Nanã: a sabedoria que decanta o tempo
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Por: Filipi Brasil

31/7/2026 | 11:03
Nanã é a grande avó da Umbanda. A mais velha, a anciã, a senhora que guarda em seu silêncio os mistérios da vida, da morte e da ancestralidade. É Tata, é a senhora do portal, das águas paradas, dos poços, dos pântanos e da chuva quando encontra a terra e transforma o chão em barro. Em seu manto roxo repousam a dignidade dos mais velhos, a memória dos que vieram antes de nós e a sabedoria amadurecida pelo tempo.
Sua presença reúne duas forças que apenas parecem opostas: a doçura da avó e a austeridade da grande senhora. Nanã acolhe, mas também corrige. Ampara, sem alimentar nossas ilusões. Ensina que a verdadeira sabedoria não está na pressa das respostas, mas na capacidade de esperar, observar e compreender. Como a água repousada, ela nos convida a permitir que as impurezas desçam, para que aquilo que realmente importa possa se tornar mais claro.
Por isso, uma de suas atuações mais profundas está na decantação das emoções. Nanã nos auxilia a filtrar o pensar e o sentir, separando aquilo que nasce de nossa essência daquilo que é resultado da agitação, do ressentimento, do medo ou da impulsividade. Sob sua vibração, aprendemos que nem toda emoção precisa transformar-se imediatamente em palavra ou atitude. Algumas experiências precisam repousar dentro de nós até que possam ser compreendidas e transmutadas.
Nanã é também a senhora do princípio da vida. Em antigas narrativas de matriz africana, é ela quem oferece o barro a Pai Oxalá para a formação do ser humano. O barro carrega água e terra, movimento e matéria, princípio e retorno. Dessa união nasce o corpo que permite ao espírito realizar sua caminhada. Por isso, Nanã está simbolicamente relacionada tanto à origem quanto ao encerramento dos ciclos, recordando-nos de que a vida não é uma linha reta, mas um movimento contínuo de criação, transformação e renovação.
Seus mistérios apresentam profunda proximidade com Pai Obaluaê e, em algumas tradições umbandistas, com o chamado povo da água. São forças ligadas à passagem do tempo, à cura, à ancestralidade e às transformações inevitáveis da existência. Nanã não representa o fim como ausência, mas como transmutação: aquilo que conclui sua forma para que outra realidade possa começar.
Mesmo na atualidade, ainda percebemos, em algumas tradições, uma presença menos destacada de seu culto e uma menor identificação de filhos de Nanã. Isso, contudo, não diminui sua função primordial dentro da Umbanda. Talvez revele o quanto nossa sociedade ainda encontra dificuldades para reconhecer o valor da velhice, do silêncio, da espera e da experiência acumulada.
Cultuar Nanã é reverenciar os mais velhos, honrar a ancestralidade e compreender que envelhecer não significa perder potência, mas transformar força em sabedoria. Diante de Nanã, aprendemos a respeitar o tempo das coisas. Nem toda água precisa correr. Algumas águas permanecem quietas porque guardam, em sua profundidade, os mistérios da própria vida.
Saluba Nanã!

Filipi Brasil
Filipi Brasil é médium, escritor e estudioso da seara umbandista há mais de 25 anos. Sacerdote do Templo Espiritualista Aruanda, Filipi é também psicólogo, Mestre em Psicologia, especialista em Psicologia Transpessoal, além de ter MBA em Gestão pela Qualidade Total, em Educação Corporativa, e em Gestão de RH. Terapeuta Holístico, Filipi também tem formação em Coach, é consultor de RH e de Desenvolvimento Humano. Autor dos Livros Sob o Céu de Aruanda, Zé do Laço e Mariazinha, Filipi é também co-autor do livro As Cartas Ciganas e os Orixás.
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Artigo de Opinião: texto em que o(a) autor(a) apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretações de fatos, dados e vivências. ** Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do AxéNews. |

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