Quando a ancestralidade negra é questionada, a história inteira precisa responder
Por: Lelo Oliver

✅ 18/9/2026 | 08:46
Há momentos em que uma sociedade precisa interromper o fluxo cotidiano das palavras para refletir sobre aquilo que está sendo dito, sobre as ideias que estão sendo colocadas em circulação e, principalmente, sobre as consequências que determinadas narrativas podem produzir. Quando uma tradição profundamente ligada à ancestralidade africana é apresentada a partir de uma perspectiva que diminui, desloca ou questiona a presença histórica do povo negro, não estamos diante de uma questão menor. Estamos diante de um debate sobre memória, identidade, pertencimento e preservação cultural.
A Onirá Editora entende que esse debate precisa ser conduzido com responsabilidade, conhecimento histórico e respeito. Não se trata de transformar diferenças de entendimento em conflitos pessoais, tampouco de determinar quem pode ou não exercer sua fé. Trata-se de reconhecer que nenhuma discussão sobre as religiões de matriz africana pode ignorar a história dos povos africanos e negros que, no Brasil, preservaram conhecimentos, ritos, símbolos, valores e formas de organização comunitária diante de séculos de violência, perseguição e intolerância.
A história do Candomblé está profundamente relacionada à história da diáspora africana. Homens e mulheres trazidos à força para o Brasil não chegaram apenas com seus corpos. Trouxeram consigo memórias, línguas, conhecimentos, cosmologias, formas de compreender a natureza, relações comunitárias e experiências espirituais. Mesmo submetidos a condições brutais de existência, muitos desses conhecimentos encontraram caminhos para sobreviver.
Essa sobrevivência não aconteceu sem resistência. Pelo contrário. A preservação das tradições africanas e afro-brasileiras foi marcada por enfrentamentos constantes. Durante diferentes períodos da história brasileira, manifestações religiosas de origem africana foram perseguidas e estigmatizadas. A intolerância não se limitou às palavras. Ela alcançou os espaços religiosos, os objetos sagrados, os instrumentos, os rituais e os próprios corpos das pessoas que mantinham essas tradições vivas.
Por isso, quando se fala sobre Candomblé, falar sobre ancestralidade não é acrescentar um elemento à discussão. É tocar em um de seus fundamentos históricos. Não é possível compreender plenamente a existência dessas tradições no Brasil sem reconhecer os povos que as preservaram e as comunidades que, geração após geração, mantiveram conhecimentos que poderiam ter desaparecido.
Essa constatação não significa afirmar que somente pessoas negras possam participar das religiões de matriz africana. A realidade dos terreiros brasileiros é diversa, e pessoas de diferentes origens podem encontrar nessas tradições caminhos de espiritualidade, aprendizado e pertencimento. O reconhecimento dessa diversidade, entretanto, não pode ser confundido com o apagamento das origens.
Uma coisa é reconhecer quem participa de uma tradição no presente. Outra é reescrever a história de como essa tradição chegou até nós.
É justamente nessa diferença que se encontra uma das questões mais importantes do debate atual. A participação de novos sujeitos não elimina a trajetória daqueles que vieram antes. O pertencimento de uma pessoa não precisa significar o desaparecimento do pertencimento histórico de um povo.
Uma tradição pode acolher sem esquecer. Pode ser plural sem abandonar suas raízes. Pode receber novas pessoas sem transformar seus ancestrais em personagens secundários de sua própria história.
O problema do embranquecimento cultural aparece justamente quando essa relação é rompida. Embranquecer não significa apenas retirar pessoas negras de determinado espaço. O processo pode ocorrer também quando a origem negra de uma tradição é relativizada, quando seus protagonistas históricos são esquecidos ou quando símbolos africanos são mantidos enquanto as histórias das comunidades que os preservaram são apagadas.
A cultura pode ser embranquecida pela narrativa.
Pode ser embranquecida quando a estética permanece, mas a memória desaparece. Pode ser embranquecida quando determinados elementos de uma tradição são valorizados, mas as pessoas que os preservaram são invisibilizadas. Pode ser embranquecida quando a ancestralidade é utilizada como referência simbólica, mas a experiência histórica do povo negro é tratada como algo secundário.
Esse processo é especialmente grave porque o apagamento cultural não acontece de uma única vez. Ele pode acontecer aos poucos. Uma geração deixa de ouvir determinada história. Outra deixa de reconhecer determinada origem. Outra passa a acreditar que aquela tradição sempre foi exatamente como é apresentada no presente. Quando isso acontece, o passado vai sendo substituído por uma narrativa incompleta.
A memória, portanto, precisa ser protegida.
E proteger a memória não significa congelar uma cultura no passado. Significa permitir que ela se transforme sem perder a consciência de suas raízes.
O Brasil possui uma dívida histórica com as culturas africanas e afro-brasileiras. Durante muito tempo, elementos fundamentais dessas culturas foram apropriados, transformados, comercializados ou incorporados ao imaginário nacional sem que seus criadores e preservadores recebessem o devido reconhecimento. A sociedade brasileira aprendeu a consumir determinadas expressões da cultura negra enquanto, simultaneamente, muitas vezes rejeitava as pessoas negras responsáveis por sua preservação.
