Política Ancestral: Por que o povo de Terreiro precisa ocupar o debate
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Por: Pai Sid

✅ 15/8/2026 | 14:27
Em tempos de polarização ruidosa e discursos cada vez mais superficiais, tornou-se comum ouvir que fé e política não deveriam se misturar. Essa afirmação — embora pareça sensata à primeira vista ou, como dizemos numa corrida de gira — quase sempre serve para silenciar justamente aqueles cuja existência sempre foi atravessada pelas disputas políticas.
Aprendi no meu terreiro que falar de política nunca foi uma opção ou um capricho eleitoral: sempre foi uma necessidade de sobrevivência. Por isso, recuso esse silenciamento confortável.
Costumo dizer que não faço polí ca par dária; faço Política Ancestral. E essa não é uma frase de efeito, é uma forma de compreender o mundo. A Política Ancestral é aquela que nasce do território, se alimenta da memória e tem compromisso com quem veio antes e com quem ainda virá. Ela não pergunta primeiro em quem você vota, mas como você cuida da comunidade. Não mede seu valor pela quan dade de cargos ocupados, mas pela capacidade de preservar vidas, garan r direitos, fortalecer iden dades e abrir caminhos para as futuras gerações.
A Política Ancestral não se limita aos ciclos eleitorais porque caminha no Tempo da Dikenga: honra o passado, transforma o presente e prepara o futuro. É essa política que aprendi no terreiro, onde governar nunca significou mandar, mas cuidar; onde liderar nunca foi exercer poder sobre alguém, mas assumir a responsabilidade de caminharmos juntos.
Mas é preciso fazer uma dis nção importante. Não falo da pequena política, da disputa par dária que transforma o axé em moeda de troca, nem da prá ca que reduz terreiros a espaços de visitas eleitoreiras apenas em épocas de eleição. Falo da política em seu sen do mais profundo: a política do território, dos direitos, da cidadania, da memória e da dignidade. Falo do direito de exis r sem perseguição; do direito de plantar nossas folhas, tocar nossos tambores, preservar nossos espaços sagrados e par cipar das decisões que impactam diretamente nossas comunidades.
O terreiro nunca foi apenas um espaço religioso. É um território de acolhimento, produção de conhecimento, preservação da memória, transmissão de saberes ancestrais e organização comunitária. Muito antes de o Estado reconhecer conceitos como assistência social, educação popular ou segurança alimentar, os terreiros já exerciam essas funções em seus territórios. Por isso, nossa consciência política precisa ser tão sólida quanto nosso compromisso com o sagrado.
É na filosofia bantu que encontro o fundamento daquilo que chamo de Política Ancestral. Toda liderança, nessa tradição, é uma responsabilidade diante da comunidade, dos ancestrais e daqueles que ainda não nasceram. A Política Ancestral não busca o poder pelo poder; ela compreende o poder como uma responsabilidade compar lhada onde ninguém se realiza isoladamente, porque a pessoa só se torna plenamente pessoa na relação com a comunidade. Da mesma forma, nos ensina que a comunidade não é apenas um agrupamento de indivíduos, mas uma rede viva de pertencimento, memória e corresponsabilidade.
Governar, nessa perspec va, não significa ocupar um lugar acima dos outros, mas colocar-se a serviço da con nuidade da vida cole va. Enquanto grande parte do debate político contemporâneo concentra-se em quem ocupa o poder, a Política Ancestral pergunta quem estende a mão e caminha junto, quem protege, quem preserva e quem prepara o caminho para as próximas gerações. Enquanto uma mede sua força pelo número de mandatos, a outra mede sua legi midade pela capacidade de fortalecer a comunidade, honrar os ancestrais e Ancestralizar o Futuro.
É por isso que o terreiro sempre foi uma escola de formação política. Muito antes de o Estado reconhecer a par cipação social como um direito, nossos mais velhos já ensinavam que liderança é serviço, autoridade é compromisso e o poder só encontra sen do quando sustenta a vida da Kanda.
Na caminhada ins tu onal, o povo de terreiro também precisa amadurecer sua leitura sobre as relações que estabelece com agentes externos. É fundamental compreender que amizade e aliança não são a mesma coisa.
O amigo constrói conosco a par r do afeto, do Muxima, compar lhando a caminhada co diana, respeitando nossa ancestralidade e nossa autonomia. O aliado, por sua vez, caminha ao nosso lado em determinada pauta, em uma luta específica ou em uma agenda comum. É importante dizer que essa dis nção não diminui o valor dos aliados — ao contrário, eles são fundamentais em muitas travessias. O que não podemos fazer é subs tuir a força organizada da comunidade por alianças que, por natureza, podem ser temporárias. Confundir alianças circunstanciais com vínculos permanentes pode gerar dependência política e enfraquecer nossa capacidade de organização. Alianças passam; a comunidade permanece.
