A primeira Parada do Orgulho Macumbeiro em São Paulo Paulo: E por que esse acontecimento importa para a democracia brasileira?
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Por: Iya Agnes Oyasomi e Nanda Omiakesi

✅ 25/8/2026 | 15:33
Este artigo busca apresentar a criação da 1ª Parada do Orgulho Macumbeiro, contextualizando-a como uma manifestação política e cultural dos povos de terreiro e discutindo sua importância para o debate sobre liberdade religiosa, direito à cidade e combate ao racismo religioso. Mais do que relatar um evento, pretende contribuir para a construção de memória sobre uma iniciativa inédita e estimular o debate público.
No dia 13 de setembro de 2025, Mãe Su idealizou e coordenou a construção do Colo Ancestral e do primeiro encontro de Iyás na Câmara de São Paulo. Mais do que uma roda de conversa, foi um espaço de acolhimento, fortalecimento e construção coletiva voltado às Iyás — Mães de Santo, líderes de terreiro e mulheres de axé — reconhecendo que elas sustentam não apenas suas comunidades religiosas, mas também redes de cuidado, memória e resistência.
Ao promover reflexões sobre autoestima, autocuidado, o papel da mulher de axé na sociedade, as trocas afetivas e espirituais e a valorização da cultura de matriz africana, o encontro reafirma a importância de criar espaços onde essas mulheres possam compartilhar suas experiências, fortalecer vínculos e serem reconhecidas como protagonistas de suas próprias histórias. Em um contexto de enfrentamento ao racismo religioso e às desigualdades de gênero, iniciativas como esta representam um compromisso com o cuidado coletivo, a ancestralidade e a valorização das mulheres que mantêm vivo o axé e a cultura afro-brasileira, mas também colocam no centro do debate o problema do feminicídio.
O feminicídio de mulheres negras é uma realidade, e as estratégias de combate precisam ocupar também os terreiros, que historicamente constituem espaços de acolhimento, proteção comunitária e fortalecimento das mulheres. Os dados mais recentes mostram que essa violência possui um profundo recorte racial: em 2024, o Brasil registrou 1.492 vítimas de feminicídio, o maior número desde a tipificação desse crime, e 63,6% das vítimas eram mulheres negras, embora elas representem cerca de 55% da população feminina do país. Além disso, 8 em cada 10 feminicídios foram cometidos por companheiros ou ex-companheiros, e a maioria ocorreu dentro da própria residência, revelando que o espaço que deveria ser de proteção frequentemente se torna o local da violência extrema.
Diante dessa realidade, os terreiros não podem ser compreendidos apenas como espaços de prática religiosa, mas também como territórios de cuidado, escuta e construção de redes de solidariedade. Debater o feminicídio entre as mulheres negras significa reconhecer que o racismo estrutural, o sexismo e as desigualdades sociais produzem maior vulnerabilidade para essas mulheres e dificultam seu acesso às políticas de proteção. Promover esse diálogo é reafirmar uma tradição ancestral de defesa da vida, fortalecendo a autoestima, a autonomia e o apoio coletivo para que nenhuma mulher enfrente a violência sozinha. Cuidar das mulheres negras é também preservar a memória, a ancestralidade e o próprio axé das comunidades.
É fundamental compreender que os povos de terreiro não podem ser reduzidos à condição de simples grupos religiosos. Trata-se de povos e comunidades tradicionais, portadores de formas próprias de organização social, sistemas de conhecimento, práticas culturais, modos de cuidado, vestimentas, culinárias, linguagens, musicalidades, calendários rituais e relações específicas com seus territórios e ancestrais. Essa compreensão encontra respaldo em importantes instrumentos jurídicos nacionais e internacionais. A Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), incorporada ao ordenamento jurídico brasileiro, reconhece que povos tradicionais possuem o direito de preservar suas instituições, valores, costumes e formas próprias de organização, além de serem consultados sobre medidas que os afetem diretamente. O eixo central da Convenção é justamente o reconhecimento da diversidade cultural e a superação de políticas de assimilação forçada.
