O Ebó não é Lixo: racismo ambiental e a coleta de resíduos litúrgicos de axé
Por: Jeferson Medeiros

✅ 17/9/2026 | 07:28
É preciso estabelecer um ponto de partida para a reflexão que irei propor: a relação entre os povos de axé e a natureza não é de consumo. Para nós, “kó si ewé, kó si Òrisà” (sem folha, não há Orixá) sintetiza a cosmopercepção na qual a terra, os rios e as matas são moradas vivas do sagrado e extensão do próprio corpo comunitário, numa verdadeira simbiose vital. Todavia, atualmente, no Brasil, a secular tecnologia ancestral de culto à biodiversidade se depara com uma ofensiva sistemática: o racismo religioso travestido de preocupação ecológica. Quando agentes municipais e órgão de limpeza urbana tratam oferendas, despachos rituais como mero descarte irregular de resíduos (lixo), operam uma dupla violência: a demonização da liturgia de matriz africana e a criminalização de quem historicamente protege os ecossistemas.
Desde sempre, os povos e comunidades tradicionais de terreiro são militantes conscientes da importância de um meio ambiente equilibrado e sadio. Há décadas amadurecem práticas de conscientização sobre o uso de materiais e utensílios ritualísticos, com a substituição de louças e vidros por itens biodegradáveis, por exemplo. Também discutimos a atenção redobrada ao risco de queimadas por utilização de velas e demais materiais inflamáveis em períodos de seca, bem como a preservação rigorosa da integridade física de transeuntes e trabalhadores urbanos.
Ademais, é imprescindível que se tenha como princípio norteador de nossa religiosidade que o despacho não é abandono de lixo. Ao contrário, é um ato litúrgico de circulação de axé, de troca de energias vitais e de reequilíbrio entre os seres viventes e não viventes. Nesse contexto, entendo que a seletividade institucional do Estado revela a faceta mais perversa do racismo ambiental quando suas ações operam na direção de uma logística colossal de limpeza urbana no trato dos grandes eventos de matriz hegemônica e festividades comerciais, mas precarizam a coleta dos resíduos oriundos das práticas de axé.
Devemos refletir sobre alguns fatos: o Réveillon em Copacabana, as procissões e as marchas religiosas que reúnem milhões deixam para trás toneladas de resíduos plásticos, garrafas e detritos que são prontamente recolhidos, varridos e processados pelas empresas públicas sem que a seriedade e a legitimidade dessas celebrações sejam questionadas. Não se trata, porém, de uma disputa sobre quem polui mais, mas de denunciar as assimetrias sociais que operam no trato com as religiosidades. Como resultado, o poder público se organiza para limpar a celebração branca e comercial, mas demoniza e criminaliza a religiosidade negra sob a alegação de infração ambiental e descompromisso de seus fiéis com a harmonia do meio ambiente.
Neste ponto, o racismo se revela ardiloso e calculista, pois transforma a oferenda em crime ambiental, desterritorializando e empurrando os adeptos do axé para a clandestinidade e para o silenciamento nos espaços urbanos. Entendo que a recusa das concessionárias de limpeza em recolher os resíduos litúrgicos de axé, bem como a coerção de agentes de fiscalização em logradouros públicos, afrontam a laicidade do Estado e as diretrizes da Política Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais de Terreiro (Decreto nº 12.278/2024).
Nesse sentido, a gestão de resíduos sólidos nos municípios carece de um urgente ebó de conscientização e respeito às práticas africanistas para que haja uma descolonização de seus protocolos e, por conseguinte, uma melhor estruturação de sua atuação quando se tratar de resíduos litúrgicos de axé. Para tanto, é necessário: (i) a capacitação dos agentes de limpeza e fiscalização urbana sobre o contexto da fé negra e sua relação com o meio ambiente; (ii) a criação de protocolos municipais e dialógicos acerca do manejo respeitoso dos locais de oferendas após o término dos rituais; (iii) o reconhecimento formal das comunidades de axé como guardiãs ecológicas e atores sociais indispensáveis no planejamento socioambiental das cidades.
Por fim, tenhamos em mente que a garantia do direito de culto aos orixás, inquices, voduns, encantados e entidades de terreiro nos espaços e logradouros públicos não é uma concessão, tampouco um favor do Estado. Os afro-religiosos possuem direito originário ao usufruto das cidades e do meio ambiente. Não devemos admitir que a máquina pública opere demonizando nossas práticas e rotulando como sujeira as nossas oferendas. A laicidade não pode ser resumida a um privilégio da branquitude, na medida em que a consciência ecológica não pode ser um discurso esvaziado de axé.

Jeferson Medeiros
Mestrando no Programa de Pós-graduação em Sociologia e Direito na Universidade Federal Fluminense (PPGSD). Pós-Graduado em Direito Aplicado aos Serviços de Saúde (UCAM). Integrante do Laboratório de Justiça Ambiental (LAJA-UFF), do Laboratório de Justiça, Ambiente, Cidades e Animais (LAJACA-UFF) e do Laboratório de Ensino, Pesquisa e Extensão Direito, Antropologia, Saúde e Religião (DIANSARE-UFF)... [+ informações de Jeferson Medeiros]
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