"Macumbeiro", novo show de humor de Yuri Marçal, reúne 700 pessoas no Rio, e levará ancestralidade dos terreiros para outros estados
- há 1 dia
- 4 min de leitura
Yuri revisita histórias e vivências do Candomblé que atravessam sua trajetória

✅ 2/9/2026 | 15:07
Entre risadas, emoção e olhares de reconhecimento, Yuri Marçal reuniu na noite de sexta-feira (29), cerca de 700 macumbeiros no Imperator, no Rio de Janeiro, para a estreia de seu novo espetáculo de comédia, “Macumbeiro”. A apresentação marca um momento importante para o humor brasileiro ao colocar a ancestralidade dos terreiros no centro de um show de stand-up e transformar a experiência de um dos principais humoristas do país em um grande encontro de pertencimento, fé e identificação. Em seu quinto solo, Yuri revisita histórias e vivências do Candomblé que atravessam sua trajetória, e agora, inicia uma turnê nacional levando o espetáculo para 15 cidades brasileiras em celebração aos seus dez anos de carreira.
A força da estreia esteve também na própria composição da plateia. Os espectadores que chegaram vestidos a caráter e a troca com uma platéia que também compõe o show com as suas referências, situações e experiências diversas que fazem parte do cotidiano das pessoas de religiões de matriz africana. O teatro se tornou um espaço de reconhecimento: histórias que tantas vezes são atravessadas pelo preconceito e pela intolerância, mas que ali encontraram lugar para aparecer como matéria de riso.
“É bonito ver o povo de terreiro se divertindo em meio a tanta coisa que vem acontecendo há anos. A gente poder compartilhar histórias e se divertir entre os nossos é muito gratificante”, afirma Yuri.
Em 'Macumbeiro', Yuri se coloca diante de uma narrativa que vem construindo desde a infância. Filho de mãe de santo e criado dentro do Candomblé, o humorista revisita memórias da infância e da adolescência, histórias de família e situações vividas no terreiro. Fala sobre fé, Candomblé, Umbanda e sobre as situações que surgem quando diferentes crenças se encontram.
A partir dessas experiências, o espetáculo também atravessa temas como intolerância religiosa, racismo, preconceito, política, fake news e desinformação. O humor nasce justamente do contraste entre aquilo que é vivido dentro dos terreiros e o imaginário construído fora deles, explorando as confusões, os estereótipos e os absurdos que cercam as religiões de matriz africana.
O próprio título carrega uma provocação. Historicamente utilizado de maneira pejorativa para se referir às pessoas ligadas às religiões de matriz africana, “macumbeiro” aparece no palco como palavra de pertencimento, orgulho e celebração. “Eu acho que esse encontro representa a alegria de ser quem a gente é, de fazer parte de uma fé, uma religião ancestral, de matriz africana e que a gente ama fazer parte e celebrar”, diz o humorista.
A relação profissional de Yuri com a religião também não nasceu agora. Desde os primeiros anos de sua carreira, referências à macumba, ao Candomblé e à espiritualidade já faziam parte de seus textos e conteúdos que ganharam repercussão na internet. O que agora ocupa um espetáculo inteiro sempre esteve presente na maneira como o humorista construiu sua linguagem.
Yuri começou na comédia stand-up em 2016 e, ao longo de uma década, tornou-se um dos principais nomes do humor no Brasil. Sua trajetória foi construída a partir de uma comédia profundamente ligada às próprias experiências, abordando racismo, relações, cotidiano, política e identidade. Antes de viver da arte, conciliou faculdade, trabalho e teatro enquanto buscava espaço para construir uma carreira. A persistência abriu caminho para grandes palcos e novas plataformas.
Yuri conquistou projeção nacional com seus vídeos e personagens nas redes sociais e passou por projetos como o Porta dos Fundos e o Comedy Central. Em 2022, lançou “Ledo Engano”, especial da Netflix que ampliou ainda mais o alcance de seu trabalho se tornando o primeiro humorista negro da América Latina a ter especial na plataforma. No cinema, viveu Mussum jovem em Mussum, O Filmis, e recebeu o Kikito de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante no Festival de Cinema de Gramado, em 2023. A premiação colocou o trabalho de Yuri também entre os destaques do cinema brasileiro.
É a partir dessa trajetória que Macumbeiro ganha outra dimensão. Aos dez anos de carreira, Yuri não cria um personagem para falar de ancestralidade: ele coloca no palco uma parte da própria vida. O espetáculo é, ao mesmo tempo, uma celebração da fé que o formou e a continuidade de uma linguagem que sempre teve sua realidade como principal inspiração.
Depois da estreia no Rio de Janeiro, o espetáculo segue para 15 cidades brasileiras até novembro. A turnê passa por Belo Horizonte (08/09), Porto Alegre (18/09), Recife (25/09), Brasília (01/10), Goiânia (02/10), Manaus (03/10), Niterói (15/10), Juiz de Fora (18/10), São Paulo (20/10), Sorocaba (21/10), Campinas (22/10), Curitiba (23/10), Vitória (28/10), Salvador (02/11) e Florianópolis (14/11).
Em cada cidade, Yuri leva consigo a experiência de transformar aquilo que conhece profundamente em uma linguagem capaz de alcançar públicos diversos. “Vai ser diferente em cada cidade que a gente tiver, mas ao mesmo tempo a gente vai estar unido pelo mesmo propósito. Que é rir das nossas histórias”, afirma.
Aos dez anos de carreira, Yuri Marçal chega ao palco lembrando de onde veio e além do talento e dedicação, o que o levou onde está. E, desta vez, faz isso diante de centenas de pessoas que se reconhecem e celebram a importância social e histórica do seu trabalho.

.png)





Comentários