No Brasil, esse entendimento foi fortalecido pelo Decreto nº 6.040/2007, que define os povos e comunidades tradicionais como grupos culturalmente diferenciados que se reconhecem como tais e que utilizam territórios e conhecimentos tradicionais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica. Em 2024, o Estado brasileiro deu um passo ainda mais significativo com o Decreto nº 12.278/2024, que instituiu a Política Nacional para Povos e Comunidades Tradicionais de Terreiro e de Matriz Africana, reconhecendo oficialmente suas especificidades e a necessidade de políticas públicas voltadas à proteção de seus direitos, de seus territórios, de sua memória e de seu patrimônio cultural.
Nesse contexto, o debate sobre o feminicídio, o racismo religioso e outras formas de violência ultrapassa a esfera da liberdade de culto. Quando uma Iyá é assassinada, quando um terreiro é atacado ou quando uma comunidade tradicional sofre discriminação, não está em risco apenas uma prática religiosa, mas um patrimônio coletivo de saberes ancestrais, formas de organização comunitária e modos de vida transmitidos entre gerações. Por isso, reconhecer os povos de terreiro como povos tradicionais significa reconhecer seu direito à existência, à autodeterminação, à preservação de sua cultura e à construção de políticas públicas que garantam sua proteção integral.
A violência contra mulheres negras de terreiro não pode ser compreendida apenas como uma sucessão de casos isolados, mas como parte de um contexto mais amplo de racismo estrutural, violência política e racismo religioso que atinge lideranças comunitárias e defensoras de direitos humanos. Quando essas mulheres são atacadas, o alvo não é apenas uma pessoa, mas também a memória, a ancestralidade e as formas coletivas de organização que elas representam. A ialorixá e líder quilombola Mãe Bernadete (Maria Bernadete Pacífico)2, coordenadora nacional da CONAQ, foi assassinada a tiros em agosto de 2023 dentro do terreiro que dirigia, em Simões Filho (BA), mesmo estando inserida em um programa de proteção a defensoras e defensores de direitos humanos após anos de ameaças e da luta por justiça pelo assassinato de seu filho, Binho do Quilombo.
Esse caso dialoga com uma trajetória de violência contra mulheres negras que ocupam posições de liderança política e comunitária. A vereadora Marielle Franco, mulher negra, oriunda da favela, defensora dos direitos humanos e praticante das tradições de matriz africana, foi assassinada em 14 de março de 2018 em um crime que se tornou um dos maiores símbolos da violência política no Brasil contemporâneo. As investigações e condenações posteriores apontaram a execução do crime e a existência de mandantes ligados a interesses políticos e criminosos.
A própria Mãe Bernadete estabelece essa conexão ao afirmar, poucas semanas antes de sua morte, que a execução de seu filho havia ocorrido "no mesmo período em que aconteceu a morte de Marielle"3, lembrando sua participação em encontros com a mãe da vereadora e denunciando que o que recebem as lideranças negras e quilombolas são "ameaças". Essa aproximação evidencia que a proteção das mulheres negras de terreiro deve ser compreendida como uma agenda de direitos humanos, de enfrentamento ao racismo religioso e de garantia da democracia. Defender a vida dessas lideranças significa proteger patrimônios vivos de conhecimento ancestral, redes comunitárias de cuidado e modos de vida que constituem parte fundamental da história e da diversidade cultural brasileira.
A organização Criola tem desenvolvido o conceito de justeza como uma perspectiva ética, política e antirracista que desafia os limites da justiça formal e das respostas institucionais tradicionais ao racismo e às diversas formas de violência. Em suas formações sobre o enfrentamento ao racismo religioso, a entidade propõe que a garantia de direitos exige mais do que a aplicação da lei: requer o reconhecimento das desigualdades históricas, a valorização dos saberes das comunidades negras e tradicionais, a reparação das violências sofridas e a construção de práticas de cuidado, dignidade e transformação social. A justeza, nesse sentido, representa um compromisso com a produção de condições concretas para que essas populações possam existir e viver plenamente, com respeito às suas identidades, culturas e modos de vida. (CRIOLA, 2024)4.
