Presença também é fundamento
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Por: Mãe Tathy de Oyá

✅13/5/2026 | 07:26
Existe uma romantização perigosa sobre o que é pertencer a uma comunidade de axé. Muitas pessoas desejam os frutos do terreiro — acolhimento, cura, direção espiritual, afeto coletivo, proteção, sentido de família — sem compreender que tudo isso só existe porque pessoas fazem essa manutenção, diariamente, a presença.
Terreiro não é feito apenas de paredes, atabaques, fundamentos ou cerimônias. Terreiro é feito de gente. De corpos presentes. De continuidade. De responsabilidade compartilhada.
Vivemos um tempo em que muitos querem receber o sagrado, mas poucos desejam assumir compromisso com ele. Querem uma casa organizada, mas não querem colaborar para a organização. Querem harmonia, mas não exercitam autocontrole. Querem respeito, mas frequentemente não entregam o mesmo respeito ao coletivo. Querem acolhimento, mesmo mantendo distância constante da própria comunidade que afirmam amar. Ausência também comunica.
É muito difícil criar vínculo com quem nunca está. É difícil reconhecer pertencimento em quem aparece apenas quando a dor aperta ou quando a agenda social está mais “tranquila”. O terreiro acolhe, sim — mas acolhimento não pode ser confundido com consumo espiritual.
Há uma diferença entre frequentar e pertencer.
Pertencer exige presença mesmo nos dias comuns.
Exige compromisso mesmo quando a vida está corrida.
Exige entender que espiritualidade coletiva não se sustenta somente nos grandes rituais, mas também nas pequenas permanências.
Sabemos das dificuldades. Do trânsito, do cansaço, dos horários apertados, das demandas da vida adulta. Tudo isso é real. Mas também é real a quantidade de curas que acontecem quando uma comunidade se reúne em intenção, fé e continuidade.
Existe força espiritual no encontro.
Existe medicina ancestral quando pessoas se sentam juntas para louvar o sagrado, dividir responsabilidades e fortalecer vínculos. Existe reconstrução emocional dentro do coletivo. Muitas vezes, o que recolhe nossos pedaços não é apenas a obrigação ritual — é o sentimento de pertencimento.
Por isso, o esforço para estar com sua comunidade significa trazer sua responsabilidade diante do Sagrado.
Antes do Amalá, vem a fé.
Antes da cobrança, vem a presença.
Antes de exigir do terreiro, é necessário perguntar: “o que tenho oferecido para manter viva essa casa que também me mantém?”
Axé não se constrói no improviso.
Axé se constrói na continuidade.
E talvez uma das maiores urgências espirituais do nosso tempo seja reaprender a permanecer.

Mãe Tathy de Oyá
Mãe de santo da CUSLE – Comunidade da União do Sagrado Laços Espirituais e da CRIAOFÈOYÀ – Comunidade da Compreensão e da Restauração Ilè Àse Omi Àtúnbi ni Aféfé Òyá, território atuante nas filosofias e práticas religiosas da Umbanda, do Candomblé e da Jurema Sagrada, expande sua atuação por meio do Coletivo Egbé Ayé, acolhendo a comunidade externa com diversos programas sociais voltados à redução das desigualdades e à transformação da vida de mulheres, crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade... [+ informações de Mãe Tathy de Oyá]
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