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“Que bela Kitanda, kitandinha de erê”: por que resgatar o 27 de setembro é bem-viver?

há 1 dia
4 min de leitura

Por: Yakekere Katiuscia de Yemanjá

15/9/2026 | 15:21


Este ano completo 43 primaveras! E ao longo delas vi uma das tradições negras mais bonitas e vivas do sudeste brasileiro se perder por conta do que hoje sei nomear: RACISMO RELIGIOSO.


Mas antes de pesar esta linhas com lamúrias revoltosas, queria começar com a doçura, a mesma que vivenciei na década de 90 quando eu mesma nem sabia que aqueles momentos seriam os mais ternos da minha infância.


É bem verdade que eu tinha questões com o fatal dia de Cosme e Damião, o 27 de setembro ( aos meus 10/12 anos eu achava fatal e já já explicarei porque). Este 27 que se repetia todos os anos e era aguardado por inúmeras crianças da demais diversas periferias do Rio.


Então, eu, bem verdade, achava fatal porque tinha algumas pontuações sobre a dinâmica do dia : ter de correr, multidão de crianças acompanhadas por mães , tias , irmãos e irmãs mais velhos, vizinhas andando e andando e andando; mulheres pulando com crianças no colo para pegar brinquedos , doces, frutas atiradas avanço, voando por cima muros daqueles grandes territórios que nós não conhecíamos bem e que as pessoas chamavam macumba.



É, gente, eu infelizmente não nasci no terreiro, vivenciei suas magias e mágicas por muitas óticas como essas da festividades e também da boca miúda que era contra elas. Eu tinha muita curiosidade, mas o momento do avanço era bastante difícil para mim, e já já vamos desvendar este mistério.


Pode parecer que eu estou desenhando uma imagem caótica, mas na verdade ela era a grande bagunça ancestral! Eu ainda muito acanhada, relutava em ver a beleza daquele momento, mas era no rosto de cada criança negra, periférica e pobre, de cada adulta que acompanhava aquele momento, que víamos a magia acontecer: havia um sorriso infinito, um vontade de viver aquele momento como se ele fosse único.


Havia um preparo que começava no início do mês, com a separação das bolsas que carregariam os doces, com a organização da saída, com o mapeamento dos terreiros, das casas, dos carros que iriam distribuir os doces. Lembro do burburinho, “ali só dá doce bom”, “lá na dona Maria eles dão brinquedo”, “Ih, no seu maneco vai ter doce de mesa e os eres vão vir!”


As escolas não marcavam provas, trabalhos e nem cobravam presença, porque sabiam que aquele era o dia sagrado de todas as crianças do bairro, até das que não podiam de fato sair para vivê-lo. Todo mundo sabia que não tinha negociação, sete da matina a meninada tava de pé sem café, se reunindo na equina da rua par começar sua peregrinação . Os baldes de alumínio com tampa já estavam separados para a certeira competição de quem enchia mais de doce. Afinal, esse era o assunto do dia seguinte.


Peregrinávamos o dia inteiro entre portas, muros e quintais! A entrada no quintaldo terreiro não era para todo mundo, só para os corajosos que venciam o falatório do preconceito, porque sim, ele já existia, mas ele não matava os sonhos das crianças e nem as tradições daquele dia.


Eu especialmente amava entrar clandestinamente no terreiro, quietinha eu lia o espaço, entre o brilho nos olhos pela mesa imensa de doces caseiros e o medo das crianças ancestrais, eu firmava coragem e vivia meu sonho de acolhimento. Era uma vez no ano, mas aquele era meu momento secreto, meu e de muitas crianças que só queriam abraços, brincadeiras e um belo pedaço de doce.


Quando me tornei yao, eu entendi a aflição dos brinquedos e doces voando, essa é maior diversão de Princesa, a minha criança ancestral, que nunca deixou de viver aquele momento, mesmo que isso custasse a meu eu criança alguns incômodos. Foi ela e Pedra negra, erê de Baba, que me fizeram refletir porque os terreiros não estavam mais fazendo o dia dos eres, mas sim o dia das crianças determinado pelo mundo branco.


Por que o 27 de setembro não estava sendo preservado como a maior tradição de bemviver para as infâncias promovida pelos terreiros deste país? Momento este que também servia aos muitos adultos que não tiveram direito de ser criança.


Aqui no Quinhal de Xangô, nunca conseguimos não fazer o dia 27. Ele existe por todos os anos de nossa jornada como pessoas de matriz africana pela força e coragem de Pedrinha, Rosinha, Pedra negra e Princesa. Ele existe em Guaratiba nos 12 anos de fundação do Oba Labi. E sei que não é fácil para nós, população minoritária e excluída em direitos fazer resistência, porque a gente já resiste a muitas coisas.


Mas ainda sim, a gente quer convidar a partir deste texto, que voltemos a pensar no 27 de setembro pelo o que ele nunca deixou de ser: o maior momento de esperança da nossa tradição ancestral. A maior revolução feita por corpos tão miudinhos e cheia de vida. Minha mãe, Babá Soumim, certa vez disse para nós, “vocês estão muito amargos, precisam de erê”. Quem sabe se essa revolução do resgate de 27 de setembro acontecer, a gente não deixa esse mundão menos amargo?


Quem topa fazer revolução e reconstruir esta tradição tão fundamental para nossa vida?


Ere mi! Viva a criança em mim! Viva a doçura e pureza das crianças!


Axé.




Katiuscia de Yemanjá - AxéNews

Yakekere Katiuscia de Yemanjá

IYÁ Katiuscia de Yemanjá, mulher de terreiro, mãe, Yakekere do Rei Xangô, da família Òbá Labi, corpo-memória cabocla-nordestina ; forjada pela força e o afeto das muitas mulheres. “De anel no dedo e aos pés de Xangô”, mestre em linguagens pela UERJ, professora da educação básica pública e periférica, pesquisadora e defensora dos saberes ancestrais na diáspora. [+ informações de Yakekere Katiuscia de Yemanjá]



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Artigo de Opinião: texto no qual o(a) autor(a) expressa e defende suas ideias, interpretações e vivências sobre determinados temas. As opiniões aqui apresentadas são de responsabilidade do(a) autor(a) e compõem a diversidade de vozes que o AxéNews valoriza e apoia.


 
 
 

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