Bispos e prefeitos: a dupla face de uma mesma moeda
- WR Express

- 6 de jan.
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Por: Joana Bahia

✅ 06/01/202 | 07:41
Mas quem tem o privilégio de ir à praia no Rio de Janeiro cultuar seus deuses? E usando dinheiro público? Todas as religiões devem celebrar seus ritos, desde que todas tenham os mesmos acessos. Todas teriam os mesmos acessos? O ano novo tem que ser só gospel? Por que há muitas décadas há problemas de financiamento aos eventos afro na cidade do Rio de Janeiro, em detrimento de maior investimento em eventos gospel?
E será esse gospel algo cultural, ou disfarçado de cultural para melhor converter, isto é, se convertendo em religioso? A religião é mais eficaz quando não parece religião. Mas será que este gospel tem alguma coisa a ver com a expressão espiritual e cultural negra norte-americana, transgressão litúrgica, estética de uma espiritualidade antirracista, ou virou uma apropriação de senhores brancos num balcão de trocas políticas? Sinceramente de que gospel estamos falando?
O financiamento de palcos gospel com recursos públicos, quando não está vinculado a políticas efetivas de engajamento social e ocorre em detrimento de outros grupos religiosos (como as comunidades afro-religiosas, que há décadas reivindicam acesso equitativo aos eventos públicos) evidencia uma assimetria no uso do orçamento estatal. Esse tipo de prática tensiona o princípio da laicidade, ao favorecer determinadas expressões religiosas em prejuízo de outras, reforçando dinâmicas pouco inclusivas no espaço público.
A ocupação do espaço público pelos afros religiosos sempre foi regulada no Brasil, pois é religião minoritária. Somando católicos e evangélicos temos uma maioria cristã que se mantem unida graças a expansão midiática, social e política. A questão não é numérica apenas, mas são as atuações e influências desses segmentos na sociedade brasileira. Isso define eleições, pautas políticas, votos e como atuam publicamente defendendo interesses, corroborando para manutenção de pontos de vista cristãos na arena pública. Quantas vezes não se sabe que a empresa pública que faz recolha de lixo no Rio de Janeiro é cristã? E quantas vezes sabemos que não gostam de recolher lixo de terreiro? Quantas vezes não chamam oferenda de lixo? Quantas vezes polícias invadem terreiro? Mesmo nos dias de hoje? Quantos grupos e segmentos policiais não trazem igrejas para dentro de quartéis, e quantos não trazem a ideia de guerra cristã para dentro de uma prática policial que deveria ser isenta de valores e pré-julgamentos? Veja a quantas andam as polícias nos estados do Rio de janeiro e em São Paulo.
A extensão da presença cristã, se dá também no controle fundiário de uma cidade como o Rio de Janeiro, a quem pagamos impostos quando compramos imóveis? Lembrem do papel das instituições religiosas na produção da cidade, igrejas, ermidas e na oferta dos serviços. A importância da ordem beneditina para pensar a constituição do embrião urbano carioca e das grandes datas apropriadas pelos frades, assim como sua partilha e distribuição, como nos aponta Fania Fridman em seu recente livro sobre a história fundiária carioca. Essa história deveria continuar a ser feita, pois certamente veriam como as religiões disputam territórios. Novamente insisto: a quem de fato pagamos impostos? Ao prefeito, aos bispos, ou tudo se fundiu, virou uma coisa só? E para quem os impostos retornam?
De que modo para crescer católicos investiram desde os anos 20 na composição de instituições leigas, jurídicas, na formação de quadros de intelectuais católicos, ocupando imprensas laicas, e criando imprensas religiosas. A separação igreja e estado foi toda entre aspas. No crescimento dos segmentos evangélicos a partir dos anos 40, isso ganha forma nesse outro segmento, em que não apenas forma a sua imprensa, mas amplia na ocupação das mídias. Nos anos 80, nas eleições do governo Collor temos claro o balcão de trocas entre púlpito e voto, e desde então tem sido assim. Se antes as influências católicas manejavam o jogo, o jogo mudou bastante, e agora temos as alianças conservadoras entre os cristãos, unindo católicos e evangélicos. Temos bancadas religiosas no congresso nacional. De que seria feito Collor sem apoio das igrejas evangélicas? Se antes os católicos tinham protagonismo mais solitário no jogo político, a partir dos anos 40 com crescimentos de novos segmentos cristãos como no campo evangélico, esse o jogo de xadrez muda.
Mesmo a máxima Constituição que afirma que o estado é laico, peço que leiam de verdade, vemos que a sua escrita é ambígua, e abre margens para o entre aspas: somos laicos entre aspas. Aonde num estado laico, se entra numa repartição pública que não se tenha um crucifixo ou uma Bíblia? No Brasil, os consultórios médicos, o judiciário, em qualquer lugar público têm crucifixos e bíblias, como se a nossa origem cristã definida desde a história imperial definisse a nação até hoje. Somos cristãos por que assim os portugueses nos fizeram? Até quando isso tem que ser repetido? A ideia de que ser brasileiros, é ser “naturalmente cristão” está em todos os lugares. Por que um fio de conta da paciente Tainá Santos da Paz, pertencente ao candomblé, é jogado no lixo pelo staff hospitalar do hospital Universitário Gaffrée e Guinle, vinculado à UniRio, em abril de 2025, e o crucifixos nos hospitais cariocas continuam sendo mantidos? Por que obreiros da universal entram nos cemitérios na cidade do Rio de Janeiro fazendo proselitismo com a dor alheia, e os afros não podem cantar seus mortos? Não venha celebrar a diversidade para se candidatar a prefeito, quando na prática política do dia a dia a intolerância religiosa é o que vigora na cidade, pois sustenta as bases religiosas e conservadoras que o ajudaram a eleger.
