Povos de axé têm 69 candidaturas identificadas nas eleições de 2026, aponta levantamento do Ginga-UFF
O levantamento partiu de uma base do Tribunal Superior Eleitoral (TSE)

✅ 2/10/2026 | 08:51
As eleições gerais de 2026 registram pelo menos 69 candidaturas identificadas como vinculadas às religiões de matriz africana, segundo levantamento realizado pelo Grupo de Pesquisa Ginga-UFF. O estudo Eleições 2026: candidaturas afrorreligiosas e representações religiosas na política analisou a presença de candidaturas religiosas no processo eleitoral e ampliou os critérios utilizados em relação à pesquisa realizada pelo grupo em 2024.
O levantamento partiu de uma base do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que, na extração realizada em 16 de agosto de 2026, reunia 20.450 candidaturas para os cargos de deputado estadual, deputado federal, governador, senador, presidente da República e suplências, nos 26 estados e no Distrito Federal. Desse universo, os pesquisadores identificaram 529 candidaturas com indicadores de pertencimento religioso, correspondentes a 2,6% da base consultada.
Entre as 529 candidaturas identificadas, 69 foram classificadas como de matriz africana, o equivalente a 13% desse conjunto. As candidaturas evangélicas somaram 442 (83,6%), as católicas 16 (3%), enquanto islamismo e presbiterianismo tiveram uma candidatura cada.
Uma presença que não aparece apenas no nome de urna
Um dos principais aspectos do levantamento está na metodologia utilizada para identificar as candidaturas afrorreligiosas. Diferentemente da pesquisa de 2024, que teve como principal estratégia a identificação de denominações religiosas nos nomes de urna, o estudo de 2026 incorporou outros caminhos.
Os pesquisadores consultaram a base de candidaturas do TSE, a declaração de ocupação, o banco de fotografias das pessoas candidatas, redes sociais, notícias e indicações feitas por integrantes da própria pesquisa. Também foram utilizadas palavras-chave relacionadas às tradições de matriz africana, incluindo denominações de cargos religiosos, nomes de orixás, inkisses e voduns, além de termos como axé, candomblé, umbanda e terreiro.
A estratégia foi particularmente relevante para as candidaturas de matriz africana. Das 69 identificadas, 39 foram localizadas por meio das redes sociais ou indicações de pesquisadores, enquanto três apareceram pela declaração de ocupação no TSE, uma pela busca de imagem e 26 por mais de um procedimento de identificação.
O resultado reforça uma das conclusões do estudo: a presença afrorreligiosa na política não necessariamente está explicitada no nome de urna. Por isso, uma análise baseada exclusivamente nessa informação pode deixar candidaturas de fora.
Rio de Janeiro concentra quase um terço das candidaturas afrorreligiosas
Entre as 69 candidaturas identificadas, o Rio de Janeiro concentra 20, correspondendo a 29% do total. Na sequência aparecem Rio Grande do Sul, com oito candidaturas; Bahia e Paraná, com sete cada; e Minas Gerais e São Paulo, com seis cada.
Ao todo, 16 unidades da Federação registraram pelo menos uma candidatura identificada como de matriz africana, enquanto 11 não tiveram candidaturas classificadas nessa categoria na base analisada pelo Ginga-UFF.
O Rio de Janeiro também aparece com o maior número geral de candidaturas religiosas identificadas na pesquisa, com 77, seguido por São Paulo, com 58; Bahia, com 43; Minas Gerais, com 42; e Pernambuco, com 39. Os pesquisadores observam, contudo, que os resultados do Rio podem ter sido influenciados pelo fato de o estado ser a área de referência do grupo de pesquisa e pela atuação de suas redes de interlocução.
Mulheres são maioria entre as candidaturas de matriz africana
Outro dado destacado pelo levantamento é a presença feminina. Entre as 69 candidaturas afrorreligiosas identificadas, 48 são de mulheres, o equivalente a 69,6%, enquanto 21 são de homens.
A proporção é superior à observada entre as candidaturas evangélicas e católicas identificadas pela pesquisa, respectivamente 34,8% e 18,8% de mulheres. Segundo o Ginga-UFF, a predominância feminina entre as candidaturas afrorreligiosas também havia sido observada no levantamento realizado em 2024.
O recorte racial também evidencia uma forte presença negra. Das 69 candidaturas de matriz africana, 43 pessoas se autodeclararam pretas (62,3%) e 14 pardas (20,3%). Onze se declararam brancas e uma indígena. Somadas, as candidaturas de pessoas pretas e pardas correspondem a 82,6% desse grupo. O estudo observa que é entre as candidaturas afrorreligiosas que se percebe a maior representatividade negra entre os grupos religiosos analisados.
Deputado federal concentra 55,1% das candidaturas afrorreligiosas
Quanto aos cargos disputados, 38 das 69 candidaturas de matriz africana concorrem a deputado federal, correspondendo a 55,1% do grupo. Outras 29 disputam vagas de deputado estadual (42%).
Também foi identificada uma candidatura ao Senado e uma a deputado distrital. Não houve, na base analisada, candidatura afrorreligiosa identificada para suplência, vice-governador ou governador.
Em relação à escolaridade, 30 candidatos e candidatas de matriz africana, ou 43,5%, declararam ter ensino superior completo. Outros 11 (15,9%) possuem ensino superior incompleto. Quinze concluíram o ensino médio, enquanto os demais estão distribuídos entre diferentes níveis de escolaridade.
A pauta dos povos de terreiro também aparece fora das candidaturas afrorreligiosas
O levantamento identificou ainda 11 candidaturas que não puderam ser classificadas como afrorreligiosas, mas que apresentavam, em suas plataformas e redes sociais, propostas relacionadas aos direitos dos povos de terreiro, à defesa dos povos tradicionais e ao combate ao racismo religioso.
