Pedra de Xangô: Resistência no Solo Sagrado de Cajazeiras
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Por: Pai Wellington Luís

✅ 24/6/2026 | 08:39
A Pedra de Xangô, localizada no bairro de Cajazeiras 10, em Salvador, enfrenta um cenário de constantes ataques de intolerância religiosa e vandalismo estrutural, apesar de ser tombada como Patrimônio Cultural do Município e estar inserida em uma Área de Proteção Ambiental (APA). A discussão atual sobre o "abandono" do local decorre também do completo esquecimento institucional e da vulnerabilidade na segurança e na preservação prática diária do seu parque.
No último domingo, o Santuário de Zé Pelintra Salvador foi condecorado, junto a outras alteridades religiosas, como guardião do Parque da Pedra de Xangô, assumindo o protagonismo de uma luta histórica contra o descaso institucional que ameaça este monumento fundamental para a memória e para a própria identidade de Salvador.
O Monumento como Território de Existência e Memória
A Pedra de Xangô não pode ser reduzida à categoria de paisagem natural, muito menos a um simples espaço de visitação turística. Descrevê-la apenas como um afloramento rochoso pertencente ao embasamento cristalino do Alto de Salvador, uma estrutura geológica de gnaisse que remonta a cerca de 1,5 bilhão de anos, é um reducionismo técnico que ignora a dimensão sagrada que o monumento ocupa na cosmovisão nagô.
Para o povo de terreiro, este é um território de existência, um axis mundi onde memória, espiritualidade e identidade convergem para sustentar a nossa cultura.
Muito antes de qualquer reconhecimento institucional, a Pedra já era sagrada. Ela acolhia preces, promessas, rituais de consagração e encontros entre diferentes comunidades tradicionais. Era, e continua sendo, a referência inabalável para homens e mulheres que, em conexão direta com seus ancestrais, compreenderam que determinados lugares guardam uma força que não se mede pela lógica fria dos documentos cartoriais, dos pareceres técnicos ou dos decretos oficiais.
A relevância deste território alcança a própria geografia da resistência negra em Salvador. A área integra o sítio histórico do antigo Quilombo Buraco do Tatu. A memória oral das comunidades tradicionais é categórica e precisa: o território serviu de refúgio estratégico e rota de liberdade para pessoas negras escravizadas. A Pedra, portanto, não é apenas um ponto geográfico, mas a testemunha silenciosa das estratégias de sobrevivência e da inalienável dignidade humana.
Ao protegê-la, não salvaguardamos apenas uma rocha; preservamos a memória viva de um povo que reconfigurou a paisagem colonial em um espaço de afirmação identitária diante da violência do sistema escravista.
O Território que Une o Sagrado e a Ética Comunitária
Conforme aponta Ronaldo Senna, em Pedra de Xangô: Um lugar sagrado afro-brasileiro na cidade de Salvador, o monumento é o elemento aglutinador das redes de terreiros em Cajazeiras e adjacências. Ele rompe de forma definitiva com a visão folclorizada das religiões de matriz africana, demonstrando que a Pedra é parte ativa do cotidiano comunitário: um espaço de transmissão oral, educação ética e fortalecimento dos vínculos sociais.
Como ensina Muniz Sodré, o ritual é o "mito feito carne". É a ancestralidade que se atualiza no presente e se incorpora na vivência coletiva.
Quando a Pedra de Xangô é agredida por atos de intolerância ou negligência, não se ataca apenas um patrimônio físico; ataca-se uma rede complexa de saberes, afetos e pertencimentos construída ao longo de gerações. Ataca-se a própria capacidade de uma cidade reconhecer, respeitar e valorizar a pluralidade de suas raízes.
Ali, os mais velhos ensinam aos mais novos que o cuidado com a natureza é um valor ético inegociável e que o sagrado se manifesta na força do encontro. A Pedra não preserva apenas a memória do que fomos; ela inspira aquilo que continuamos sendo enquanto povo.