A partir dessa formulação, é possível pensar uma justeza de Nanã como uma elaboração ética ancorada na ancestralidade e no cuidado coletivo. As ações de Mãe Su de Nanã ultrapassam a dimensão estritamente religiosa e podem ser compreendidas como práticas de proteção, fortalecimento comunitário e produção de memória. Nanã, orixá associada ao tempo, à ancestralidade e ao barro primordial que simboliza a origem e o retorno da vida, ensina que a verdadeira transformação não se realiza pela lógica da punição ou da vingança, mas pela reconstrução dos vínculos sociais, pela preservação da memória coletiva e pela responsabilidade com aqueles que historicamente tiveram seus direitos negados. Sua pedagogia é a da permanência, da escuta e da continuidade da vida.
Sob essa perspectiva, iniciativas como a Parada do Orgulho Macumbeiro, os Colo Ancestral, Samba do Seu Zé e a incorporação do debate sobre o feminicídio de mulheres negras podem ser compreendidas como expressões concretas dessa justeza. Elas produzem espaços de acolhimento, reconhecimento e fortalecimento político para mulheres e povos de terreiro, reafirmando que a reparação histórica não depende exclusivamente das instituições estatais, mas também da valorização dos conhecimentos ancestrais, da construção de redes comunitárias de cuidado e da ocupação legítima do espaço público por aqueles que foram historicamente invisibilizados. A justeza de Nanã, assim, pode ser entendida como uma ética da ancestralidade que transforma memória em ação política, cuidado em resistência e comunidade em horizonte de justiça.
Mãe Su, no ato diz:
“Eu sofri violência doméstica por 10 anos, por 10 anos, hoje eu dou
palestra pra mulher que está passando pela mesma situação ou passaram
como superação. Criei meus 7 filhos. Primeiro nosso criador e depois nossos
orixás. Hoje eu falo muito do seu Zé Pilintra e da Maria Padilha que foi eles que me guiaram, hoje se eu estou aqui viva, sentada na frente de vocês. É
por que eu tive e tenho um protetor, um guardião que guarda meu nome...E
quando a gente fala sobre isso de violência doméstica. Que as pessoas
falam assim, a mais porque ela não deixa ele, porque que ela não vai
embora, ela gosta de apanhar. É gente só quem já passou por tudo isso, é
que sabe como é difícil principalmente quando você está longe da sua
família, longe do seu povo, da sua terra. Porque quando você vai fazer
boletim de ocorrência, eles perguntam pra você: “o que você fez?”, “Você
estava com essa roupa?” e ainda não fazem o boletim de ocorrência. A gente
tem que voltar de cabisbaixo e quando você olha pra trás tem quatro filhos
pra você criar. E você tem que ser forte, nós tiramos força de onde nós
imaginamos que tem, por conta dos nossos filhos.” O que demonstra que há
uma ineficiência do sistema de justiça e da rede de proteção integral para
conseguir proteger e cuidar das mulheres.”
Contudo, a 1ª Parada do Orgulho Macumbeiro foi idealizada pela Mãe Su de Nanã para levar todas essas questões à política de São Paulo, fazendo com que esse debate ecoasse nas ruas e alcançasse cada Ori presente. A iniciativa mobilizou diversas Ialorixás, sacerdotisas e lideranças religiosas e contou com a participação de diversos terreiros, casas religiosas, coletivos e instituições, entre eles o Movimento Nossa Cara Preta, Ilê Axé Alaketu Oyá Oni Lewá, Observatório de Violência Contra as Mulheres CAAF/UNIFESP, Espaço Espiritualista Pai Antônio das Almas, Casa Espiritual Zé Curisco, Yabás – Saber e Cura, TUJMO Osasco, Casa de Caridade Cacique Pena Branca e Vovó Catarina do Congo, Casa de Catimbó Jurema Sagrada Zé Pelintra e Maria Luziara, Instituto de Estudos Espiritualistas, Cantinho de Orações Caminhos de Aruanda, Templo Iansã Guerreira, Caboclo Lírio Verde e Vovó Maria Conga, além de diversos grupos de curimba e coletivos culturais. Essas articulações demonstram a urgência de ações públicas que valorizem e protejam os povos de matrizes africanas. Aqui, queremos ressaltar o Tambor de Mina, em reverência à tradição da Mãe Su de Nanã, nas palavras da Mãe Elen de Iansã:
[...] Falar do tambor de mina é uma alegria imensa para mim.
