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Dois fóruns, muitas vozes e uma só luta: liberdade religiosa na Baixada Fluminense

3 de set.
4 min de leitura

Por: João Gabriel

✅ 3/9/2026 | 07:27


A Baixada Fluminense foi palco, durante o mês de agosto, de dois importantes fóruns inter-religiosos que colocaram em pauta um dos grandes desafios do nosso tempo: o combate à intolerância religiosa e a construção de uma sociedade verdadeiramente comprometida com a liberdade de crença, com a dignidade humana e com o respeito à diversidade.


Como defensor da liberdade religiosa e estudante de História Comparada, não apenas acompanhei esses importantes encontros: tive a honra e a responsabilidade de atuar como mediador das mesas de diálogo, ao lado de grandes mestres, professores, profissionais e pensadores que dedicaram seus conhecimentos à construção de uma sociedade mais justa e consciente.


Estar no centro desses diálogos foi também uma oportunidade de ouvir diferentes saberes, aproximar perspectivas e contribuir para que questões muitas vezes silenciadas pudessem ser discutidas de forma aberta, responsável e democrática.



E existe algo muito poderoso quando diferentes segmentos religiosos, profissionais da educação, da saúde, do serviço público e representantes da sociedade se sentam para dialogar: a possibilidade de transformar experiências individuais em consciência coletiva e consciência coletiva em ação.


No dia 25 de agosto, a Tenda Espírita Luz de Maria, em Duque de Caxias, recebeu mais de 120 pessoas para um grande encontro de diálogo inter-religioso.


Participaram como palestrantes o Diácono Adilson, o Doutor Ramon Mendonça, Bianca Morelli e o Professor Tawan, trazendo diferentes perspectivas para uma discussão que ultrapassou os limites da religião.


Entre os principais temas estiveram a intolerância religiosa nos ambientes de educação, saúde e serviço público, além dos impactos psicológicos provocados pelo racismo, pela discriminação e pelas violações relacionadas à liberdade de crença.


Falou-se sobre trauma, sofrimento e as marcas que determinados crimes deixam não apenas na vítima, mas também em suas famílias e comunidades. Afinal, quando uma pessoa é atacada por sua fé, sua identidade ou sua tradição, não estamos diante de um problema exclusivamente individual: estamos diante de uma ferida social.


Poucos dias depois, em 30 de agosto, outro fórum reuniu mais de 50 pessoas no TEIUNECC— Templo Escola De Irmãos Unidos em Caridade com Cristo, em Nilópolis.


O encontro contou com a participação da Professora Érica Prel, Professor Renato de Baru, Psicanalista Rodrigo Lima, Psicóloga Angelina Dias e Professora Mariana Gino Diretora executiva do CEAP.


Mais uma vez, tive a oportunidade de mediar a mesa de diálogo, contribuindo para aproximar os diferentes conhecimentos e experiências apresentados pelos palestrantes.


Entre as pautas discutidas esteve a importância do combate à intolerância religiosa e da valorização da Lei 10.639, especialmente no processo de reconhecimento da história e da cultura afro-brasileira dentro dos espaços educacionais.


Também foram debatidas políticas públicas voltadas à proteção e à valorização das culturas de matriz africana nos ambientes de trabalho, com atenção especial às novas gerações e aos jovens.


A psicologia também ocupou espaço importante no debate, principalmente na compreensão e no enfrentamento dos impactos provocados por crimes de intolerância, racismo, LGBTfobia e outras formas de violência e discriminação.


O que esses dois fóruns nos ensinam?


Talvez a principal conclusão desses encontros seja simples, mas extremamente necessária: não podemos combater a intolerância religiosa apenas depois que ela acontece. Precisamos trabalhar para que ela não aconteça.


Os movimentos sociais, religiosos, educacionais e profissionais vêm produzindo dados, mobilização e conhecimento. Comunidades de matriz africana, além de segmentos como budistas, wiccanos, espíritas, cristãos, judeus, muçulmanos, pessoas sem religião e ateístas, entre tantos outros, enfrentam diferentes formas de intolerância e discriminação.


Essa realidade tem provocado uma movimentação cada vez maior de profissionais da educação, da saúde, do serviço público e também da iniciativa privada em busca de conhecimento, proteção e mecanismos para enfrentar aqueles que ainda acreditam que crimes de intolerância religiosa permanecerão impunes.



Os dois fóruns deixaram uma pergunta que precisa continuar ecoando:


Quem nós seremos para representar toda essa história e defender as leis que já existem?


Quem seremos para nossos filhos?


Quem seremos para nossos colegas?


Quem seremos para nossos irmãos?


O combate à intolerância religiosa começa também dentro de casa.


Começa quando não permitimos o bullying. Quando não achamos graça de uma piada racista ou preconceituosa. Quando não reproduzimos comentários maldosos sobre a religião do outro. Quando ensinamos nossas crianças a respeitar quem pensa, acredita ou vive de maneira diferente.


Porque aquilo que é naturalizado dentro de casa pode chegar à escola, ao trabalho, ao serviço público, às universidades e às ruas.


Vivemos também um período eleitoral no Brasil. E essa realidade nos traz outra reflexão importante.


Quem estará disposto a defender a liberdade religiosa não apenas no discurso, mas na construção de políticas públicas?


Os fóruns terminaram, mas o trabalho não.


O diálogo continua. As discussões continuam. As propostas continuam sendo construídas.


Eles marcham para nos atacar. Nós caminhamos para resistir.


Se aqueles que defendem o preconceito se organizam para nos atacar, nós precisamos nos organizar para defender a vida, a dignidade, a história e a liberdade.


E é por isso que no dia 20 de setembro, em Copacabana, estaremos juntos na Caminhada da Liberdade Religiosa.


Essa caminhada não é de um partido.


Não é de um político.


Não é de uma religião.


Essa caminhada é nossa.


É de quem acredita que ninguém deve ser perseguido por aquilo em que acredita — ou por não acreditar.


Depois desses dois fóruns, uma certeza permanece: não basta falar sobre liberdade religiosa. É preciso defendê-la todos os dias.


Que possamos seguir dialogando, construindo, educando e caminhando juntos.


Porque a nossa história não será apagada.


A nossa fé não será criminalizada.

A nossa cultura não será silenciada.

E a nossa liberdade não será negociada.


Nos encontramos no dia 20 de setembro, em Copacabana.

Vamos juntos.


Um fraterno abraço do irmão,



Ẹ̀gbọ́n Moyses de Ògún - AxéNews

João Gabriel

João Gabriel Pereira é sacerdote de Umbanda e filho do Templo Espírita Ogum Megê Matriz, localizado em Vaz Lobo, no Rio de Janeiro. Atua há anos na promoção da liberdade religiosa, do diálogo inter-religioso e da defesa dos direitos das comunidades tradicionais de matriz africana. É membro da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR), integrante da Comissão de Direito Religioso da OAB Duque de Caxias, ex-coordenador do Núcleo de Atendimento às Vítimas de Intolerância Religiosa (NAVIR) e membro do CEAP... [+ informações de João Gabriel]


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Artigo de Opinião: texto em que o(a) autor(a) apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretações de fatos, dados e vivências. ** Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do AxéNews.


 
 
 

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