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O que revelam as notícias sobre o racismo religioso no Brasil?

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    WR Express
  • há 6 dias
  • 3 min de leitura

Por Ana Paula Miranda (escrito com Andréia Soares Pinto)

22/01/2026 | 12:53


Desde 2021, o grupo de pesquisa Ginga-UFF vem analisando notícias sobre conflitos étnico-raciais-religiosos no Brasil, frequentemente chamados de “intolerância religiosa” ou “racismo religioso”. Em 2024, parte desse levantamento foi disponibilizada no site do grupo, reunindo matérias publicadas até 2023.


Em 2026, o banco de dados foi atualizado com as notícias de 2024 e trouxe novos elementos para entender como esses conflitos têm sido tratados pela mídia ao longo do tempo.


Ao todo, foram analisadas 1.828 publicações, produzidas entre 1996 e 2024 por jornais, portais, revistas, blogs e rádios online. O levantamento sistematiza informações sobre violações de direitos, mobilizações sociais e respostas do poder público, com foco nos povos tradicionais de matriz africana.



Entre 2014 e 2019, os ataques a terreiros no estado do Rio de Janeiro ganharam grande visibilidade. Esse destaque esteve ligado à atuação de grupos armados — milícias e traficantes — que passaram a adotar discursos e símbolos do evangelismo, associando perseguição religiosa ao controle territorial e a interesses econômicos.


Infelizmente o Rio de Janeiro se tornou símbolo desse cenário. Na Zona Norte da capital e na Baixada Fluminense — especialmente em Duque de Caxias, Nova Iguaçu e Belford Roxo — foram noticiados casos de invasões, incêndios, depredações e expulsões de lideranças religiosas. O caso de Mãe Carmem, ialorixá obrigada a destruir objetos sagrados em 2017, que viralizou nas redes sociais, revelou que essas violências não eram episódios isolados. Entre 2014 e 2019, foram identificados 36 ataques apenas no estado.


A partir de 2023, situações semelhantes passaram a ser registradas em outros estados, como Bahia, Piauí, Alagoas, Amazonas, Acre e Pará, mostrando que o problema está presente em várias regiões do país.


Essas violências não se resumem a atos isolados. Elas estão conectadas ao avanço de domínios armados nas periferias urbanas, às disputas por território e à reorganização de mercados ilegais. Por isso, o racismo religioso passou a ser reconhecido como um problema de direitos humanos e de segurança pública, e não apenas como uma questão de crença.


A mídia passou a dar mais atenção ao tema porque surgiram marcadores territoriais claros, como a imposição de “áreas proibidas para religiões de matriz africana”. A expulsão dos terreiros dos centros urbanos não é nova, mas hoje essa exclusão ocorre também por coerção armada, salientando que se está diante de uma violação do direito à cidade e à habitação, ou seja, trata-se de um problema urbano e ambiental.


Desde 2022, a cobertura começou a mudar. Diminuiu o foco exclusivo na violência e aumentaram as notícias sobre mobilizações sociais, ações judiciais e políticas públicas. Em 2024, atos públicos organizados pela sociedade civil apareceram em 13,2% das publicações, enquanto ações do sistema de justiça representaram 39,7%, mostrando maior atenção às respostas após os ataques.


Apesar disso, a violência persiste. Em 2024, foram registrados 698 eventos de violação, e cerca de 74% envolveram ataques diretos a espaços sagrados. Norte e Nordeste concentraram o maior número de casos. O estudo também destaca o papel das mídias independentes e afrorreligiosas, responsáveis por 11,7% das publicações, fundamentais para romper silêncios históricos.


Os dados mostram que o racismo religioso segue sendo multidimensional e, por isso, demanda políticas públicas eficazes, de justiça e reparação.


Se o leitor sabe de algum caso e quiser cooperar o banco de dados do Ginga-UFF está aberto à colaboração e pode ser acessado em:


Artigo escrito com Andréia Soares Pinto.



Joana Bahia - AxéNews

Ana Paula Mendes de Miranda

Doutora em Antropologia (USP); Professora da Universidade Federal Fluminense; Coordenadora do Ginga; Pesquisadora do INCT Ineac.




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