Essas candidaturas não foram incluídas entre as 69 afrorreligiosas justamente porque os pesquisadores não conseguiram identificar seu pertencimento religioso. O grupo, portanto, é apresentado separadamente na pesquisa.
Das 11 candidaturas, oito são de mulheres e três de homens. Elas estão distribuídas entre Bahia, Maranhão, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. Na filiação partidária, aparecem seis candidaturas do PT, três do PCdoB e duas do PSOL.
Diversidade partidária entre as candidaturas de matriz africana
As 69 candidaturas afrorreligiosas estão distribuídas por diferentes legendas. O levantamento registra candidaturas em PSOL, PT, PDT, PSB, PCdoB, Rede, PSDB, PSD, MDB, Avante, Solidariedade, Republicanos, Democrata e outras siglas.
Na distribuição apresentada pelo estudo, PSOL concentra 20 candidaturas afrorreligiosas (29%), PT reúne 11 (15,9%), PDT tem oito (11,6%), PSB seis (8,7%), PSDB cinco (7,2%), Rede quatro (5,8%), enquanto PCdoB, PSD, Solidariedade e outras legendas aparecem com números menores.
O próprio Ginga-UFF ressalta que a classificação ideológica utilizada para analisar a distribuição partidária serve como referência para a pesquisa e não significa que todas as candidaturas de uma legenda tenham a mesma posição política, nem que a filiação partidária determine a posição individual de cada pessoa candidata.
Participação política, liberdade religiosa e enfrentamento ao racismo religioso
Para os pesquisadores, a presença das candidaturas de matriz africana precisa ser compreendida dentro das especificidades da participação política dos povos de terreiro. O estudo aponta que essas candidaturas articulam temas como liberdade de culto, proteção dos terreiros, enfrentamento ao racismo religioso, valorização dos saberes e tradições de matriz africana e participação dos povos de terreiro na formulação de políticas públicas.
As pautas identificadas também alcançam áreas como trabalho, renda, saúde, educação, segurança e cultura. O relatório destaca ainda a reivindicação por representação dos povos de terreiro nos espaços institucionais de decisão.
Nesse contexto, o Ginga-UFF cita o movimento “Nosso Voto Tem Axé”, realizado pela segunda vez em Sergipe. Segundo o estudo, a iniciativa apresenta o voto como instrumento de participação coletiva, relacionado à memória das lutas e alianças construídas e à reivindicação de representação política das comunidades de terreiro. O movimento, entretanto, não se restringe a candidaturas vinculadas às religiões de matriz africana e também contempla candidaturas de diferentes filiações partidárias que aderem às pautas dos povos de terreiro e à defesa de seus direitos.
Um retrato ainda parcial das eleições de 2026
O levantamento não pretende apresentar o número definitivo de candidaturas religiosas nas eleições de 2026. A base utilizada pelo Ginga-UFF foi extraída do TSE em 16 de agosto de 2026, quando continha 20.450 candidaturas. Cinco dias depois, o próprio TSE já divulgava uma base com 20.560 registros.
Por essa razão, os pesquisadores deixam claro que os números correspondem ao conjunto disponível na data da extração e que não representam necessariamente o total definitivo de candidaturas das eleições gerais de 2026. As buscas e a qualificação das informações foram realizadas entre 8 de julho e 7 de setembro de 2026.
O estudo é o segundo monitoramento realizado pelo Ginga-UFF sobre candidaturas afrorreligiosas. A primeira pesquisa foi desenvolvida em 2024, durante as eleições municipais. Segundo os autores, a ampliação metodológica realizada em 2026 permite observar de maneira mais abrangente a presença das religiões de matriz africana no processo eleitoral, ao mesmo tempo em que exige cautela na comparação direta entre os dois levantamentos, já que os critérios de identificação foram modificados.
O levantamento evidencia, assim, uma presença afrorreligiosa que não se limita às candidaturas que carregam no nome de urna uma identificação religiosa. Ao combinar dados oficiais, redes sociais, imagens, ocupações declaradas e indicações de pesquisadores, o Ginga-UFF amplia o olhar sobre como os povos de terreiro e suas pautas aparecem na disputa por representação política nas eleições gerais de 2026.
Total de candidaturas de religiosos identificadas e não identificadas nas eleições gerais de 2026 (n e %):

Religião dos candidatos conforme classificação realizada pela pesquisa, eleições gerais de 2026 (n e % sobre as 529 candidaturas identificadas):

Candidaturas de religiosos por tipo de busca e religião (matriz africana e outras religiões), eleições gerais de 2026 (n):

Número de candidaturas de religiosos por tipo de busca e estado da candidatura, eleições gerais de 2026 (n)


Candidaturas de religiosos por religião e cor ou raça autodeclarada, eleições gerais de 2026 (n e %):


Candidaturas de religiosos por religião e gênero, eleições gerais de 2026 (n e %):

Candidaturas de religiosos por religião e cargo a que concorrem, eleições gerais de 2026 (n e %):

Candidaturas de religiosos por religião e filiação partidária, eleições gerais de 2026 (n e %):


Fonte: Ginga-UFF — Grupo de Pesquisa Ginga-UFF. Eleições 2026: candidaturas afrorreligiosas e representações religiosas na política. Ana Paula Mendes de Miranda, Andréia Soares Pinto, Enzo Papera, Leonardo Vieira, Renato Dirk e Samara Costa, 2026. Dados de candidaturas: Tribunal Superior Eleitoral (TSE), DivulgaCandContas.

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