Por isso, a autonomia dos terreiros precisa ser preservada. Não podemos entregar a condução dos nossos territórios, nem permi r que nossa tradição seja u lizada apenas como instrumento de interesses momentâneos. O diálogo ins tucional é necessário; a submissão, nunca.
A Lei de Mpemba nos ensina que o pertencimento não é um lugar que se ocupa, mas uma responsabilidade que se assume. Há pessoas que entram no barracão, mas nunca chegam ao território; e há quem nunca tenha cruzado o portal de um terreiro e, ainda assim, compreenda a importância de defendê-lo. Amigos e aliados existem dentro e fora das nossas comunidades. O que deve orientar nosso discernimento não é a proximidade aparente, mas a coerência entre palavra, compromisso e prá ca. É essa leitura madura que fortalece nossa autonomia e impede que confundamos presença com pertencimento ou apoio circunstancial com compromisso histórico.
Os povos de terreiro sempre resolveram conflitos e construíram caminhos por meio da palavra compar lhada. As rodas de conversa, os conselhos dos mais velhos, as escutas cole vas e os momentos de decisão comunitária cons tuem verdadeiras tecnologias ancestrais de governança. Dialogar não é apenas preservar a memória dos que vieram antes de nós, é preparar aqueles que ainda virão. Quando a comunidade debate seus desafios, constrói estratégias, forma novas lideranças e fortalece sua iden dade cole va. Preservar a tradição não significa congelar o tempo; significa garan r que os princípios permaneçam vivos enquanto os caminhos se renovam. A tradição só permanece viva quando consegue responder aos desafios do seu próprio tempo.
Costumamos associar ancestralidade ao passado, mas talvez a maior tarefa da ancestralidade seja justamente construir o futuro. Ancestralizar o Futuro é compreender que cada decisão tomada hoje se transformará na herança das próximas gerações. Essa construção acontece quando reconhecemos que a potência individual só alcança sua plenitude quando está conectada à força cole va da comunidade.
Encontramos nos Minkisi, nos Orixás e nos Voduns mais do que referências espirituais: encontramos princípios civilizatórios que moldam uma é ca do cuidado, da jus ça, do equilíbrio e da responsabilidade cole va. Não são apenas divindades do culto, são referências para compreender como uma comunidade se organiza, como uma liderança se cons tui e como o território deve ser protegido. Elas inspiram formas de organização, cuidado e construção comunitária capazes de orientar nossa presença no mundo. Quando um povo conhece sua ancestralidade, compreende também seu papel histórico. Durante muito tempo, outros falaram sobre nós, decidiram por nós e escreveram nossa história sem nos ouvir. É hora de ocuparmos os espaços de decisão com a mesma dignidade com que ocupamos nossos barracões.
Participar do debate público significa acompanhar polí cas culturais, ambientais, educacionais e de promoção da igualdade racial; defender a liberdade religiosa; fortalecer nossas organizações; construir redes; dialogar com universidades, movimentos sociais e ins tuições públicas; formar novas lideranças e produzir conhecimento a par r de nossos próprios referenciais. Isso não significa abandonar a espiritualidade em favor da política, mas sim compreender que proteger o sagrado também exige compromisso com o mundo em que vivemos.
Nosso axé sempre foi político porque nossa existência sempre foi atravessada pelas disputas sobre quem tem direito de exis r, celebrar, ensinar e permanecer. Que tenhamos sabedoria para honrar nossos ancestrais sem perder de vista aqueles que ainda nascerão.
Talvez seja essa a maior lição política dos nossos ancestrais: nenhum terreiro se sustenta sozinho, nenhum povo conquista direitos sozinho e nenhuma geração atravessa a história sem deixar responsabilidades para a próxima. Como ensinam os mais velhos: Quando a comunidade permanece unida, a casa não desaba! Uma única pessoa não constrói uma casa, mas um povo organizado e consciente da sua fortaleza, pode construir um futuro.

Pai Sid
Pai Sid Soares é pai pequeno do CENSG - Centro Espírita Nossa Senhora da Guia em Volta Redonda RJ. Co-presidente da Comissão de Terreiros Mojuba, no Sul Fluminense que realiza um trabalho de fomento das políticas públicas para o povo de santo. [+ informações de Pai Sid]
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