A solidão da mulher preta e o ensinamento deixado por Oxum
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Por: Cibele Martins

✅ 27/8/2026 | 11:11
A solidão da mulher preta não é só sobre a falta de companhia.
É uma solidão repleta de camadas que atravessam gerações.
É como carregar o mundo nas costas e receber o título da "mulher preta guerreira e forte, que dá conta de tudo" mas um título que apenas traduz este peso .
Por cuidar de todo mundo, muitas vezes, essa mesma mulher não tem quem cuide dela. Até mesmo a validação dos seus bem feitos é apontada pela estatística a validação que chega por último.
Faz parte dessa solidão; estar rodeada de pessoas e ainda se sentir só, por que poucos entendem as esferas de sua luta e trajetória.
É o corpo desejado mas não o amado. A voz que precisa gritar três vezes mais alto para ser ouvida e ainda assim; ser intitulada de "mulher raivosa" mesmo em seus pedidos por socorro.
Essa solidão é exaustiva. Mas a ancestralidade nos deixou alguns caminhos para atravessar e romper este paradigma .
Conta um itan que Oxum, a Yabá das águas doces, do amor e da beleza, também conheceu a solidão.
Ela vivia no palácio, cercada de luxo, ouro e riqueza, mas se sentia sozinha. As pessoas viam só sua a beleza externa, ninguém via a profundeza de sua alma.
Até que um dia Oxum foi para o rio. Se banhou. Olhou seu reflexo nas águas e se enfeitou para si mesma.
Ali ela entendeu que antes de ser amada pelo mundo, era preciso se amar em primeiro lugar.
Desse encontro; dela com ela mesma nasceu uma forma de autocuidado.
Oxum não esperou que a tirassem da solidão. Ela se escolheu. Se cuidou. Se adornou e se reciclou intimamente.
E quando se preencheu por dentro, o mundo respondeu aos seus comandos. O amor e a companhia vieram por si.
Isso nos diz que a solidão da mulher preta é dolorosa mas não precisa ser uma morada.
Oxum nos lembra três coisas.
Reserve tempo para se perceber, se cuidar, se ouvir.
Se ame primeiro; amor próprio não é sobre ego ou vaidade.
É autopreservação.
É a base do cuidado.
Organize sua rede de apoio feminino. Nós mulheres não nascemos para caminhar sozinhas pois tudo provêm do feminino. Que tenhamos o terreiro como núcleo de fortalecimento. tenhamos as rodas para compartilhar esses saberes e ensinamentos, existe uma irmandade natural para nos apoiar e nos acolher quando nos damos as mãos.
A solidão ensina , mas as águas de Oxum oferecem uma espécie de cura.
E quando uma de nós se levanta e se aproria desse poder, ela abre caminho para que todas as outras também se encontrem através deste olhar.
Nenhuma de nós está sozinha e quando você se olha; percebe que há saberes e riquezas dentro de você capazes de mover toda a estrutura ao seu redor.

Cibele Martins
Iniciei minha jornada no culto tradicional de candomblé para Oyá, pela nação do Efon, em 2014. Filha do respeitado líder religioso Babalorixa Sr. Michel de Odé e pertencente à hierarquia do Asé Egbe Efon Odé Bilori, localizado no distrito de Terra Preta – Mairiporã/SP. Asé reconhecido e interligado diretamente ao tradicional Ilé Ògún Anaweji Ìgbele Ni Oman, também conhecido como Àse Pantanal, localizado em Duque de Caxias-RJ, sob a diligência religiosa da sacerdotiza Sra. Iya Maria de Xango, a Matriarca da Nação de Efon. [+ informações de Cibele Martins]
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Artigo de Opinião: texto em que o(a) autor(a) apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretações de fatos, dados e vivências. ** Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do AxéNews. |

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