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Diversidade Afro-religiosa e Intolerância Intrarreligiosa

  • há 12 horas
  • 4 min de leitura

Por: Laylah El Ishtar

Foto: Reprodução

3/8/2026 | 08:26


O Brasil é um país de dimensões continentais; sua extensão territorial não é apenas um dado geográfico, mas um elemento fundamental para compreender a complexidade cultural e espiritual que se desenvolveu em seu interior. Pensar que um território com tamanha diversidade histórica, étnica e social possa ser reduzido, no campo das religiões afro-brasileiras, a dois grandes blocos, Umbanda e Candomblé, é, no mínimo, uma simplificação que empobrece a realidade.


Entre esses dois polos, que frequentemente são tratados como categorias fixas e opostas, existe uma vasta gama de práticas, tradições e experiências espirituais que não cabem em classificações rígidas. Há cultos que se aproximam da Umbanda, outros que dialogam com o Candomblé, e há aqueles que constituem sistemas próprios, com fundamentos, cosmologias e ritualísticas específicas, desenvolvidas a partir de contextos locais e trajetórias históricas singulares.



Um exemplo significativo é o Jarê, praticado na Chapada Diamantina. À primeira vista, seus rituais podem remeter à Umbanda, sobretudo para um olhar externo e pouco aprofundado; no entanto, a antropologia o reconhece como um Candomblé de Caboclo, revelando como as categorias analíticas nem sempre coincidem com as percepções visuais ou com os enquadramentos populares. Essa tensão evidencia o quanto nossas formas de nomear e classificar ainda são limitadas diante da riqueza das expressões afro-religiosas.


Nesse sentido, Reginaldo Prandi aponta que a compreensão dessas tradições foi profundamente influenciada pelo foco quase exclusivo nos Candomblés Nagôs da Bahia, que, embora importantes, representam apenas uma parte desse universo. Segundo ele, outras formas de culto teriam sido mais amplamente reconhecidas se não fosse essa centralização, essa monopolização que acabou por invisibilizar práticas como a Makumba, formas antigas de Umbanda e o Omolokô, que facilmente seriam compreendidos como Candomblés de Caboclo, mas que possuem dinâmicas próprias.


Esse processo de enquadramento não é neutro: ele reflete disputas de legitimidade, poder simbólico e reconhecimento. E é justamente nesse ponto que emerge um problema grave: a intolerância intrarreligiosa.


A tentativa de estabelecer hierarquias entre tradições, definindo o que é “mais puro”, “mais correto” ou “mais legítimo”, reproduz uma lógica profundamente colonial. Trata-se da mesma estrutura que, historicamente, afirmou que apenas uma religião, um Deus e uma forma de culto seriam verdadeiros, relegando todas as demais à inferioridade, ao erro ou à demonização.


A antropóloga Stefania Capone problematiza essa noção ao discutir a busca por uma suposta “África pura” dentro do Candomblé. Segundo a autora, essa ideia de pureza não se sustenta nem na diáspora, nem no próprio continente africano, onde sempre houve circulação, trocas e atravessamentos entre diferentes povos, crenças e práticas. Mesmo tradições consideradas mais “tradicionais”, como o Candomblé Ketu, são resultado de processos históricos complexos, marcados por adaptações, recriações e encontros culturais.


Ou seja: a pureza, além de inalcançável, é uma construção ideológica e, quando utilizada como critério de validação, torna-se instrumento de exclusão.


Isso não significa, por outro lado, que tudo seja indiferente ou que não haja critérios. A defesa das tradições é legítima; a preocupação com a banalização, com a apropriação cultural e com o esvaziamento dos rituais é necessária e urgente. Vivemos um tempo em que práticas sagradas são constantemente reduzidas a estética, consumo ou espetáculo, e isso precisa ser enfrentado com responsabilidade.


No entanto, essa defesa não pode se basear em ataques entre as próprias tradições afro-religiosas. A crítica não deve recair sobre o modo como o outro cultua, mas sobre a intenção, o compromisso e a ética que sustentam essa prática. Há uma diferença profunda entre preservar fundamentos e impor modelos únicos.


A intolerância intrarreligiosa, ao invés de fortalecer, fragmenta. E, ao fragmentar, enfraquece, ela desvia o foco de quem, de fato, historicamente e ainda hoje, atua na perseguição e demonização dessas religiões: setores externos que não reconhecem sua legitimidade e que operam ativamente para desqualificá-las.


Nesse contexto, a reprodução de discursos de superioridade ou inferioridade entre tradições afro-brasileiras acaba servindo, ainda que involuntariamente, aos interesses daqueles que sempre buscaram silenciá-las.


Diante disso, o caminho possível não é a uniformização, mas o reconhecimento da pluralidade. É compreender que a diversidade não é um problema a ser resolvido, mas uma característica constitutiva dessas tradições. É possível não se identificar com determinada prática, não querer segui-la ou reproduzi-la, e isso faz parte da liberdade espiritual. O que não se sustenta é transformar essa escolha em julgamento, deslegitimação ou ataque.


A riqueza das religiões afro-brasileiras está justamente em sua capacidade de recriar, adaptar e resistir. Reduzi-las a categorias fixas ou submetê-las a disputas internas de legitimidade é ignorar essa potência.


Reconhecer a diversidade é, portanto, um ato de responsabilidade histórica e, também, um gesto de proteção coletiva.




Bàbé Ifálóba Ifálósèyí - AxéNews

Laylah El Ishtar

Nascida em Campo Grande, subúrbio do Rio de Janeiro, é também nascida em um terreiro de Umbanda situado na região historicamente conhecida como Sertão Carioca, um dos berços da Makumba Carioca. Carrega em sua ancestralidade a mescla indígena Puri, africana e espanhola, refletindo as encruzilhadas que formam o povo brasileiro. É filha da Tenda do Caboclo Lírio, onde iniciou sua jornada espiritual sob a orientação de Babá Lenice.   [+ informações de Laylah El Ishtar]


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Artigo de Opinião: texto em que o(a) autor(a) apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretações de fatos, dados e vivências. ** Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do AxéNews.


 
 
 

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