Fortalecer a ancestralidade para resistir na realidade
Por: Iyalorisá Glauciele T’Osun

✅ 14/9/2026 | 17:57
Tenho aprendido, ao longo da caminhada, que falar de ancestralidade não é
simplesmente olhar para o passado. É reconhecer de onde viemos, valorizar quem
construiu nossos caminhos e encontrar, nessas raízes, força para enfrentar os desafios do presente.
Nossa ancestralidade vive nos saberes que compartilhamos, na comida que nos
alimenta, na cultura que preservamos, na fé que professamos, nas histórias que
contamos e, sobretudo, na capacidade de nossas comunidades de resistirem e
continuarem produzindo vida.
Por isso, fortalecer a ancestralidade é também fortalecer o território.
É nesse entendimento que a Unidade de Território Tradicional Ilê Asé Omi Gbonã,
reconhecida como Ponto de Cultura pelo Ministério da Cultura (MinC) e como
Entidade Gestora, em âmbito nacional, do Programa Cozinha Solidária do
Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome
(MDS), vem construindo sua atuação ao longo desses 10 anos.
Nossos projetos nascem da realidade da comunidade e buscam transformar aquilo que muitas vezes é invisibilizado em potência: a cultura, os saberes tradicionais, a economia solidária, a alimentação, a memória, a arte e a participação comunitária.
A Cozinha Ancestral Solidária Omi Gbonã, as rodas de conversa, as ações de
valorização territorial, as oficinas, o Projeto Omo Omi Aiyê, a Caminhada em Defesa
da Liberdade Religiosa e Valorização da Cultura Afro-Brasileira e o Festival
Coisas de Preto são exemplos de que resistência não acontece apenas no discurso.
Ela acontece quando colocamos a mão na massa, abrimos nossas portas, fortalecemos
quem está ao nosso lado e criamos oportunidades dentro do próprio território.
O Festival Coisas de Preto nasceu justamente desse movimento de valorização da
cultura, da economia solidária, do empreendedorismo, do turismo e dos saberes
produzidos por nossa gente. E desse processo também nasceu o ICVM – Instituto
Cultural Vó Maria, uma homenagem à minha avó materna, cuja memória e
ancestralidade seguem presentes naquilo que construímos.
São iniciativas que mostram que o território não é apenas um espaço geográfico. É lugar de memória, pertencimento, conhecimento, produção de vida e construção de futuro.
Mas existe algo que precisamos compreender: território não pode ser lembrado
somente quando precisamos realizar uma atividade, buscar um parceiro,
desenvolver uma pesquisa ou apresentar um projeto.
Se queremos que nossos territórios sejam reconhecidos, precisamos também estar
presentes neles. Precisamos visitar, ouvir, conhecer, construir relações e compreender as realidades de quem vive todos os dias nesses lugares.
Durante muito tempo, nossas comunidades foram procuradas para fornecer
informações, apresentar suas tradições ou servir como cenário para projetos. Mas nem sempre fomos reconhecidos como protagonistas dos processos que acontecem dentro dos nossos próprios territórios.
Essa lógica precisa mudar.
Valorizar um território significa reconhecer suas lideranças, seus saberes, suas
organizações, seus mestres e mestras, seus empreendedores, seus artistas, suas
cozinheiras, seus jovens, suas crianças e todas as pessoas que, cotidianamente, fazem a vida acontecer.
Não podemos falar de participação sem participar. Não podemos falar de escuta sem
ouvir. Não podemos falar de território sem estar nele.
Quem deseja parceria precisa construir junto. Quem quer conhecer precisa estar
disposto a ouvir. Quem fala em valorização territorial precisa reconhecer que o
território possui saberes, lideranças, histórias e soluções próprias.
É assim que compreendo a resistência: não apenas como reação às dificuldades, mas
como capacidade de criar novas possibilidades a partir daquilo que temos e somos.
A ancestralidade nos ensina que ninguém constrói sozinho. Somos continuidade. Somos memória, presente e futuro.
Quando fortalecemos nossas raízes, fortalecemos também a comunidade, a cultura e o
território.
E talvez esse seja um dos maiores desafios do nosso tempo: compreender que as
comunidades tradicionais não precisam apenas ser visitadas. Elas precisam ser
respeitadas, reconhecidas e incluídas como protagonistas na construção das políticas,
dos projetos e das transformações que dizem respeito às suas próprias vidas.
Fortalecer a ancestralidade é reconhecer nossas raízes.
Valorizar o território é caminhar por ele.
Construir resistência é fazer junto.
E é por isso que sigo acreditando que cultura também é política, que memória também é resistência e que cuidar do território é uma forma de construir futuro.
Porque, afinal: Quem quer ter visita, precisa visitar.

Iyalorisá Glauciele T’Osun
Glauciele Maria, carioca, caçula de 03 irmãos, nascida em berço católico de rezadeiras que tinham como tradição as ladainhas e festejos de reis. 1° incorporação, ainda criança, com o Cacique Pena Branca da Jurema em um quartinho, familiar, de consultas de Umbanda, pelas mãos do Preto Velho Pai Joaquim de Angola... [+ informações de Iyalorisá Glauciele T’Osun]
Rede Social de Iyalorisá Glauciele T’Osun:
Telefone: 21 99680-4780
Artigo de Opinião: texto em que o(a) autor(a) apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretações de fatos, dados e vivências. ** Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do AxéNews. |

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