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Quando falamos em voto religioso, a qual religião nos referimos?

  • há 5 horas
  • 5 min de leitura

Por Ana Paula Miranda

31/8/2026 | 07:59


Nas últimas semanas, fui entrevistada duas vezes sobre o chamado “voto religioso” e essa questão me fez pensar sobre como temos discutido religião e política no Brasil e sobre o quanto, muitas vezes, tomamos a “experiência evangélica” como referência para entender o que seria a participação de pessoas religiosas na política.


A referência é compreensível: igrejas, lideranças, candidaturas, bancadas e campanhas deram grande visibilidade à participação evangélica na política institucional. Mas religião e política nunca estiveram separadas no Brasil. O que muda são as formas dessa relação e os projetos políticos que dela resultam, que podem assumir posições conservadoras ou progressistas, a depender das alianças, das pautas e das disputas em jogo.


A relação entre religião e política não se resume, portanto, à atuação de igrejas católicas e protestantes em defesa de seus interesses ou à eleição de representantes religiosos. Ao tomar essa experiência como padrão, podemos julgar a política das religiões de matriz africana pelo que não fazem, em vez de reconhecer as formas pelas quais os povos de terreiro fazem política.



Nesse contexto, destaca-se a política de terreiros, conceito que desenvolvo para compreender como esses povos fazem política a partir de suas experiências, relações e territórios. Essa atuação vai além de partidos, eleições e instituições: envolve formas cotidianas de organização, mobilização e resistência diante da discriminação, da violência e da negação de direitos. Os terreiros criam vínculos, formam alianças, enfrentam conflitos e estabelecem relações com o Estado.


Essa forma de fazer política não é recente. Já houve, inclusive, diferentes tentativas de transformar essa mobilização em organização partidária e eleitoral própria, mas essa nunca foi a única, nem necessariamente a principal, forma de atuação dos povos de terreiro. A defesa dos territórios, a luta por reconhecimento, a proteção dos espaços sagrados e o enfrentamento ao racismo religioso também fazem parte dessa trajetória e não se apresentam necessariamente como disputa eleitoral.


Não é possível falar em um “voto afrorreligioso” como se houvesse um comportamento eleitoral comum entre pessoas ligadas às religiões de matriz africana. O pertencimento religioso se articula com raça, território, classe, gênero, trajetórias políticas e outras experiências sociais.


Ao mesmo tempo, a participação afrorreligiosa nas disputas eleitorais tem se tornado mais visível. Nas eleições de 2024, o levantamento do Ginga-UFF identificou 284 candidaturas afrorreligiosas entre aquelas cujo pertencimento religioso pôde ser identificado pelo uso de títulos religiosos ou trajes litúrgicos. Estamos finalizando novo levantamento para acompanhar o processo eleitoral em curso e identificar possíveis mudanças em relação às eleições anteriores. Mais do que tratar esses números como uma tendência consolidada, interessa compreender o que esse movimento revela sobre a relação entre a política de terreiros e a política partidária.


Esse movimento eleitoral, contudo, não inaugura a mobilização política dos povos de terreiro. A luta por direitos, contra o racismo e pela liberdade religiosa atravessa diferentes períodos da história brasileira e esteve presente, inclusive, nas disputas em torno da Constituição de 1988. O que se observa mais recentemente é a emergência de mobilizações partidárias e suprapartidárias que passam a formular uma agenda política dos povos de terreiro, em diálogo com pautas da esquerda e do campo progressista. As candidaturas constituem, nesse sentido, uma forma mais recente de expressão de uma mobilização política que já existia.


Em alguns setores desse campo religioso, cresce a percepção de que também é necessário disputar os espaços institucionais da política. Esse movimento se relaciona ao contexto político recente: a passagem de Jair Bolsonaro pela presidência, marcada pela restrição de direitos já estabelecidos, e o aumento das violências contra os terreiros produziram novas formas de mobilização, entre elas a busca de maior participação na política partidária.


Esse contexto também ajuda a compreender o perfil das candidaturas identificadas pelo Ginga-UFF. A aproximação com determinados partidos não decorre apenas da religião, mas de uma trajetória de luta por direitos, combate ao racismo e defesa da liberdade religiosa.