Fazer valer minha doutrina raiz é de uma grandeza incondicional.
Tambor de mina, eu costumo dizer que é a irmã da Umbanda e do
Candomblé. Muita gente confunde e me pergunta: "Mas o que é
tambor de mina?" Aí eu respondo, é uma religião afro-brasileira que
nasceu no Maranhão, principalmente em São Luís, mas tem um
fundamento próprio. E um dos terreiros mais antigos é a Casa das
Minas, fundada por mães d'água da África. E a base do tambor de
mina são três nações: a nação de mina, que são voduns, os nossos
orixás; a nação de caboclos, que são encantados, caboclos,
boiadeiros, muito forte no Maranhão e no Piauí; e a nação de terecô,
que é do interior do Maranhão, uma mistura forte com indígenas. Eu
costumo dizer que terecô é a alma do interior. E ainda pergunto, mas
o que é o Terecô? E eu falo, Terecô é a nação mais antiga e mais
brasileira do tambor de mina. Nasceu no interior do Maranhão, em
Codó. Terecô quer dizer terreiro mais eco. É o terreiro que ecoa, que
responde. E é a mistura mais pura de três povos. Índio, que são
caboclos encantados da mata, que trabalham com ervas,
benzimentos. Negros, que são os vodús da mina, trabalham com o
tambor, com a ancestralidade. E branco, que trabalha com o
catolicismo popular, santos católicos, sincretizados, rezes, ladainha.
E aí eu falo assim, falar de Terecô é a mina sem iorubá, é a mina da
mata. Se a mina de São Luís é um palácio, Terecô é a roça, a mata,
o fundo do quintal, que eu costumo falar. E no Terecô, os mais fortes
são caboclos encantados da mata, que são a família de Légua, Rei
Sebastião, Matinha, mestres e mestras, que são espíritos de velhos
curadores, benzedeiros, mestre Bita, mestre Umbelina, e trabalham
com as ervas, né? No Terecô a erva é lei. Benzimento, garrafada,
banho, defumação. Sem erva não tem Terecô. E os filhos que
trabalham com essa linha do Terecô têm mãos de cura, né? Têm um
dom para erva e benzimento. Tanto eles são fortes, sonham as
coisas antes, são videntes natos. E trabalham muito com sigilo.
Terecô não abre o jogo para qualquer um, é um fundamento, se
guarda. A lealdade à terra, ama sua terra, sua gente, não esquece
de onde veio. O tambor de Terecô é mais grave, mais oco, toca
diferente da mina. A festa mais popular é a maior festa de São João.
Terecô e São João são a mesma coisa. Comida é tudo da roça,
canjica, pamonha, munguzá, galinha caipira e a defumação. Terecô
vive de defumação, alecrim, arruda, guiné, isso que limpa pára a
gente. Então, Terecô é a religião de quem cura com a mão e resolve
com o pé na terra. Não tem firula, tem fundamento. Em resumo, na
mina, os encantados e caboclos têm o mesmo peso que os voduns,
os orixás. É uma casa de rei e rainha, muito ligada à realeza
africana. A ideia de filho de orixá existe, mas no Terecô, na mina, a
gente fala que são filhos de encantado. O toque da mina são danças
rodadas com a mão na cintura, postura de nobreza. A mina não é
porque é de Minas Gerais, é mina da Omé, região da África. O
tambor de mina é uma raiz fortíssima de cura e encantamento. Por
isso tem tanto caboclo e tanto trabalho com ervas. [...]5
A escolha do Theatro Municipal de São Paulo como ponto de concentração da 1ª Parada do Orgulho Macumbeiro possui um profundo significado histórico e político e não pode ser compreendida como uma decisão meramente logística. Inaugurado em 1911, o Theatro Municipal consolidou-se como um dos maiores símbolos do projeto de modernização e europeização da cidade, idealizado pelas elites paulistas para inserir São Paulo no circuito cultural das grandes capitais europeias. Inspirado na arquitetura e nos modelos artísticos franceses e italianos, o equipamento foi concebido como espaço privilegiado da chamada alta cultura, frequentado historicamente pelos setores mais abastados da sociedade, enquanto a população negra, recém-saída da escravidão, permanecia excluída do acesso pleno aos direitos de cidadania, da educação e dos próprios equipamentos culturais. Embora a riqueza que permitiu sua construção tenha sido produzida por uma sociedade estruturada sobre séculos de trabalho escravizado e pela força de trabalho das classes populares, as expressões culturais negras e de matriz africana permaneceram por muito tempo invisibilizadas ou marginalizadas nesses espaços. (THEATRO MUNICIPAL DE SÃO PAULO; Abolição da Escravidão no Brasil).
