top of page

“Nosso voto tem axé”: Medo e perseguição também pesam na urna

há 20 horas
5 min de leitura

Por Ana Paula Miranda

✅2/10/2026 | 09:57


Em 19 de setembro, acompanhei os povos de terreiro de Sergipe no segundo lançamento da campanha “Nosso Voto Tem Axé”, realizado no Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Purificação e Distribuição de Água e em Serviços de Esgotos do Estado de Sergipe (SINDISAN). A iniciativa reuniu lideranças religiosas e candidaturas em torno de uma agenda política que entende a participação eleitoral como algo que vai além do voto: inclui apresentar demandas, cobrar compromissos e acompanhar quem ocupa os espaços de decisão.


O manifesto é claro: “Somos chamados a votar, mas nem sempre somos chamados a participar das decisões.” É essa relação que a campanha busca transformar. O voto é apresentado como quantidade, pois os povos de terreiro também compõem o eleitorado; como qualidade, porque expressa histórias, necessidades e projetos de sociedade; e como memória, por permitir recordar quem esteve presente, quem defendeu direitos e quem se omitiu diante das violações.



A realização do evento pela segunda eleição consecutiva é significativa porque revela o esforço de transformar a presença eleitoral dos povos de terreiro em participação política contínua. A campanha não indica candidaturas; ao contrário, afirma que “nosso voto é livre”. Sua proposta é fazer com que as candidaturas conheçam as demandas das comunidades, assumam compromissos públicos e sejam cobradas após as eleições.


A discussão se torna ainda mais relevante ao observarmos como a religião voltou ao centro do debate eleitoral. Nas últimas semanas, espalhou-se pelas redes sociais o boato de que Nossa Senhora Aparecida deixaria de ser a Padroeira do Brasil. O candidato não fez nenhuma declaração nesse sentido. Ainda assim, a narrativa não surgiu do nada: em 2007, outro parlamentar apresentou um projeto de lei sobre o tema, arquivado em 2008, que acabou associado ao boato durante o período eleitoral1. É nesse espaço entre o que de fato ocorreu e o que poderia ter ocorrido que o boato ganha força.


O boato funciona na franja da ambiguidade: elementos verdadeiros são deslocados e associados de modo a produzir uma ameaça possível. Não é preciso que a ameaça tenha acontecido para que o medo seja real.


Há, porém, uma memória de agressões a Nossa Senhora Aparecida que também ajuda a compreender a força dessa circulação entre os católicos. Em 1995, o bispo Sérgio Von Helder, da Igreja Universal do Reino de Deus, chutou e socou uma imagem da santa durante um programa de televisão, episódio que provocou forte reação entre católicos e ficou conhecido como o “chute na santa”2. Em 1978, a imagem original de Nossa Senhora Aparecida foi destruída em uma tentativa de roubo na Basílica Velha, em Aparecida; a peça se despedaçou em mais de 200 fragmentos e posteriormente foi restaurada3.


E não se trata apenas de uma memória distante. Em 2026, imagens de Nossa Senhora Aparecida voltaram a ser alvo de episódios de destruição e vandalismo. Em março, uma imagem foi quebrada com um machado em uma capela no Mato Grosso. Em agosto, uma imagem localizada às margens da BR-163, em Novo Progresso, no Pará, foi destruída em um incêndio apontado como criminoso. Em setembro, uma imagem de Nossa Senhora Aparecida foi encontrada sem a cabeça em Cuiabá, em um local conhecido como Cruz do Chilão. Não há informações disponíveis nas redes sociais sobre investigações ou responsabilizações pelos episódios; há, até o momento, registros de repúdio por parte de autoridades religiosas e de fiéis. Há, contudo, um detalhe que não pode ser esquecido: trata-se de uma santa negra.


Esses acontecimentos são importantes justamente porque permitem distinguir situações diferentes. A existência de agressões reais a símbolos religiosos não transforma em verdadeiro o boato que circulou durante a campanha eleitoral. Mas ajuda a compreender por que esse boato circulou tão rapidamente e foi capaz de mobilizar o medo. Esse medo não precisa ser inventado do nada: ele pode se apoiar em acontecimentos anteriores, em memórias coletivas e em experiências, e em outros contextos é compreendido como uma ameaça presente.


O episódio, portanto, merece ser observado para além da verificação de sua “falsidade”. O boato mobiliza um medo ao transformar uma possibilidade não comprovada em ameaça presente. Ele invoca a possibilidade de que uma referência religiosa seja ameaçada e, a partir dela, convoca uma comunidade a se reconhecer como ameaçada.


Essa questão é particularmente interessante quando pensamos nos povos de terreiro. Há uma diferença fundamental entre um medo produzido pela circulação de um boato e um medo forjado a partir de experiências concretas de dor. Para os terreiros, a ameaça de agressão não é apenas uma possibilidade. Ela se manifesta na invasão de espaços sagrados, na destruição de objetos, nas violências, nas ameaças, nos assassinatos e nas tentativas de impedir o exercício de suas práticas religiosas.

Para os povos de terreiro, o medo da perseguição não é produzido por um boato. Ele faz parte de experiências concretas e cotidianas.


É nesse ponto que a campanha “Nosso Voto Tem Axé” ganha outra dimensão. Quando os terreiros reivindicam proteção dos seus territórios, liberdade religiosa, combate ao racismo religioso, participação nas políticas públicas e representação nos espaços de decisão, não estão respondendo a uma ameaça imaginária. Estão falando a partir de uma experiência social marcada pela necessidade de proteger casas, objetos litúrgicos, corpos, memórias e formas de existência.


Por isso, talvez seja importante perguntar o que significa falar de religião nas eleições. Quem tem o direito de transformar o medo em pauta política? E quais medos são reconhecidos como legítimos? O debate eleitoral frequentemente convoca os eleitores religiosos, mas a campanha dos povos de terreiro de Sergipe propõe inverter essa relação: não apenas ser chamado a votar, mas ser chamado a participar da construção das decisões que dizem respeito à própria vida.


Na segunda experiência do “Nosso Voto Tem Axé”, essa parece ser uma das questões centrais. O medo também pesa na urna. Mas a participação política não precisa se limitar ao medo: ela pode se fazer pela escolha livre e consciente, pelo debate público e pelo exercício democrático do voto. Participar das eleições é também disputar os sentidos da cidadania e decidir, coletivamente, os rumos da vida pública. O voto pode terminar na urna. A cidadania, não.



1Para entender melhor o caso: UOL Comprova. “Desinformação sobre Flávio Bolsonaro e Nossa Senhora Aparecida”.


2Ver GIUMBELLI, Emerson. O “chute na santa”: blasfêmia e pluralismo religioso no Brasil. In: BIRMAN, Patrícia (org.). Religião e espaço público. São Paulo: Attar Editorial, 2003.





Joana Bahia - AxéNews

Ana Paula Mendes de Miranda

Doutora em Antropologia (USP); Professora da Universidade Federal Fluminense; Coordenadora do Ginga; Pesquisadora do INCT Ineac.




Contatos de Ana Paula Mendes de Miranda:

Redes Sociais: Instagram

 
 
 

Comentários


bottom of page