Ao analisar os dados eleitorais, surge uma questão central: a presença afrorreligiosa na política é difícil de dimensionar. A religião das candidaturas não é informada por autodeclaração nos dados oficiais e, em contextos de racismo religioso, declarar publicamente esse pertencimento pode ampliar a exposição à discriminação e à violência. Uma pessoa pode, portanto, integrar uma religião de matriz africana sem revelar esse vínculo durante uma campanha eleitoral. Por isso, os números disponíveis provavelmente não captam toda a presença afrorreligiosa na política.


A questão também exige cuidado ao relacionar raça e religião. As religiões de matriz africana foram historicamente racializadas, e a discriminação contra seus praticantes costuma combinar dimensões religiosas e raciais. Ao mesmo tempo, os próprios povos de terreiro têm se autodeclarado afrorreligiosos, embora o termo também seja utilizado por outros grupos que não necessariamente pertencem a essas tradições. Isso mostra que a categoria não pode ser definida apenas pela identidade racial. Ser uma pessoa preta ou parda não significa ser afrorreligiosa; da mesma forma, pertencer a uma religião de matriz africana não determina uma única identidade racial nem um posicionamento político específico.


O racismo religioso mostra como essas dimensões se articulam: a violência atinge pessoas, práticas, símbolos, espaços sagrados e territórios. Está em jogo não só a liberdade de crença, mas o direito à existência e ao reconhecimento de modos de vida historicamente discriminados. É também a partir dessas experiências que se constroem formas específicas de sociabilidade, pertencimento e mobilização política.


Os terreiros são, portanto, espaços de sociabilidade, pertencimento e mobilização, mas não funcionam como estruturas eleitorais equivalentes às de certas igrejas evangélicas. A diferença não está na existência ou ausência de organização política, e sim nas distintas maneiras de fazer política.

Para ser reconhecida como política, a política de terreiros não precisa se converter em uma versão afrorreligiosa da política evangélica. A criação de uma bancada da “macumba” não reproduziria simplesmente, no campo oposto, a lógica do BBB — Bíblia, Boi e Bala.


Os terreiros não formam uma estrutura política única nem seguem uma orientação eleitoral comum. Isso não indica falta de organização, mas a existência de práticas políticas baseadas em redes, alianças e mobilizações que não se reduzem às estruturas eleitorais. Se a experiência evangélica for adotada como parâmetro, corremos o risco de reconhecer como política apenas o que se organiza em torno de igrejas, lideranças, candidaturas e estruturas eleitorais. Nos terreiros, a disputa eleitoral é apenas uma dimensão de uma política construída também no cotidiano e na luta por direitos.


Além disso, representação não se resume à eleição de pessoas de terreiro. Há políticos que não pertencem às religiões de matriz africana, mas apoiam a agenda dos terreiros e defendem a liberdade religiosa, o combate ao racismo religioso e a garantia de direitos. Essas alianças também integram a política de terreiros e devem ser consideradas quando discutimos representação.


O desafio, portanto, não é apenas ampliar o número de candidaturas afrorreligiosas, mas garantir que os direitos e as demandas dos povos de terreiro tenham presença efetiva na política institucional. Isso pode ocorrer pela eleição de pessoas de terreiro, mas também pela eleição de pessoas comprometidas com a defesa desses direitos e pela construção de alianças com parlamentares que assumam essa agenda. Trata-se de transformar uma mobilização histórica por direitos em capacidade de representação política, sem reduzi-la à lógica eleitoral.


Talvez seja mais produtivo deixar de perguntar apenas “em quem votam os povos de terreiro?” e passar a perguntar “como os povos de terreiro fazem política?”. A política de terreiros não nasce nas eleições: chega a esse espaço trazendo uma longa história de resistência, reivindicação de direitos e combate ao racismo religioso. O que vemos agora é a construção de novas formas de presença institucional para uma política que já existia.




Joana Bahia - AxéNews

Ana Paula Mendes de Miranda

Doutora em Antropologia (USP); Professora da Universidade Federal Fluminense; Coordenadora do Ginga; Pesquisadora do INCT Ineac.




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