Sob essa perspectiva, a concentração da Parada diante do Theatro Municipal representa uma potente reivindicação do direito à cidade e do direito à produção da memória coletiva. Os povos de terreiro não ocupam aquele espaço como visitantes ocasionais, mas como sujeitos que participaram da construção material e simbólica de São Paulo e que historicamente tiveram seus saberes, suas estéticas e suas espiritualidades relegados às margens da vida pública. Ao iniciar seu percurso nesse local, a Parada afirma que os equipamentos culturais pertencem a toda a sociedade e que a cultura afro-brasileira também constitui patrimônio nacional. Trata-se de uma ocupação simbólica que desloca as fronteiras entre centro e periferia, entre cultura legitimada e cultura marginalizada, reivindicando que os corpos negros, indígenas e de axé sejam reconhecidos como protagonistas da história da cidade.
Esse gesto ganha ainda maior densidade quando compreendido em diálogo com o conceito de direito à cidade, formulado por Henri Lefebvre. Mais do que garantir o acesso físico aos espaços urbanos, esse direito implica a possibilidade de participar da produção dos significados da cidade, de ocupar seus monumentos, de inscrever novas memórias e de disputar quais culturas serão reconhecidas como parte do patrimônio coletivo. Assim, a escolha do Theatro Municipal transforma-se em um ato político de reparação simbólica: ela afirma que a história de São Paulo também foi construída pelos povos negros e de terreiro e que seus saberes, suas espiritualidades e suas manifestações culturais têm o direito de ocupar o centro da cidade e da narrativa nacional.
E depois seguimos em caminhada pelas ruas do centro até a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no Largo do Paissandu. A Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, localizada no Largo do Paissandu, ocupa um lugar singular na história da cidade de São Paulo. Mais do que um templo religioso, ela constitui um dos principais patrimônios da memória negra paulistana e um espaço de organização política, solidariedade e preservação cultural desde o período colonial. Sua origem remonta ao início do século XVIII, quando a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, formada por pessoas negras escravizadas, libertas e seus descendentes, construiu uma igreja própria em uma época em que a segregação racial impedia ou restringia sua participação nas irmandades frequentadas pela população branca.
As irmandades negras desempenhavam funções que iam muito além da devoção religiosa. Elas constituíam redes de ajuda mútua, arrecadavam recursos para comprar cartas de alforria, garantiam sepultamentos dignos, promoviam festas, preservavam tradições africanas e criavam espaços de sociabilidade e proteção para uma população submetida à escravidão e à exclusão social. Nesse sentido, a Igreja do Rosário tornou-se um importante território de resistência e de manutenção da memória coletiva negra em São Paulo.
A história da igreja também revela os processos de apagamento promovidos pela modernização da cidade. O templo original, localizado no antigo Largo do Rosário, foi demolido no início do século XX durante as reformas urbanas que buscavam construir uma capital moderna nos moldes europeus. A Irmandade foi removida para o atual Largo do Paissandu, juntamente com a reconstrução da igreja. A justificativa oficial estava relacionada ao projeto de urbanização, mas pesquisadores apontam que a presença das manifestações culturais negras — como batuques e festejos — era frequentemente utilizada como argumento para afastar essas populações das áreas centrais valorizadas da cidade.