É necessário reparar esse entre aspas e reivindicar lugar no espaço público. Há uma ilusão que a religião traz alento, sendo religiosa não parece ser um lugar de falar em dinheiro, competição e conflito. Esse modo ingênuo de olhar o fenômeno religioso precisa ser reformulado. As práticas religiosas acompanham a vida moderna. A religião está em tudo, parece se esconder em coisas laicas como a política e a economia, algo laico, aparentemente laico e não religioso, ou inofensivo, mas na realidade é feita de atos políticos, sendo essa a sua maior força. Esse jogo de esconde esconde é força, e não fraqueza.
Saskia Sassen mostra que a religião ainda é o elemento divisor, causador de conflitos e de número em refugiados em todo mundo. No Brasil, não é diferente. A religião também divide, gera intolerâncias de toda ordem, só que a frente da máquina pública, graças ao voto ou a sua omissão. Como muitos cidadãos cariocas se eximem de votar, por que a política os cansa, ou por que votam no que o vizinho indicou, sem saber direito em quem? Ou acham que votar num Crivella não vai atingir ao terreiro em que faz parte?
Mas será que no fim do ano todos vão à praia ou as ruas cultuarem seus deuses? Todos têm direito ao ano novo, mas nem todos tem o mesmo acesso ao espaço público. O espaço na praia pelos afros religiosos sempre foi ocupado ao longo de décadas na base das violentas ações dos católicos, que perdurou mesmo após o concílio Vaticano, e da crítica a imprensa carioca fortemente cristã e o uso da máquina cristã nos jornais leigos e religiosos. Basta estudar a história das imprensas para ver isso. A partir dos anos 40 como novos atores religiosos, outras regulações contra os afros começar a serem articuladas. A ocupação pública da cidade, em especial, em especial das praias, rios, cachoeiras e vários espaços urbanos constituem parte da variedade de presença de escravizados de diferentes nações africanas. O Rio de Janeiro é afro, é bantu, e é diverso, sem Iemanjá não teríamos a presença maciça de flores e velas desde os anos 40, resultado acumulado de décadas de ritos praticados por esta população desde quando aqui chegaram seja direto de África, seja da Bahia, seja dos interiores do país. Infelizmente a moeda política com suas trocas cristãs é manejada a cada candidatura, não sendo diferente quanto ao atual prefeito. Bispos se imiscuíam os poderes públicos para vetar as flores de Iemanjá como aconteceu na virada do ano de 1954 / 1955.
Bispo Dom Jaime de Barros Câmara_ arcebispo da cidade do Rio de Janeiro de 1943 a 1971_ estava irritado com o crescimento de oferendas e a presença pública dos afros religiosos nos anos de 1950. Em especial, incomodado com a festa de transe coletivo, nas ruas da cidade, mais precisamente no deslocamento maciço entre saídas das igrejas para depositarem flores à Iemanjá na travessia das barcas entre Rio e Niterói e na totalidade das praias cariocas, compreendendo também áreas nobres, como Copacabana, Leme, Leblon. Mais o ódio do bispo não só direcionado a popularidade de Iemanjá, mas a crescente presença de a Ogum nas festas de São Jorge e aos milhares de católicos, umbandistas que comparecem à igreja de São Gonçalo e Garcia na Praça da República.
Para destilar seu descontentamento usou a rádio e na imprensa carioca leiga. Para acabar com a festa popular, inventou uma missa campal na área do aterro, buscando interferir nos horários e “higienizar” com seu discurso racial os sincretismos que tanto que causaram descontentamento, em especial na impossibilidade de se distinguir práticas religiosas, grupos e classes sociais na devoção à deusa yorubana. Era muito difícil para o bispo ver uma loura rica virando no santo em Copacabana, e para a imprensa carioca também, que se remetia a essa devoção popular como coisa de “preto e pobre”, mas na prática não foi bem assim.
O golpe do Bispo foi a mudança da missa católica realizada sempre às tardes, para a meia-noite na virada do dia 31 de dezembro de 1954 para 1 de janeiro de 1955 com uma procissão de 300 barcos vindos de Niterói, que chegariam no aterro da esplanada do Castelo para realização da missa. Na imprensa umbandista é notório a zombaria misturada a alegria do pedido de proteção feito a Iemanjá contra o golpe do bispo. A deusa trouxe tanta chuva, que impossibilitou a realização do evento, sendo o mesmo transferido pelo cardeal para 20 de janeiro. Na virada do ano para 1955, temos novamente as praias lotadas de gentes em transe, com flores, bonecas, espelhos e todos os tipos de oferendas a Iemanjá.
O que pode mudar? O voto, a representação política, a formulação de políticas públicas?
Mas lembre-se caro leitor que cada voto lançado numa candidatura cristã conservadora e não representativa dos interesses dos afros religiosos significa um terreiro a menos.

Joana Bahia
Professora titular da UERJ. Coordenadora do Nuer (Núcleo de estudos da religião). Autora do livro O Rio de Iemanjá: um olhar sobre a cidade e a devoção, publicado pela editora telha em 2023 e vários artigos sobre religiões afro brasileiras, em especial Omoloco, umbanda, candomblés, Iemanjá e expansão das religiões afro brasileiras no mundo... [+ informações de Joana Bahia]
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