “pardos” e “pretos”, oculta essa realidade. Se somadas, essas duas categorias representam 56,4% da população brasileira — ou seja, a maioria dos praticantes dessas religiões segue sendo negra. Do mesmo modo que seus princípios e práticas seguem sendo afrocentrados.


Apesar de algumas leituras apressadas sugerirem que o crescimento dessas religiões se deve ao aumento de pessoas brancas, não há dados para confirmar isso. Essa suposição desconsidera um fator essencial: o crescimento das declarações de pertencimento afrorreligioso é resultado de mobilização social.


Desde antes do Censo de 2010, o movimento “quem é de axé, diz que é” vem incentivando a afirmação da identidade religiosa negra. Muitos deixaram de se declarar católicos ou espíritas para assumir publicamente sua fé de matriz africana.


Resistência em tempos de violência

Entre 2017 e 2022, o Brasil assistiu a um aumento expressivo nos casos de intolerância e racismo religioso. Mesmo em um contexto de perseguições e ataques aos terreiros, houve um crescimento no número de pessoas que se identificam como pertencentes às religiões afro-brasileiras. Esse movimento não é só religioso — é também político e resistente.


Dizer “eu sou de matriz africana” é um ato de coragem e afirmação.


O Censo como ferramenta política para garantia de direitos

O Censo 2022 representou um passo importante, mas ainda insuficiente. Ao não captar com profundidade a pluralidade das tradições de matriz africana, reproduz apagamentos históricos.


É urgente que os próximos levantamentos:

• Sejam mais detalhados;

• Tragam perguntas que não estejam presas a territórios;

• Reconheçam a diversidade como parte essencial da identidade brasileira.


No Brasil das violações, os terreiros continuam de pé. Persistem, resistem e reexistem. A luta por visibilidade é também uma luta por justiça e dignidade.



  • Artigo escrito em colaboração com Andréia Soares Pinto.




Joana Bahia - AxéNews

Ana Paula Mendes de Miranda

Doutora em Antropologia (USP); Professora da Universidade Federal Fluminense; Coordenadora do Ginga; Pesquisadora do INCT Ineac.





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