Por essa razão, a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos representa muito mais do que um patrimônio arquitetônico. Ela simboliza a permanência da população negra no centro de São Paulo, apesar das sucessivas tentativas de expulsão, invisibilização e apagamento de sua história. Foi ali que diferentes organizações e movimentos negros encontraram espaço de articulação ao longo do século XX, tornando o local uma referência para a luta por direitos, memória e reconhecimento. Inclusive, Mãe Sarah6, que estava presente na construção da Parada, conta que a história desta igreja remonta à sua própria história familiar, e ela ficou extremamente emocionada:
“Minha mãe era Ekedi, no terreiro de Candomblé, e meu pai,
Ogã. E com a morte da minha mãe, meu pai deixou a religião para...
Ficou magoado com as situações, as coisas que viveu, né? Porque
a gente não teve apoio do terreiro quando minha mãe adoeceu, né?
Do pai da casa, nem nada, né? A gente ficou sem ilha nem beira. E
quando minha mãe faleceu, que foi em 91, dia 31 de maio de 91,
antes dela falecer, ela pediu para o meu pai que ela gostaria que a
missa dela fosse numa igreja ali no largo do Paissandu, né?
Nossa Senhora do Rosário, dos Homens Pretos. Que ela
sempre gostou daquela igreja, que ela amparava os negros,
independente de sua religião, né? Era uma igreja que ela se sentia
muito confortável, tanto que a gente, quando era criança, a gente
sempre passava lá para ir para a casa dos nossos parentes em
Mirim, né? Ia pegar o ônibus ali no Paissandu. E meu pai
prontamente fez esse pedido, foi para a igreja Nossa Senhora do
Rosário, marcou a missa do sétimo dia da minha mãe, e quando a
gente chegou lá, nós fomos amparados por senhoras negras. Tia
Cacilda, Tati, Tia Cida. Aí eu falo, fiquei emocionada, mas...
Um homem negro, com três filhos pequenos, uma filha de 10
para 11 anos, uma de 9 para 10, e um filho de 7 para 8 anos. Nós
fomos acolhidos lá, há mais de 30 anos. Meu pai foi a primeira
geração naquela irmandade, eu e meus irmãos fomos a segunda
geração e meus filhos são a terceira geração. Nós fomos muito bem
acolhidos, né? Meu pai virou um devoto fiel de São Benedito, Nossa
Senhora do Rosário, e deu a vida por aquela irmandade, né?
Aconteceu muitas coisas, a gente foi muito massacrado ali dentro
com algumas coisas, mas o amor dele pela aquela irmandade
superou tudo. E quando meu pai faleceu, eu não queria mais pisar
naquela irmandade, porque aquilo ali era meu pai. A vida do meu pai
era aquela irmandade, né? Meus filhos se tornaram coroinha, meu
filho mais velho foi coroinha lá dentro, eu fiz meu catecismo, minha
primeira comunhão, a gente fez tudo lá dentro. Pelo meu pai, e pela
gente também, porque a gente era muito acolhido, a gente era muito
amado ali. E quando meu pai faleceu, eu fiz uma promessa que eu
não pisaria mais ali, porque meu pai era muito presente, muito forte
naquela comunidade.
A primeira vez que eu voltei para aquela irmandade foi em
abril, que foi festa de São Benedito, meu irmão foi festeiro, e meu pai
me trouxe de volta ali, o espírito do meu pai me trouxe de volta ali. E
eu falei, eu não vou mais em mim nessa igreja, porque para mim dói
muito entrar aqui e sentir meu pai. No dia da marcha da consciência
negra à noite, eu não iria até o final. Eu estava com dor, não estava
conseguindo andar direito, mas não sei o que força me deu, mas eu
consegui chegar e me... me deu forças para chegar até aquela
igreja, novamente. E eu senti a presença muito forte do meu pai. E
no dia da marcha, eu estava me preparando psicologicamente, que
eu iria até lá, mas não entraria na igreja. Porque a presença do meu
pai é muito forte para mim ali.
