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Makumba - Espiritualidades Afro Kariokas

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5 min de leitura

Por: Laylah El Ishtar

Foto: Reprodução

✅ 1/10/2026 | 10:41


Quando se fala em religiosidade afro-brasileira no Rio de Janeiro, é comum começar pelo Candomblé ou pela Umbanda. Essa perspectiva, porém, deixa de fora uma história muito mais antiga. Antes da consolidação dessas religiões, africanos e seus descendentes já mantinham no Rio práticas de cura, proteção, adivinhação, culto aos mortos, uso ritual de ervas e objetos, toque de tambores e diferentes formas de relação com o mundo espiritual.


O Rio de Janeiro recebeu durante séculos grandes contingentes de africanos escravizados, com forte presença de povos da África Central, especialmente das regiões relacionadas ao Kongo e a Angola. Essas populações trouxeram seus próprios conhecimentos religiosos e cosmológicos, não se tratava de uma única tradição, mas de diferentes povos e experiências que, na cidade, passaram a conviver, estabelecer relações e também recriar suas práticas.


É nesse processo que precisamos compreender a formação daquilo que posteriormente seria chamado de *Makumba Karioka.



A Makumba Karioka não surgiu pronta, nem pode ser reduzida a uma simples “mistura de religiões”, ela foi uma construção histórica das populações negras do Rio, especialmente em um ambiente urbano marcado pela escravidão, pela abolição, pela pobreza, pela perseguição policial e pela intensa circulação de pessoas e conhecimentos. Diferentes referências africanas encontraram-se nesse espaço e passaram a dialogar também com práticas indígenas, católicas populares e, posteriormente, com o Espiritismo. Isso não significa que todas essas tradições tenham perdido suas características e sim que, em determinadas comunidades, elas passaram a coexistir e produzir novas formas religiosas.


Algumas pesquisas apontam justamente para esse momento de transformação, em que as espiritualidades de matriz centro-africana já presentes no Rio passam a incorporar elementos de outras tradições africanas, entre eles referências de matriz yorubá e o culto a determinados Orixás. Esse processo não deve ser entendido como substituição de uma tradição por outra, mas como intercâmbio religioso produzido pela própria experiência histórica da população negra na cidade. Estudos sobre a formação da Makumba Karioka identificam nela, um hibridismo orgânico...


É justamente essa capacidade de reunir diferentes heranças que dá à Makumba Karioka sua fisionomia particular, ela não era simplesmente uma versão carioca de uma religião africana específica, era uma formação afro-religiosa própria do Rio, construída a partir de continuidades africanas, encontros entre diferentes povos e recriações produzidas no Brasil.


A presença centro-africana é fundamental para compreender esse processo. A pesquisa de Eduardo Possidonio sobre as freguesias urbanas do Rio entre 1870 e 1900 encontrou registros de especialistas religiosos identificados como n'gangas, além dos chamados manipansos, associados às práticas centro-africanas. Esses documentos mostram que havia, no Rio oitocentista, pessoas reconhecidas por seus conhecimentos de cura, proteção e relação com forças espirituais.


Isso desmonta uma ideia recorrente; a de que a religiosidade negra carioca só teria adquirido forma religiosa com a chegada do Candomblé ou com o nascimento da Umbanda. O que existia anteriormente era um campo religioso próprio, dinâmico e diversificado, no qual a palavra "macumba" passou, em determinado momento histórico, a designar algumas dessas práticas.


É importante, entretanto, não transformar “macumba” em uma categoria que explique toda e qualquer manifestação africana anterior, a palavra aparece em diferentes contextos e adquiriu sentidos variados. Sua história precisa ser acompanhada no tempo, observando quem a utilizava, para designar o quê e em que circunstâncias, pois muitas vezes, eram autoridades policiais, religiosas ou jornalistas que classificavam práticas negras dessa maneira.


No final do século XIX e início do XX, a Makumba Karioka encontrava-se inserida em uma cidade profundamente transformada pela abolição e pela República, as populações negras reorganizavam suas redes, ocupavam novos territórios e mantinham espaços de culto e sociabilidade, a repressão continuava, mas não impedia a continuidade dessas práticas.


É nesse cenário que a Makumba Karioka se torna particularmente importante para compreender o desenvolvimento posterior das religiões afro-cariocas. A historiografia que acompanha essa formação permite considerá-la uma das principais matrizes daquilo que posteriormente se desenvolveria no Omolokô e na Umbanda. Não como uma linha reta, nem como se todas as casas tivessem seguido o mesmo caminho, mas como parte de um processo de transformação religiosa no qual práticas, entidades, linguagens rituais e formas de culto foram sendo reelaboradas.


Com a consolidação da Umbanda no século XX, muitas casas que anteriormente funcionavam como espaços de Makumba passaram por um processo de transformação que pode ser compreendido como uma “umbandização” de suas práticas. Em alguns casos, houve mudança de denominação e de organização religiosa; em outros, a linguagem ritual da antiga Makumba permaneceu, incorporada a novas formas de culto. Há estudos que observam justamente essa absorção progressiva das antigas comunidades de Makumba, sobretudo, pela Umbanda, ao longo do século XX.


É nesse cenário que devemos colocar a Umbanda, ela não aparece em um Rio religiosamente vazio, surge posteriormente, em meio a um campo afro-religioso que já possuía história, linguagem, especialistas, rituais e formas próprias de relação com o sagrado. A Umbanda constitui uma nova organização religiosa, com características próprias, mas não inaugura a espiritualidade negra carioca.


A Makumba Karioka, portanto, merece ser compreendida como parte central dessa história, não como uma versão “primitiva” da Umbanda, nem como uma religião simplesmente incompleta à espera de institucionalização, mas como uma expressão histórica das comunidades negras do Rio, cuja importância está na capacidade de reunir continuidades africanas e recriações produzidas pela experiência carioca.


Antes dos nomes que hoje conhecemos, havia pessoas, havia comunidades, havia ancestrais, curadores, especialistas, tambores, ervas, objetos de poder e maneiras próprias de compreender a doença, a proteção, a morte e o mundo invisível.


A história da Umbanda começa depois, a história da espiritualidade negra do Rio, não!


*Makumba Karioka preserva, na escrita, suas raízes africana e indígena. Makumba, com K, aproxima-se das línguas bantu; Karioka recupera o tupi kari'oka. É uma grafia que afirma a ancestralidade e a identidade cultural carioca.



Referências

O Negro Brasileiro - Arthur Ramos

Entre Ngangas e Manipansos - Eduardo Possidônio

Rituais Negros e Caboclos - Nivio Ramos Sales

Religiões negras no Brasil

Da escravidão à pós-emancipação - Flavio Gomes, Valéria Costa (ORGS.)




Bàbé Ifálóba Ifálósèyí - AxéNews

Laylah El Ishtar

Nascida em Campo Grande, subúrbio do Rio de Janeiro, é também nascida em um terreiro de Umbanda situado na região historicamente conhecida como Sertão Carioca, um dos berços da Makumba Carioca. Carrega em sua ancestralidade a mescla indígena Puri, africana e espanhola, refletindo as encruzilhadas que formam o povo brasileiro. É filha da Tenda do Caboclo Lírio, onde iniciou sua jornada espiritual sob a orientação de Babá Lenice.   [+ informações de Laylah El Ishtar]


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Artigo de Opinião: texto em que o(a) autor(a) apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretações de fatos, dados e vivências. ** Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do AxéNews.


 
 
 

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