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Macumbas e favelas: tecnologias negras de permanência

  • há 1 dia
  • 8 min de leitura

Por: Pâmela Carvalho

Foto: Onirá Produções
Foto: Onirá Produções

7/9/2026 | 08:55


Há duas palavras que o Brasil ainda pronuncia com a boca da polícia: macumba e favela.


Uma aciona a velha suspeita contra o sagrado negro. A outra costuma funcionar como licença para sitiar territórios negros. Em comum, as duas carregam a marca de um país que se alimenta da criação de seu povo e, ao mesmo tempo, transforma seus espaços de vida em estigma e repressão.


Escrevo a partir do Conjunto de Favelas da Maré e da minha vivência no Omoloko. Escrevo como alguém que aprendeu a reconhecer a inteligência negra onde o discurso e poder público enxergaram carência ou desordem.


É desse lugar que proponho uma ideia: macumbas e favelas são tecnologias negras de permanência.


Uso a palavra tecnologia em seu sentido mais amplo. Tecnologia é todo o conhecimento acumulado capaz de resolver problemas, transmitir memórias e ampliar a capacidade de uma comunidade continuar existindo. Uma rede de proteção entre vizinhas é uma tecnologia. Um mutirão é uma tecnologia. Um ponto cantado que atravessa gerações também. A preparação coletiva da comida, o cuidado com os mais velhos, a transmissão oral de um saber sobre as folhas, a organização de uma associação de moradores e os mecanismos criados para avisar que uma rua está em risco fazem parte de sofisticadas experiências de vida coletiva.



Uso também ‘macumbas’ no plural como nome político para uma constelação de tradições negras e afro-indígenas. Umbandas, candomblés, encantarias, jongos, omolocôs, batuques, tambores de mina e tantas outras experiências possuem histórias, liturgias e comunidades próprias. O plural não apaga essas diferenças, ele reúne práticas que o olhar colonial tentou reduzir a uma única categoria de suspeição.


Quando chamo macumbas e favelas de invenções negras, não estou sugerindo uma origem simples ou uma propriedade racial exclusiva. Falo do protagonismo de uma população que, depois de séculos de escravização e de uma abolição inconclusa e sem reparação, precisou produzir formas de morar, celebrar, educar, proteger e reorganizar o sagrado.


O Brasil costuma tratar essas invenções como problema porque reconhecer sua grandeza exigiria admitir o tamanho de sua dívida com a população negra.


A cidade que o pós-abolição tentou apagar

A história das favelas não tem uma narrativa única. O Morro da Providência no Rio de Janeiro e o retorno de soldados da Guerra de Canudos são partes importantes dessa memória, mas a formação das favelas envolve processos mais extensos como antigas áreas quilombolas, territórios negros urbanos, cortiços demolidos, ocupações feitas por trabalhadores, migrações e a expulsão contínua da população pobre das regiões conaideradas valorizadas na cidade.


A Lei de Terras de 1850 transformou a compra em principal forma de acesso legal à propriedade justamente quando o fim da escravidão se tornava inevitável. Décadas depois, a população negra saiu formalmente do cativeiro sem terra, sem indenização, sem política de moradia e submetida às estruturas sociais comandadas pelos antigos proprietários (CAMPOS, 2005; GONÇALVES, 2013).


No Rio de Janeiro, as reformas urbanas do início do século XX completaram parte desse trabalho. Em nome da higiene, da modernização e do progresso, cortiços foram destruídos e milhares de pessoas foram empurradas para morros, subúrbios e áreas com pouca infraestrutura pública. A chamada modernização da cidade tinha cor e endereço.


O geógrafo Andrelino Campos demonstrou como a criminalização dos territórios negros atravessa a passagem histórica do quilombo à favela. Seu conceito de ‘espaço criminalizado’ ajuda a compreender que a favela não foi tratada apenas como um lugar onde supostamente aconteciam crimes. O próprio território foi convertido em suspeito, e seus moradores passaram a carregar essa suspeição pelos caminhos que percorriam. (CAMPOS, 2005).