Eu tinha falado que eu não entraria novamente e novamente
meu pai me trouxe ali, mostrando que independente de eu ser uma
mãe, que eu fui muito massacrada ali dentro, quando eu escolhi a
religião da Umbanda. Eu não quis mais seguir a religião católica. por
alguns irmãos ali da igreja, os irmãos fiéis, aqueles pessoal
categórico e tal. Mas algumas pessoas da igreja que conheceu a
nossa história, viram o nosso crescimento lá dentro, falaram, não,
peraí, a gente não pode deixar uma pessoa que nem ela ir embora,
perder a irmandade.
Tanto que eu fui acolhida lá, colocaram cadeira para me
sentar, para poder ficar ali. E eu fui acolhida novamente na
irmandade. E até então eu tinha pedido para sair. E a
diretora-presidente me chamou e falou, não, independente de você
estar em outra religião, você continua sendo nossa irmã. E a gente
não vai deixar você sair. Daquele dia, meu pai mostrou para mim que
eu poderia seguir a minha religião da Umbanda e ser acolhida lá na
irmandade ainda.
Então, assim, ali para mim é a minha segunda casa que me
acolheu quando eu perdi minha mãe. Eu não tinha referência de
mãe, eu não tinha referência do que era ser amada. E ali eu fui
muito amada pelas senhoras negras que me acolheram ali. Porque
tinha pessoas também que eram da irmandade e eram de terreiros.
A tia Tati era de um terreiro, era mãe de santo de um terreiro que eu
fui descobrindo aos poucos. A tia Cacilda era uma rainha de
Congada, mas ela frequentava terreiros também. E isso foi me
fortalecendo para voltar à minha origem. Só não voltei para o
Candomblé, eu voltei, eu me identifiquei mais na Umbanda. Então,
estou lá até hoje. Não tem muito tempo que eu estou na Umbanda,
são só sete anos, mas eu fui acolhida pelos dois lados e ainda
continuo sendo.”
A tradição da lavagem das escadarias das igrejas constitui
uma das mais importantes expressões do patrimônio cultural
afro-brasileiro e sintetiza séculos de resistência, ancestralidade e
ressignificação do espaço público. Sua origem remonta ao período
escravista, quando mulheres negras, muitas delas africanas e
descendentes de africanos organizadas nas irmandades religiosas,
eram responsáveis pela limpeza e preparação das igrejas para as
grandes celebrações católicas. O que, à primeira vista, poderia ser
interpretado apenas como um serviço imposto pela estrutura
colonial, foi também apropriado como um gesto de afirmação cultural
e espiritual. A água de cheiro, as ervas, as flores e os cânticos
transformaram a limpeza em um ritual de bênção, renovação e
cuidado, no qual diferentes tradições religiosas passaram a dialogar
e coexistir.
Ao longo do tempo, a lavagem das escadarias deixou de
representar apenas a preparação física de um espaço religioso para
assumir um profundo significado político e simbólico. Ela expressa a
presença dos povos negros na construção da história brasileira e
reafirma o direito de ocupar lugares que, durante séculos, foram
marcados pela exclusão social e racial. Não se trata de um gesto de
submissão, mas de uma prática ancestral que transforma o ato de
lavar em um ato de memória, dignidade e pertencimento. A água,
elemento central nas cosmologias africanas, simboliza purificação,
continuidade da vida e renovação dos caminhos, enquanto as ervas
carregam o conhecimento tradicional transmitido entre gerações.
Talvez o exemplo mais conhecido dessa tradição seja a
Lavagem das Escadarias da Igreja do Senhor do Bonfim, em
Salvador, realizada pelas baianas e mulheres de terreiro desde o
século XVIII e reconhecida como patrimônio cultural brasileiro.
Contudo, sua força simbólica ultrapassa esse evento específico: a
lavagem das escadarias tornou-se uma linguagem política dos povos
de matriz africana, afirmando que seus corpos, suas espiritualidades
e seus saberes também pertencem ao espaço público e à história do
país. Em um contexto de racismo religioso, realizar uma lavagem ou
uma caminhada até uma igreja historicamente vinculada à
população negra, como a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos
Homens Pretos, significa estabelecer um diálogo entre memória,
ancestralidade e resistência, reivindicando não apenas liberdade
religiosa, mas o direito à cidade, à cultura e à preservação das
heranças africanas que ajudaram a construir o Brasil.
