Pombagira: talvez o maior feitiço seja nos ensinar a permanecer de pé
Por: Mãe Bianca Morelli

✅ 4/9/2026 | 18:21
Quando você escuta a palavra Pombagira, qual é a primeira imagem que
aparece na sua cabeça?
Uma mulher de vermelho? Uma gargalhada? Uma taça na mão? Sedução,
sexualidade, feitiço? Talvez alguém ainda pense naquela entidade procurada
para “trazer o amor de volta”.
Mas como uma entidade associada à liberdade, ao desejo, à autonomia e à
força acabou tantas vezes reduzida ao perigo, à sedução e ao feitiço? O que
essa imagem revela sobre Pombagira e o que ela revela sobre nós?
Pombagira é uma das figuras mais conhecidas das religiões afro-brasileiras
e, ao mesmo tempo, uma das mais reduzidas pelo imaginário popular. Falou-se muito sobre ela. Talvez tenha faltado escutá-la.
Ao longo do tempo, Pombagira recebeu sobre si muitos dos medos construídos em torno da liberdade, sobretudo da liberdade feminina. Há
também uma herança colonial nesse olhar: corpos, desejos, saberes e modos de
existir que escapavam às normas dominantes foram frequentemente
classificados como perigosos, imorais ou inferiores. Pombagira parece
embaralhar justamente essa lógica. Ela dança, gargalha, deseja, ocupa a rua,
produz saber e não pede licença para existir. Talvez por isso tenha sido tão fácil
transformá-la em caricatura: a prostituta, a mulher perigosa, a entidade da
sedução e das amarrações.
Mas Pombagira é muito maior do que isso. E não precisamos retirar dela sua
sensualidade, sua gargalhada, sua relação com a rua, a noite ou o desejo para
torná-la respeitável. Pombagira não precisa ser transformada em santa para ser sagrada.
Embora sua representação esteja profundamente ligada ao feminino, existe
nela uma força capaz de conversar com todos nós. Homens e mulheres
precisam aprender sobre coragem, autovalor, desejo e limites. Mas reconhecer o próprio valor não significa simplesmente abandonar tudo aquilo que não acontece como desejamos. Às vezes, coragem é partir; em outras, é
permanecer, construir, amadurecer e se preparar para chegar onde queremos.
Certa vez, ouvi Dona Maria Padilha do Cabaré dizer a alguém que
atravessava um momento difícil:
“Se eu não te der um desconforto na vida, você não muda.”
Aquela frase ficou em mim. Quantas vezes procuramos a espiritualidade
pedindo caminhos abertos, respostas rápidas e nenhuma dor durante o
processo? Mas e se determinados desconfortos também fizerem parte do
movimento?
Não se trata de romantizar o sofrimento ou aceitar o desrespeito. Trata-se
de compreender que nem tudo aquilo que nos desestabiliza veio para nos
destruir. Há desconfortos que revelam que já crescemos demais para continuar
ocupando o lugar daquela forma, outros nos confrontam intimamente e
mostram que o que precisa mudar pode não estar no mundo, mas em nós.
É justamente aqui que a encruzilhada nos oferece outra forma de pensar.
Luiz Antonio Simas e Luiz Rufino escrevem que “as encruzilhadas e suas
esquinas são campos de possibilidade”. E talvez esteja aí uma chave importante
para compreender Pombagira: a encruzilhada não nos entrega uma única
resposta. Ela apresenta possibilidades, exige escolhas e nos responsabiliza pela
direção dos nossos passos.
Diante dela, talvez a pergunta deixe de ser apenas “Por que isso está
acontecendo comigo?” e passe a ser: “O que isso está despertando em mim e o
que farei a partir daqui?”
Porque espiritualidade também é responsabilidade. Se desejamos
reconhecimento, estamos desenvolvendo aquilo pelo qual queremos ser
reconhecidos? Se desejamos ocupar novos lugares, estamos nos preparando
para sustentá-los? Se desejamos transformação, o que estamos efetivamente movimentando?
Pombagira não representa apenas a coragem de dizer “não” ao que nos
diminui. Ela também pode despertar um enorme “sim” para a vida: sim para o
desejo, para a coragem, para o movimento e para o reconhecimento da própria potência.
Pombagira carrega sua própria história e seus próprios mistérios. E nos
coloca diante de uma reflexão que pode nos tirar da zona de conforto: quantas
vezes aquilo que não conseguimos controlar é justamente aquilo que tentamos desqualificar?
Compreendê-la também exige encarar essa provocação. Ela não vem
apenas para atender aos nossos desejos. Sua potência pode estar em
confrontá-los, reorganizá-los e nos perguntar o quanto estamos dispostos a
caminhar em direção àquilo que pedimos.
Porque desejar também exige movimento.
Por isso, nem sempre aquilo que mexe conosco veio dizer “vá embora”. Às
vezes, veio perguntar: “Você pretende continuar exatamente da mesma
forma?”
E está aí uma das grandes potências de Pombagira: não nos dar controle
sobre o outro, mas nos devolver o governo sobre nós mesmos. Transformar dor em movimento, desejo em direção e desconforto em coragem.
A encruzilhada mais uma vez nos oferece um encontro, ela não se conclui
na ideia de que a vida se resume a dois caminhos: partir ou ficar, vencer ou
fracassar, certo ou errado. A encruzilhada nos apresenta possibilidades e, ao mesmo tempo, nos responsabiliza pela direção dos nossos passos. Ela não
promete controle sobre a vida, oferece caminhos diante dela.
E está aí uma das grandes potências de Pombagira: não nos dar controle
sobre o outro ou sobre a própria vida, mas nos devolver consciência sobre os
nossos passos. Transformar dor em movimento, desejo em direção e
desconforto em possibilidade.
Pombagira não pode impedir que a vida nos derrube algumas vezes. Mas
pode nos lembrar de que cair não significa permanecer no chão. A encruzilhada
continua diante de nós: podemos rever caminhos, mudar de direção, fazer
novas escolhas e recomeçar.
A espiritualidade pode abrir caminhos, mas somos nós que precisamos ter
coragem para atravessá-los.
É por isso que Pombagira chega gargalhando e batendo o pé. Não apenas
para anunciar sua presença, mas para nos lembrar dos nossos próprios passos e
de que, mesmo diante das quedas, perdas e desencontros, a vida ainda pode
encontrar novos caminhos.
Porque permanecer de pé não significa nunca ter caído. Significa descobrir
que, enquanto houver caminho, ainda existe possibilidade.
E pode estar aí o seu maior feitiço: não mudar a vida por nós, mas
reacender em nós a coragem de vivê-la.
Ela gargalha, bate o pé e caminha…
“Quando ela vem no terreiro, ela bate com o pé e sai andando…
Ô Padilha, Padilha, tô lhe chamando…”

Bianca Morelli
Bianca Morelli, CCT (Comandante Chefe de Terreiro) e Mãe Espiritual da Tenda Espirita Luz de Maria. Terapeuta e Oraculista por amor, sou uma eterna aprendiz e estudiosa. Como terapeuta sou uma apaixonada pelos oráculos e busco equilibrar o desenvolvimento espiritual ao terapêutico fazendo com que cada indivíduo compreenda seu papel nesta encarnação. [+ informações de Bianca Morelli]
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