A Falência Institucional e a Nossa Resposta
O histórico recente da Pedra de Xangô é um retrato contundente do descaso público.
Desde 2015, quando denúncias de pichações, destruição de oferendas e atos de intolerância levaram à organização de uma força-tarefa entre o povo de terreiro e órgãos estaduais e municipais, a fragilidade da proteção oficial tem sido uma constante.
Embora o tombamento, consolidado em 2017, tenha representado uma conquista histórica, o reconhecimento legal, desacompanhado de presença efetiva, iluminação adequada, segurança e manutenção permanente, corre o risco de transformar-se apenas em letra morta.
A condecoração do Santuário de Zé Pelintra Salvador como guardião não é um ato de submissão burocrática nem um simples título honorífico. Pelo contrário: representa o reconhecimento público de uma responsabilidade que os povos tradicionais jamais abandonaram.
Não começamos a proteger a Pedra porque recebemos um título. Recebemos o título porque nunca deixamos de protegê-la.
Contudo, é imperativo afirmar que a preservação deste patrimônio não pode ser um fardo exclusivo de comunidades que já resistem, há séculos, ao racismo estrutural e à intolerância religiosa. O cuidado com a Pedra de Xangô é um dever inadiável e uma obrigação do Estado, mas também uma responsabilidade coletiva de todos aqueles que compreendem o valor da memória e da diversidade cultural.
Convocação à Cidade e ao Futuro
A Pedra de Xangô é hoje um dos mais importantes centros de educação patrimonial de Salvador. Convidamos a sociedade soteropolitana — escolas, universidades, coletivos de defesa do patrimônio, pesquisadores, estudantes e cidadãos — a ocupar este território com respeito e compromisso.
Conhecer este espaço é compreender que a história desta cidade não foi edificada apenas pelos casarões coloniais ou pelas igrejas oficiais, mas também pelos passos daqueles que transformaram a ancestralidade em instrumento de sobrevivência, dignidade e permanência.
Defender a Pedra de Xangô é defender a liberdade de crença. É afirmar que os saberes dos povos tradicionais são pilares fundamentais da produção de conhecimento humano. É reconhecer que uma cidade que perde suas referências culturais perde também parte de sua capacidade de reconhecer quem é.
A Pedra permanece de pé porque o compromisso com o sagrado ignora o tempo cronológico e resiste às intempéries da gestão pública.
Enquanto houver quem preserve essa memória, celebre esses rituais e ocupe esse território com dignidade, a tentativa de apagamento jamais será completa.
Porque a resistência, para os nossos ancestrais, nunca foi apenas uma reação ao opressor.
Foi, antes de tudo, uma forma absoluta de existir.
Referências
SENNA, Ronaldo. Pedra de Xangô: Um lugar sagrado afro-brasileiro na cidade de Salvador.
SODRÉ, Muniz. O Terreiro e a Cidade: a forma social negro-brasileira. EDUFBA.
Câmara Municipal de Salvador. Lei Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural (nº 8.550/2014) e registros do tombamento da Pedra de Xangô (2017).
SEPROMI – Secretaria de Promoção da Igualdade Racial e dos Povos e Comunidades Tradicionais da Bahia. Relatórios de articulação e proteção ao patrimônio (2015).
ELIADE, Mircea. O Mito do Eterno Retorno.
PARÉS, Luis Nicolau. Referências aos estudos sobre ritualidade e identidade nas religiões afro-brasileiras.

Pai Wellington Luís Silva
Pai Wellington Luís Silva da Conceição nascido no bairro de Fazenda Grande do Retiro, em Salvador, Bahia no dia primeiro de abril de 1974. Seus avós Manoel Cirilo da Silva e Francisca Maria da Silva foram uns dos primeiros a chegar nesse bairro ainda na sua formação, quando uma grande fazenda estava sendo loteada. Filho de Heitor Ponciano da Conceição, taxista, e da professora Vanilda Silva, criado no candomblé Wellington Luis recebeu grande influência de seus avós maternos que eram candomblecistas... [+ informações de Pai Wellington Luís]
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