Essa contradição precisa ser enfrentada.
É possível admirar a música, a culinária, a estética, a religiosidade e os conhecimentos provenientes das culturas africanas e, ainda assim, reproduzir práticas que desvalorizam as pessoas negras? É possível celebrar elementos de uma tradição enquanto se questiona o direito histórico de seus próprios protagonistas? Essas perguntas não podem ser ignoradas.
Para a Onirá Editora, a resposta passa necessariamente pela educação, pela produção cultural e pela escrita.
Escrever sobre ancestralidade é uma forma de preservar aquilo que o tempo e o apagamento tentam destruir. Publicar autores negros é ampliar o espaço para que experiências negras sejam registradas por quem as vive, pesquisa e conhece. Colocar essas obras em circulação significa contribuir para uma memória mais completa do país.
A escrita preta possui justamente essa potência. Ela não existe para apagar outras narrativas. Existe para impedir que apenas uma narrativa seja considerada legítima.
Durante muito tempo, a população negra foi descrita por pessoas que estavam fora de suas comunidades. Muitas dessas descrições foram atravessadas por preconceitos, interpretações equivocadas e visões que colocavam a cultura africana em posição inferior. A produção intelectual negra contribuiu e continua contribuindo para modificar essa realidade.
Quando pessoas negras escrevem sobre sua história, suas comunidades, sua religiosidade e sua ancestralidade, elas não estão apenas produzindo literatura. Estão também construindo memória.
Esse é um dos motivos pelos quais a Onirá Editora entende que o livro é uma ferramenta de resistência cultural. Um livro pode atravessar gerações. Pode chegar a uma criança que ainda não conhece determinada história. Pode alcançar um estudante que precisa de outra perspectiva. Pode preservar o relato de uma comunidade. Pode registrar uma experiência que, sem aquele trabalho, poderia desaparecer.
A ancestralidade não deve ser tratada como uma palavra bonita utilizada em discursos. Ela carrega histórias concretas de pessoas concretas. São vidas, famílias, comunidades, terreiros, mestres, sacerdotes, sacerdotisas, pesquisadores, escritores e tantos outros sujeitos que ajudaram a manter conhecimentos vivos.
Quando essa história é questionada, a resposta não precisa ser construída pelo ódio. Pode ser construída pelo conhecimento.
Pode ser construída pela pesquisa.
Pode ser construída pela memória.
Pode ser construída pelos livros.
É esse o caminho escolhido pela Onirá Editora.
Uma sociedade que reconhece sua diversidade precisa reconhecer também as desigualdades históricas que determinaram quem teve o direito de falar e quem foi obrigado a permanecer em silêncio. O combate ao racismo cultural passa por devolver visibilidade às histórias que foram escondidas e legitimidade às vozes que foram ignoradas.
O povo negro não precisa ser colocado contra ninguém para afirmar sua ancestralidade. Não precisa retirar de outras pessoas o direito de existir para reivindicar o próprio lugar. O que precisa ser assegurado é o direito de sua história permanecer inteira.
Reconhecer a ancestralidade africana do Candomblé não é excluir. É respeitar a história. Reconhecer a contribuição negra não é criar privilégios. É corrigir apagamentos. Valorizar a escrita preta não é impedir outras escritas. É ampliar o espaço da produção cultural brasileira.
E defender a memória não é viver preso ao passado. É garantir que o futuro tenha conhecimento suficiente para não repetir os apagamentos de ontem.
A Onirá Editora entende que toda sociedade precisa ser capaz de olhar para sua história sem medo de reconhecer suas contradições. E, diante de qualquer narrativa que diminua ou coloque em dúvida o protagonismo histórico do povo negro nas tradições de matriz africana, é necessário reafirmar aquilo que a memória preserva: nenhuma tradição sobrevive sozinha, e nenhuma ancestralidade deve ser apagada para acomodar uma interpretação contemporânea.
A história do povo negro não é um detalhe da história brasileira.
A ancestralidade africana não é uma decoração cultural.
E o Candomblé não pode ser compreendido sem respeito às raízes que permitiram sua existência e continuidade.
Quando a memória é preservada, a história permanece. E quando um povo escreve sua própria história, ninguém pode decidir por ele o que deve ser esquecido.

Lelo Oliver
Produtor Editorial, Design Gráfico, Capista e Diagramador. CEO da Onirá Editora e do selo Novos Griôts. Com Vários Livros e Revistas produzidos e Lançados dentro e fora do Brasil. Revista Escrita Sete (Portugal, Frankfurt e em breve Estados Unidos). Foi indicado com dois livros no Aclamado Prêmio Jabuti. Foi indicado com um livro na academia Brasileira de Letras. [+ informações de Lelo Oliver]
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Artigo de Opinião: texto em que o(a) autor(a) apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretações de fatos, dados e vivências. ** Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do AxéNews. |

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