Por isso é insuficiente repetir que as favelas nasceram da ausência do Estado. Em muitos momentos, o Estado esteve bastante presente. Esteve nas remoções, na repressão ao comércio popular, na criminalização das manifestações culturais e nas operações policiais. O que faltou foi sua face garantidora de direitos.


Os dados do Censo Demográfico de 2022 ajudam a dimensionar essa história. Mais de 16,3 milhões de pessoas viviam em favelas e comunidades urbanas no país. Entre seus moradores, 56,8% se declararam pardos e 16,1% pretos. Somadas, as duas categorias representam 72,9% dessa população (IBGE, 2024). Esta é a geografia do pós-abolição.


Apesar de, seus moradores produziram novos sentidos de cidade. Abriram ruas, ergueram casas, organizaram redes comerciais, criaram associações, festas, escolas populares, blocos, jornais comunitários e estratégias de circulação. Construíram uma urbanidade que os mapas oficiais demoraram décadas para reconhecer.


O sagrado convertido em crime

Com as macumbas, a operação foi semelhante.

Dois anos depois da abolição, a República aprovou o Código Penal de 1890. Seu artigo 157 criminalizava a prática do ‘espiritismo, da magia e de seus sortilégios’, além do uso de talismãs, cartomancias e práticas de cura. A linguagem aparentemente genérica permitia que a polícia perseguisse terreiros, sacerdotes, curadores, benzedeiras e comunidades religiosas negras (BRASIL, 1890). A República que se dizia moderna transformou o sagrado negro em infração penal.


Entre 1889 e 1945, pelo menos 519 objetos de religiões afro-brasileiras foram apreendidos em operações policiais no Rio de Janeiro. Durante décadas, essas peças permaneceram sob custódia da polícia e foram classificadas como parte de uma coleção ligada à chamada ‘magia negra’. Hoje, integram o acervo Nosso Sagrado, transferido para o Museu da República depois de uma longa mobilização de lideranças religiosas (MUSEU DA REPÚBLICA, 2025). Essa coleção evidencia que objetos sagrados entraram no patrimônio público por meio da violência. Guias, imagens, instrumentos, assentamentos e elementos rituais foram retirados de suas comunidades e convertidos em provas de crime.


A invasão do terreiro era apresentada como defesa da civilização. A invasão da favela também.


Os vocabulários empregados contra esses territórios sempre foram parecidos: sujeira, perigo, atraso, promiscuidade, feitiçaria, desordem. A mesma sociedade que associava o terreiro à degeneração descrevia a favela como uma doença urbana. Higienizar a cidade e purificar a fé eram partes de um mesmo projeto de controle racial.


Essa perseguição não ficou presa ao passado brasileiro. Uma pesquisa nacional realizada com 511 terreiros revelou que 74% das comunidades participantes relataram ameaças, ataques ou destruição (DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO, 2025).


O conceito de racismo religioso, discutido por autoras como Ana Paula Mendes de Miranda e por intelectuais como Sidnei Nogueira, oferece uma chave de leitura importante para compreender essa violência. ‘Intolerância’ pode sugerir apenas uma dificuldade de convivência entre crenças. O que atinge as religiões de matrizes africanas está ligado à perseguição histórica de corpos, culturas, conhecimentos e formas de organização negras (MIRANDA, 2021; NOGUEIRA, 2020). A religião é o alvo imediato. A estrutura da violência é racial.


Um relatório publicado pelo Ministério da Igualdade Racial em 2025 também registra que lideranças de diferentes regiões reivindicam o reconhecimento dos terreiros como espaços de cuidado, educação, saúde comunitária e realização de direitos. As demandas incluem proteção territorial, regularização fundiária e políticas públicas capazes de considerar a organização própria dessas comunidades (BRASIL, 2025). Terreiros produzem parentesco para além do sangue, guardam memórias, alimentam pessoas, oferecem escuta e transmitem conhecimentos sobre o corpo, território e natureza.


