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O Terreiro e o STS (Sistema Tradicional de Saúde)

  • Foto do escritor: WR Express
    WR Express
  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

Por: Pai Caio

Foto: Reprodução

17/01/2026 | 09:09


Muito antes de o Sistema Único de Saúde (SUS) ser uma realidade constitucional ou de as farmácias populares se espalharem pelas esquinas das grandes metrópoles, o Brasil já possuía sua rede de cuidado. No centro dessa rede não estavam jalecos brancos, mas sim saias de chita, mãos calejadas e o cheiro penetrante do alecrim e da arruda. O terreiro, longe de ser apenas um espaço de liturgia religiosa, consolidou-se ao longo dos séculos como uma sofisticada tecnologia de sobrevivência, preservando saberes medicinais que hoje alimentam a bilionária indústria farmacêutica global.



A Farmácia que Nasce da Mata e da memória e vivência Indígena:


Nas regiões menos urbanizadas do país, onde o ritmo do relógio ainda respeita o tempo da colheita, a longevidade não é um milagre, mas um projeto. Dados demográficos frequentemente apontam que comunidades com forte presença de práticas tradicionais mantêm índices de saúde robustos, desafiando a carência de infraestrutura tecnológica hospitalar.


A explicação reside no domínio das garrafadas, banhos de ervas e rezas


Essas práticas não são "crendices", mas sim uma farmacopeia viva. O terreiro funciona como um repositório genético e intelectual:


* As Garrafadas: Misturas complexas de raízes, cascas e vinhos que atuam como tônicos e anti-inflamatórios.


* Os Banhos: Terapias hidrossolúveis que utilizam a absorção cutânea para tratar desde dermatites a distúrbios do sistema nervoso.


* As Rezadeiras: O elemento psicossomático do cuidado, tratando a saúde mental e espiritual de forma integrada — algo que a medicina ocidental só começou a validar recentemente através da psiconeuroimunologia.


Do Saber Popular ao Princípio Ativo


É um equívoco comum acreditar que a indústria química "inventa" remédios do zero. Na realidade, grande parte dos fármacos modernos é fruto da bioprospecção. Cientistas isolam princípios ativos de plantas que já eram utilizadas há milênios por comunidades tradicionais.


| Jaborandi | Fortalecimento e tônicos | Pilocarpina (tratamento de glaucoma) |


| Espinheira-santa | Chás para dores estomacais | Medicamentos antiulcerosos |


| Arnica | Cicatrização e hematomas | Pomadas e géis anti-inflamatórios |


O terreiro, portanto, atuou como o "curador" de dados de uma biblioteca que a colonização tentou queimar. Ao manter vivos os ritos de plantio e colheita das folhas sagradas (folhas de fundamento), essas comunidades garantiram a preservação da biodiversidade brasileira.


| O terreiro é a nossa primeira universidade. Nele, a química é aprendida pelo cheiro, pelo toque e pelo resultado na cura do próximo.


Resistência e Longevidade


A sobrevivência desses saberes é um ato político. Em territórios onde o Estado demorou a chegar, as rezadeiras e os mestres de ervas foram (e continuam sendo) os primeiros socorros. Essa autonomia farmacêutica gerou uma cultura de saúde preventiva que explica a longevidade em regiões do interior: o corpo é tratado como um ecossistema, não como uma máquina de peças isoladas.


Hoje, enquanto o mundo busca alternativas sustentáveis e naturais, os olhos se voltam novamente para o terreiro. Reconhecer essas práticas como tecnologia é essencial para dar o devido crédito — e proteção — aos detentores desse conhecimento que, silenciosamente, nutre as prateleiras das farmácias modernas.


De forma alguma propomos nesse artigo o abandono dos remédios químicos, pelo contrário, sinalizamos que todo o cúmulo sobre farcamo e seu uso é fruto de milênios de experimento e validação pelos nossos Ancestrais que se manifestam em nossos terreiros compartilhando esses e tantos outros segredos de sobrevivência.


Ngunzu



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Pai Caio

Caio Bayma nasceu na Baixada Fluminense, Nilópolis, foi morar no Morro dos Macacos por conta da proximidade com o trabalho, faculdade e atuação no movimento social, hoje reside no centro do Rio de Janeiro. Graduando em Matemática, integra a equipe do Observatório Adolescente (OPPA /UERJ) no eixo de religiosidade e atuou como primeiro extensionista na Superintendência de Saberes Tradicionais da UFRJ.   [+ informações de Pai Caio]


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Artigo de Opinião: texto em que o(a) autor(a) apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretações de fatos, dados e vivências. ** Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do AxéNews.


 
 
 

1 comentário


tathymoreno
há 20 horas

Que texto importante! Muito obrigada, pai pelo que escreveu. Importante a divulgação para as comunidades de terreiro. Farei isso por aqui - compartilharei para toda a comunidade interna.

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