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A voz da Senzala: a profunda influência da Matriz Africana no português brasileiro

  • há 24 horas
  • 4 min de leitura

Por: Lelo Oliver

✅ 24/02/2026 | 17:00


A formação do Português Brasileiro é inseparável da história da escravidão e da presença africana no país. Qualquer tentativa de compreender o idioma falado no Brasil sem considerar esse passado resulta em apagamento histórico e distorção da realidade. Em oposição à narrativa hegemônica que reduz a contribuição africana a um simples conjunto de palavras isoladas, a influência das línguas africanas atravessa o léxico, alcança a fonética e toca, inclusive, a estrutura gramatical do idioma. A voz da senzala, silenciada pela violência da colonização, permanece viva no cotidiano linguístico brasileiro, especialmente por meio do Quimbundo, do tronco Banto, e do Iorubá, do tronco Níger-Congo, línguas que exerceram impacto profundo e duradouro.



A chegada de milhões de africanos escravizados, falantes de diferentes línguas, criou no território brasileiro um ambiente intenso de contato linguístico. Para possibilitar a comunicação entre si e com os colonizadores, surgiram línguas de contato e, em determinados contextos, línguas crioulas. Um exemplo significativo é a Língua Geral de Mina, uma língua de base africana que se desenvolveu em território brasileiro e funcionou como meio de comunicação entre distintos grupos de africanos escravizados, sobretudo na região de Minas Gerais. A existência de uma língua estruturada a partir de matrizes africanas no Brasil reforça a ideia de que o ambiente linguístico do país foi profundamente africanizado desde os primeiros séculos de colonização.


Embora termos como “cafuné”, “dengo” e “moleque” sejam amplamente reconhecidos como africanismos, a real dimensão da contribuição lexical africana é muito mais ampla e atravessa diversos campos semânticos que, ao longo do tempo, foram alvo de apagamento e estigmatização. Palavras como bambambã, de origem quimbundo, usada para designar uma pessoa importante ou influente, revelam a presença africana na organização social. Curinga, também oriunda do quimbundo, transita entre os jogos e o cotidiano social, nomeando tanto uma carta de valor variável quanto alguém que serve para múltiplas funções. No campo religioso e cultural, macumba, axé e ebó expressam dimensões fundamentais da espiritualidade afro-brasileira, ainda que muitas vezes tenham sido reduzidas a sentidos pejorativos pelo olhar colonial.


Na culinária, termos como quibebe e mungunzá nomeiam pratos que atravessaram gerações e permanecem vivos na mesa brasileira. Quilombo, palavra de origem quimbundo que designa um povoado formado por escravizados fugidos, talvez seja um dos exemplos mais potentes de como a língua africana nomeou a própria resistência negra à opressão.


A influência africana torna-se ainda mais evidente quando se observa a fonética e a gramática do Português Brasileiro. Diversos estudos apontam que a estrutura silábica predominante nas línguas Banto e no Iorubá, geralmente organizada no padrão consoante-vogal, pode ter influenciado a tendência do PB à simplificação fonética, como a omissão de consoantes finais na fala cotidiana. Esse fenômeno, muitas vezes tratado de forma preconceituosa como “erro” ou “desvio”, revela, na verdade, um processo histórico de formação linguística marcado pelo contato entre diferentes sistemas sonoros.


No campo gramatical, alguns linguistas defendem a hipótese de que a menor rigidez na concordância nominal e verbal, especialmente nas variedades populares do Português Brasileiro, guarda relação com estruturas presentes em línguas africanas, nas quais a concordância não se manifesta da mesma forma que nas línguas românicas.


Expressões como “as menina bonita” ou o uso recorrente de “a gente” com valor coletivo não representam empobrecimento linguístico, mas sim marcas de um idioma moldado por múltiplas matrizes culturais e linguísticas. Embora esse debate ainda esteja em aberto, ele aponta para a compreensão do PB não como uma simples variação imperfeita do Português Europeu, mas como um idioma que se desenvolveu a partir de processos próprios, atravessados pela experiência africana.


Reconhecer a matriz africana como elemento central na constituição do Português Brasileiro é afirmar uma herança histórica que foi sistematicamente negada. Do vocabulário da religião e da culinária à forma como se organizam os sons e as estruturas da fala, a presença africana é fundante. Ao trazer essa influência à tona, desmonta-se o projeto de branqueamento linguístico que insiste em tratar o PB como uma língua europeia deslocada nos trópicos.


A voz da senzala, ao se misturar com a voz da metrópole, deu origem a um idioma único, vivo e resistente. Nos próximos passos dessa reflexão, será fundamental olhar também para a outra grande matriz formadora do português falado no Brasil: as línguas indígenas, a língua da terra, que nomeou a fauna, a flora e a própria geografia do país.


Referências bibliográficas

AVELAR, Juanito. O papel das línguas africanas na emergência da gramática do português brasileiro. Estudos Linguísticos, 2014.

BRASIL ESCOLA. Palavras africanas: quais são, influência no Brasil. Disponível em: Brasil Escola.

MENDONÇA, Renato. A influência africana no português do Brasil. Brasília: FUNAG, 2012.

MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA. Língua Geral de Mina: uma das faces linguísticas da história africana no Brasil. São Paulo, 2024.

OLIVEIRA, Tainá T. S. Africanismos no português brasileiro. Rio de Janeiro: Pantheon / UFRJ, 2021.

PETTER, Margarida Maria Taddoni. Línguas africanas no Brasil. São Paulo: Contexto, 2008.

YAI, Olabiyi Babalola. A tradição oral africana e suas transformações no Brasil. Estudos Afro-Asiáticos, 2001.




Lelo Oliver - AxéNews

Lelo Oliver

Produtor Editorial, Design Gráfico, Capista e Diagramador. CEO da Onirá Editora e do selo Novos Griôts. Com Vários Livros e Revistas produzidos e Lançados dentro e fora do Brasil. Revista Escrita Sete (Portugal, Frankfurt e em breve Estados Unidos). Foi indicado com dois livros no Aclamado Prêmio Jabuti. Foi indicado com um livro na academia Brasileira de Letras.   [+ informações de Lelo Oliver]



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Artigo de Opinião: texto em que o(a) autor(a) apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretações de fatos, dados e vivências. ** Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do AxéNews.


 
 
 

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