Estudo do Ginga-UFF revela avanço do racismo religioso no Brasil e quase 700 violações em 2024
- WR Express

- 21 de jan.
- 3 min de leitura
Levantamento analisou 1.828 notícias publicadas entre 1996 e 2024

✅ 21/01/2026 | 13:03
Um estudo realizado pelo grupo de pesquisa Ginga, da Universidade Federal Fluminense (UFF), revela que o racismo religioso no Brasil continua em crescimento e assume contornos cada vez mais graves, sendo hoje reconhecido como um problema de direitos humanos e de segurança pública. Apenas em 2024, foram registrados 698 eventos de violação, sendo cerca de 74% deles ataques diretos a espaços sagrados de religiões de matriz africana.
A pesquisa, coordenada pelas professoras Ana Paula Mendes de Miranda e Andréia Soares Pinto, analisou 1.828 publicações jornalísticas produzidas entre 1996 e 2024 por jornais, portais, revistas, blogs e rádios online. O levantamento sistematiza notícias sobre violações de direitos, mobilizações sociais e respostas do poder público relacionadas aos povos tradicionais de matriz africana
Desde 2021, o Ginga-UFF monitora a cobertura midiática sobre conflitos étnico-raciais-religiosos, frequentemente classificados como “intolerância religiosa” ou “racismo religioso”. Em 2024, o banco de dados foi atualizado com as notícias do ano anterior, permitindo uma análise mais ampla sobre a evolução do tema na mídia brasileira.
Entre 2014 e 2019, o estado do Rio de Janeiro ganhou destaque nacional devido ao aumento dos ataques a terreiros, sobretudo na Zona Norte da capital e na Baixada Fluminense, em municípios como Duque de Caxias, Nova Iguaçu e Belford Roxo. Nesse período, foram identificados ao menos 36 ataques, muitos associados à atuação de grupos armados — milícias e traficantes — que passaram a adotar discursos e símbolos do evangelismo como forma de controle territorial e econômico.
O caso da ialorixá Mãe Carmem, obrigada a destruir objetos sagrados em 2017, tornou-se emblemático ao viralizar nas redes sociais e evidenciar que a violência não se tratava de episódios isolados. A partir de 2023, situações semelhantes começaram a ser registradas também em estados como Bahia, Piauí, Alagoas, Amazonas, Acre e Pará, indicando a expansão nacional do problema.
De acordo com o estudo, essas violências estão diretamente ligadas ao avanço de domínios armados nas periferias urbanas, às disputas por território e à reorganização de mercados ilegais. A imposição de “áreas proibidas para religiões de matriz africana” passou a aparecer com mais frequência nas notícias, reforçando que a exclusão dos terreiros envolve também violações do direito à cidade, à moradia e ao meio ambiente.
A partir de 2022, a cobertura da mídia começou a apresentar mudanças. Houve redução do foco exclusivo nos episódios de violência e aumento das notícias sobre mobilizações sociais, ações judiciais e políticas públicas. Em 2024, atos públicos organizados pela sociedade civil representaram 13,2% das publicações analisadas, enquanto ações do sistema de justiça corresponderam a 39,7%, demonstrando maior atenção às respostas institucionais após os ataques.
O levantamento também destaca o papel estratégico das mídias independentes e afrorreligiosas, responsáveis por 11,7% das publicações, consideradas fundamentais para romper silêncios históricos e dar visibilidade a denúncias que muitas vezes não chegam à grande imprensa.
Segundo as pesquisadoras, os dados confirmam que o racismo religioso no Brasil é um fenômeno multidimensional e persistente, exigindo políticas públicas eficazes, ações de justiça e medidas de reparação. O banco de dados do Ginga-UFF segue aberto à colaboração da sociedade e pode ser acessado em:
As informações são baseadas no artigo “O que revelam as notícias sobre o racismo religioso no Brasil?”, de Ana Paula Mendes de Miranda e Andréia Soares Pinto, que será publicado no AxéNews na próxima quinta-feira, dia 22.




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