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Pombogiras - Senhoras atemporais

  • Foto do escritor: WR Express
    WR Express
  • 3 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

Por: Iyalorixá Adriana Ty Oyá


Foto: Roger Lima | Onirá Editora
Foto: Roger Lima | Onirá Editora

✅ 03/10/2025 | 10:30


Era um dia ensolarado e movimentado na antiga capital da Monarquia, e posteriormente capital da República. Precisamente, 20 de setembro de 2025 - Aquele sábado trazia uma movimentação diferenciada, considerando os acontecimentos recentes do país, no que tange a defesa da democracia e da soberania brasileira. Na ocasião, véspera de grandes manifestações: 18° Caminhada em defesa da liberdade Religiosa e o Ato contra a ANISTIA e a PEC da Blindagem.


O Museu da República, testemunha a atemporalidade presente nas grandes anfitriãs daquele dia.



AS GUARDIÃS - Pombogiras e seus Mistérios.


Os jardins memoráveis recebiam aquelas que transitam pelo tempo e pela história, a aleia de palmeiras que do alto avistavam o colorido de um povo que da rua adentrava o Palácio com orgulho e maestria.


A saia de Pombogira gira, que assim como o tempo, abrigou senhoras, senhoritas e meninas, protegendo-as do esquecimento, eternizando-as nos saberes, narrativas e nas páginas de um livro. A história sendo contada pela atemporalidade das Guardiãs dos mistérios do próprio tempo e do corpo histórico e ancestral.


Final do século XIX, início da construção do Palácio do Catete - Propriedade do Barão de Nova Friburgo e sua família, inicialmente. Um escravocrata, comerciante de escravizados e um dos maiores cafeicultures do Rio de Janeiro.


Nos arredores, na área interna, ou nas mais variadas e inimagináveis situações - Historicamente, a atemporalidade das Pombogiras perpassa pela própria história das mulheres, independente de qualquer contagem do tempo ou localização geográfica.


Inúmeros fatos históricos, aconteceram naquele espaço hegemônico e colonial, mesmo após virar sede da Presidência da República. Refletir sobre lugar e condições de seus antepassados e/ou ancestres num determinado período histórico, é um exercício de pertencimento da própria narrativa e história.


" E quem somos nós, mulheres contemporâneas, sem os resultados da atemporalidade das mulheres que atravessam o véu do tempo para hoje serem, através de nós, a própria resistência?"

(SANTANA, 2025, pag. 60)


Se na contemporaneidade, podemos adentrar e/ou ocupar espaços considerados hegemônicos, caminhar pela liberdade Religiosa, ocupar espaços de liderança e poder, proteger a democracia e a soberania do nosso país, defender o Estado Laico, avançar nas leis, combater opressões e violências - Devemos isso à todas as Mulheres que nos antecederam e resistiram, considerando a majoritariedade feminina do nosso país e tantas histórias apagadas e não contadas.


Destaco outro trecho de meu capítulo no livro AS GUARDIÃS - Pombogiras e seus Mistérios:


" É de suma importância mencionar que o culta às Pombogiras é, antes de tudo, o culto ao sagrado feminino. É contraditório amar e louvar as Pombogiras e, ao mesmo tempo, reforçar violências cotidianas contra a mulher, seja ela cis, seja trans, lésbica, negra, indígena, branca ou fora do padrão de beleza estabelecido pelo "poder" cis-hétero-normativo - O culto as Pombogiras é um convite ao combate direto contra o patriarcado, o machismo, a misoginia e o racismo; portanto, é um convite que atravessa o véu do tempo para honrarmos o SER MULHER e cantarmos em alto e bom som: Arreda homem que aí vem mulher."

(SANTANA, 2025, pag.58)


Naquele dia ensolarado, o povo que vinha da rua, adentrou o Palácio, no relógio marcava meio-dia, mas também era meia-noite. Saias rodavam, cores da noite, taças como sinetas anunciando a grande festa, fumaça das cigarrilhas defumavam o passado, gargalhadas recebiam o presente, cantigas, atabaques, um grande banquete matinal e um padê coletivo.


Na atemporalidade das Pombogiras, ocorreu o lançamento do livro AS GUARDIÃS - Pombogiras e seus Mistérios, coordenação Vodúngán Kelly de Oyá/ Onirá Editora.


Respeitosamente, celebramos a nossa existência através da existência e resistência de todas as Pombogiras, e especialmente naquelas eternizadas no livro da memória: Maria Mulambo, Maria Padilha, Maria Antônia, Maria do Cais, Dona Figueira, Sete Catacumbas, Sete Saias, Rosa Vermelha e Rosa Negra.


As senhoras atemporais, fazem festa hoje, com a resistência e luta de ontem, através de nós.


Por todas as mulheres silenciadas, marginalizadas, invisibilizadas, escravizadas e mortas - Laroyê Senhoras da atemporalidade!


A nobre residência neoclássica foi ocupada, naquele lindo sábado ensolarado (...)


Laroyê!



Adriano Cabral - AxéNews

Iyalorixá Adriana Ty Oyá

Nome: Adriana Silva de Santana Data de nascimento 29/01/198; Mulher Negra; Mãe do Antony;  Umbandista e Candomblecista; Naturalidade:  Duque de Caxias / RJ; Nome religioso: Mãe Adriana Ty Oyá; Profissião: Servidora Pública Educadora da Rede Pública de Ensino no Município de Duque de Caxias há 21 anos; Educadora antirracista; Pedagoga e Especialista em Raça, Etnia e Educação no Brasil ... [+ informações da Iyalorixá Adriana Ty Oyá]  



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|| Artigo de Opinião: texto em que o(a) autor(a) apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretações de fatos, dados e vivências. ** Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do AxéNews.

 
 
 

1 comentário


Lelo Oliveira
Lelo Oliveira
03 de out. de 2025

Mãe, tem um ponto muito importante que eu preciso destacar: aquele museu, o Palácio da República, certamente recebeu, em algum momento, a presença daquelas senhoras. Foi um espaço por onde elas transitaram, de uma forma ou de outra. E isso é muito lindo, poder reviver essa história.

Lembro também da roupa da sua senhora, que é tão característica da época, muito próxima do que aquelas senhoras usavam quando adentravam aquele lugar. É um orgulho imenso ter participado desse livro, orgulho de tê-lo lançado dentro do museu e uma felicidade enorme por cada palavra escrita, especialmente a sua.

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