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Ponto riscado como metáfora do cuidado mental

  • 20 de abr.
  • 3 min de leitura

Por: Mãe Lelê

20/4/2026 | 18:26


O ponto riscado é um símbolo fundamental nas religiões afro-brasileiras. Ele abre portais, é símbolo de proteção, defesa, quebra de feitiços ... e tantas outras funções.


O ponto riscado é mais do que um desenho. É uma assinatura espiritual, um ato ritual de comunicação com o mundo invisível. Como nos explica Reginaldo Prandi (2001), a religião afro-brasileira organiza-se a partir de símbolos que ligam o sagrado e o humano, e o ponto é justamente essa ponte.


Cada traço, curva e cruzamento tem um significado: pode representar o caminho de uma entidade, sua vibração, seu campo de trabalho ou até mesmo uma saudação espiritual. É um código de energia, uma escrita que materializa o invisível. É um ato que exige presença, foco e equilíbrio interior - os mesmos elementos que encontramos nos cuidados com a mente.



Se pensarmos simbolicamente, o ponto riscado pode ser visto como uma metáfora do nosso próprio mapa mental e emocional, pois cada um de nós, diariamente, “risca o seu ponto — traçando caminhos, escolhas e emoções que organizam o nosso ser.


Quando olhamos para o ponto riscado como metáfora, podemos entendê-lo como um mapa interno. Cada linha pode simbolizar nossos sentimentos, vivências e aprendizados; e o ato de riscar é o mesmo que dar forma ao invisível. Cuidar da mente é, portanto, como desenhar o próprio ponto riscado da vida: reconhecer as energias que nos atravessam e organizá-las de forma que expressem quem realmente somos.


Assim, tanto no terreiro quanto no íntimo de cada pessoa, o ponto riscado nos lembra que o autoconhecimento é um ato sagrado — um exercício de equilíbrio, de reconexão e de cuidado com aquilo que não se vê, mas que move tudo o que somos.


A psicologia contemporânea nos lembra, como diz Carl Gustav Jung (1964), que os símbolos são pontes entre o inconsciente e a consciência. O ponto riscado, nesse sentido, é uma forma ancestral de tornar visível aquilo que está dentro: forças, sentimentos, intenções. E o cuidado mental também é isso — um exercício de dar forma, de reconhecer e organizar o que sentimos.


Cuidar da mente é traçar conscientemente nossos próprios pontos: reconhecer nossas linhas de força, nossos cruzamentos de dor, e os círculos de proteção que criamos ao redor de nós. Assim como o ponto riscado protege o espaço espiritual, o autocuidado protege o nosso espaço interno.


os terreiros, o ponto riscado é feito com pemba sobre o chão. Esse gesto marca o início de um trabalho de cura e equilíbrio. Da mesma forma, quando buscamos terapia, meditação, oração ou escuta interior, estamos também criando um terreiro interno — um espaço onde o invisível pode ser cuidado.


A psicóloga e pesquisadora Sueli Carneiro (2019) lembra que a espiritualidade negra é uma forma de resistência e de reconstrução de si. O cuidado mental, dentro dessa perspectiva, não é apenas individual, mas também coletivo e ancestral. Assim, cuidar da mente é honrar as forças que nos antecederam; é desenhar caminhos que sustentem nossa integridade emocional e espiritual.


O ponto riscado nos ensina que tudo começa com um traço consciente. E que traçar é decidir sobre fazer uma coisa ou outra, ou seja, é dar sentido e tornar visível um símbolo carregado de significados. Assim, quando aprendemos a cuidar da nossa mente com o mesmo respeito com que se risca um ponto, passamos a enxergar o autocuidado não como fraqueza, mas como um ato sagrado de autoconhecimento e preservação.


Como diz Dona Ivone Lara, em uma de suas canções mais conhecidas:

“Sonho meu, vai buscar quem mora longe, sonho meu...”


Cuidar da mente é isso: buscar o que mora longe dentro de nós e trazer de volta ao centro. Que cada um de nós possa, com consciência e amor, riscar seus próprios pontos de equilíbrio, ligando o sagrado e o mental, o corpo e o espírito, a tradição e o presente.


Referências

PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

JUNG, Carl Gustav. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1964.

CARNEIRO, Sueli. Racismo, Sexismo e Desigualdade no Brasil. São Paulo: Selo Negro, 2019.

SANTOS, Juana Elbein dos. Os Nagôs e a Morte. Petrópolis: Vozes, 1976.



Yatemy Regina de Tobossy - AxéNews

Mãe Lelê

Mãe Lelê, Leizimar G. da Costa e Silva, está na Umbanda há mais de 50 anos. Foi consagrada como sacerdotisa de Umbanda no dia 23 de abril de 2011 no Centro Espírita São Jorge de Ronda, fundado em 1975 por sua mãe carnal, D. Lais, e também sua mãe na Umbanda. E sendo assim, valoriza o lugar de onde veio; lugar onde construiu a sua identidade e aprendeu a viver e a conviver com o sagrado de forma respeitosa e livre. [+ informações de Mãe Lelê]


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