Muniz Sodré definiu o terreiro como uma forma social negro-brasileira. Em sua leitura, o terreiro recompõe no território da diáspora uma experiência de comunidade atingida pela escravização e pela dispersão (SODRÉ, 2019). O terreiro, portanto, não deve ser entendido somente como o espaço onde acontecem os rituais. Ele é uma maneira de organizar relações baseada em experiências negras.


Tecnologias negras de permanência

Favelas e macumbas fazem coisas diferentes, possuem conflitos próprios e não podem ser reduzidas uma à outra. Ainda assim, compartilham uma experiência histórica comum: foram criadas e mantidas por populações obrigadas a reorganizar a vida em condições de intensa precariedade política.


É nesse ponto que encontro as tecnologias negras de permanência.

A historiadora Beatriz Nascimento recusou a ideia de que o quilombo fosse apenas uma formação presa ao passado escravista. Em seus estudos, o quilombo aparece como continuidade histórica e como experiência de organização de pessoas negras em torno do território, da autonomia e de uma memória comum (NASCIMENTO, 2021). Abdias Nascimento, ao formular o quilombismo, também percebeu nessas experiências uma capacidade política que ultrapassava os quilombos históricos. O que estava em jogo era um modo de criar senso de comunidade diante de instituições que negavam à população negra o direito de conduzir a própria vida (NASCIMENTO, 2019).


Essa continuidade não significa que toda favela ou todo terreiro seja um quilombo. Mas ela nos permite reconhecer um repertório histórico de organização coletiva que muda de forma, responde a novos conflitos e atravessa diferentes territórios.

Essa ciência também aparece na capacidade de trabalhar com aquilo que existe. Um terreiro raramente espera pelas condições ideais para produzir acolhimento. Uma comunidade de favela também não pode suspender a vida até que o Estado decida cumprir sua obrigação. Em ambos os espaços, improvisar exige memória, leitura do ambiente, inteligência e compromisso coletivo. Improviso, aqui, não é falta de conhecimento. Muitas vezes, é justamente o conhecimento operando sob pressão e condições adversas.


Reconhecer essa inteligência não deve criar uma ideia de romantização da precariedade. A potência das favelas e terreiros jamais deve servir como desculpa para que o Estado continue descumprindo suas responsabilidades com a proteção integral da população negra e suas práticas.

A palavra ‘resiliência’ se tornou conveniente porque permite elogiar quem suporta a violência sem discutir quem a produz. Por isso prefiro falar em permanência. Permanecer envolve proteger a memória, disputar o território e criar condições para que os que chegam depois não precisem começar novamente do zero. Terreiros e favelas não precisam de tolerância. Precisam de direitos.


Macumbas e favelas expõem as contradições da sociedade brasileira porque não são apenas produtos culturais disponíveis para consumo. São territórios vivos, organizados por pessoas que disputam memória, recursos e autoridade sobre suas próprias narrativas.


O escândalo está aí. O Brasil depende profundamente de tudo o que o povo negro produz, enquanto mantém estruturas dedicadas a vigiar, explorar e conter esse mesmo povo. Ainda assim, permanecemos.


Permanecer, para quem foi destinado ao desaparecimento, é produzir futuros possíveis. É fazer da casa, do terreiro, da laje, da rua, do barracão lugares a partir dos quais a vida possa continuar sendo imaginada.



REFERÊNCIAS

BRASIL. Decreto nº 847, de 11 de outubro de 1890. Promulga o Código Penal. Rio de Janeiro, 1890. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1851-1899/d847.htm. Acesso em: 27 ago. 2026.

BRASIL. Ministério da Igualdade Racial. Relatório socioeconômico sobre a situação do racismo religioso no Brasil. Brasília, DF: Ministério da Igualdade Racial, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/igualdaderacial/pt-br/assuntos/noticias/mir-divulga-relatorios-da-serie-de-encontros-abre-caminhos-pelo-brasil/20250702RelatorioSocioeconomicoSobreSituacaoDoRacismoReligiosoNoBrasil.pdf. Acesso em: 27 ago. 2026.

CAMPOS, Andrelino Oliveira. Do quilombo à favela: a produção do ‘espaço criminalizado’ no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005.

DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO. Pesquisa revela racismo religioso contra os povos de terreiro e de matriz africana no Brasil. Brasília, DF, 2025. Disponível em: https://direitoshumanos.dpu.def.br/pesquisa-revela-racismo-religioso-contra-os-povos-de-terreiro-e-de-matriz-africana-no-brasil/. Acesso em: 27 ago. 2026.

FISCHER, Brodwyn. Favelas e as pós-vidas da cidade escrava. Topoi, Rio de Janeiro, v. 25, 2024. Disponível em: https://www.scielo.br/j/topoi/a/VvjHTHfktp8dCCYC9bc4DfD/. Acesso em: 27 ago. 2026.

GONÇALVES, Rafael Soares. Favelas do Rio de Janeiro: história e direito. Rio de Janeiro: Pallas; Editora PUC-Rio, 2013.

GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Organização de Flávia Rios e Márcia Lima. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.

HARDING, Rachel E. A refuge in thunder: Candomblé and alternative spaces of blackness. Bloomington: Indiana University Press, 2000.

IBGE. Censo Demográfico 2022: favelas e comunidades urbanas. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2024. Disponível em: https://educa.ibge.gov.br/jovens/materias-especiais/22539-censo-2022-16-390-815-pessoas-moravam-em-favelas-e-comunidades-urbanas.html. Acesso em: 27 ago. 2026.

MIRANDA, Ana Paula Mendes de. A ‘política dos terreiros’ contra o racismo religioso e as políticas ‘cristofascistas’. Debates do NER, Porto Alegre, v. 21, n. 40, 2021.

MUSEU DA REPÚBLICA. Nosso Sagrado. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Museus, 2025. Disponível em: https://museudarepublica.museus.gov.br/wp-content/uploads/2025/07/Livro_Cuidando-da-Vida.pdf. Acesso em: 27 ago. 2026.

NASCIMENTO, Abdias do. O quilombismo: documentos de uma militância pan-africanista. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 2019.

NASCIMENTO, Beatriz. Uma história feita por mãos negras: relações raciais, quilombos e movimentos. Organização de Alex Ratts. Rio de Janeiro: Zahar, 2021.

NOGUEIRA, Sidnei. Intolerância religiosa. São Paulo: Pólen, 2020.

RUFINO, Luiz. Pedagogia das encruzilhadas. Rio de Janeiro: Mórula, 2019.

SIMAS, Luiz Antonio; RUFINO, Luiz. Encantamento: sobre política de vida. Rio de Janeiro: Mórula, 2020.

SIMAS, Luiz Antonio; RUFINO, Luiz. Fogo no mato: a ciência encantada das macumbas. Rio de Janeiro: Mórula, 2018.

SODRÉ, Muniz. O terreiro e a cidade: a forma social negro-brasileira. Rio de Janeiro: Mauad X, 2019.




Pâmela Carvalho - AxéNews

Pâmela Carvalho | Mestre em Educação

Educadora, historiadora, gestora cultural, pesquisadora ativista das relações raciais e de gênero e dos direitos de populações de favelas. É mestre em educação pela UFRJ. É coordenadora-pesquisadora da ”Casa Preta da Maré”, na Redes da Maré e representa institucionalmente a organização na secretaria executiva do Fórum Permanente pela Igualdade Racial (FOPIR) e na Coalizão Negra por Direitos. [+ informações de Pâmela Carvalho]


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