Mãe Su de Nanã, com os punhos cerrados, finaliza o ato
dizendo o seguinte:
“Foi um grito, foi uma confirmação, foi a resistência. Nós
somos a cara da negritude; os somos a cara de matrizes africanas.
Que por muitos anos foi judiado, desprezado, sofrido. Mas eles
foram quem ajudaram a construir esse país. Com fé, suor e
derramando seu sangue. Então meu povo, hoje, foi uma confirmação
muito grande de que não podemos abaixar nossas cabeças. Tem
que ocupar os lugares que são de nossos direitos. Então eu queria
dizer pra vocês, que viva nossa negritude, que viva nosso povo de
axé. E viva a 1a Parada do Orgulho Macumbeiro! Axé”
A consolidação da democracia brasileira passa necessariamente pelo reconhecimento da necessidade de reparação histórica à população negra. Não há democracia plena quando os grupos que produziram a riqueza material e cultural do país continuam enfrentando desigualdades estruturais no acesso à terra, à educação, à renda, à representação política, à justiça e aos equipamentos culturais. Durante grande parte do século XX, difundiu-se no Brasil o chamado mito da democracia racial, formulado a partir da ideia de que a intensa miscigenação teria produzido uma sociedade harmoniosa e livre de conflitos raciais. Entretanto, intelectuais como Florestan Fernandes, Abdias do Nascimento, Lélia Gonzalez, Kabengele Munanga e Sueli Carneiro demonstraram que essa narrativa funcionou como um poderoso mecanismo de invisibilização do racismo, dificultando o reconhecimento das desigualdades produzidas pela escravidão e pelo colonialismo. Ao afirmar que todos conviviam em igualdade, o mito da democracia racial ocultou que a exclusão da população negra continuava estruturando as instituições, os territórios e as oportunidades sociais.
Embora a escravidão tenha sido formalmente abolida em 1888, suas formas de organização social não desapareceram com a assinatura da Lei Áurea. A ausência de políticas de reparação, de distribuição de terras e de inclusão econômica fez com que a hierarquia racial construída durante mais de três séculos permanecesse reproduzindo desigualdades no período republicano. Assim, o fim jurídico da escravidão não significou o fim das formas sociais que sustentavam a exploração e a marginalização da população negra. A permanência do racismo nas políticas urbanas, na violência estatal, no encarceramento, na intolerância religiosa e na sub-representação dos povos negros nos espaços de poder demonstra que a colonialidade continua operando como uma forma de organização da sociedade brasileira. Nesse sentido, iniciativas como a Parada do Orgulho Macumbeiro não reivindicam privilégios, mas a efetivação dos princípios democráticos por meio do reconhecimento, da reparação histórica e da garantia do direito de existência, memória e participação política dos povos negros e de terreiro.
Mãe Su de Nanã, com os punhos cerrados, na finalização da Parada, diz o seguinte:
“Foi um grito, foi uma confirmação, foi a resistência. Nós
somos a cara da negritude; os somos a cara de matrizes africanas.
Que por muitos anos foi judiado, desprezado, sofrido. Mas eles
foram quem ajudaram a construir esse país. Com fé, suor e
derramando seu sangue. Então meu povo, hoje, foi uma confirmação
muito grande de que não podemos abaixar nossas cabeças. Tem
que ocupar os lugares que são de nossos direitos. Então eu queria
dizer pra vocês, que viva nossa negritude, que viva nosso povo de
axé. E viva a 1a Parada do Orgulho Macumbeiro! Axé”
1 Agnes Oyasomi (Agnes Karoline de Farias Castro) é cientista social pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), especialista em Direitos Humanos pelo Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF/UNIFESP), pesquisadora do Observatório de Violência contra as Mulheres do CAAF/UNIFESP e mestranda em Filosofia na UNIFESP. Atua como educadora popular, Promotora Legal Popular (PLP) e fundadora da Casa das Yabás – Saber e Cura e Nanda Omiakesi Graduanda
em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP), pesquisadora com ênfase em Antropologia. Articuladora comunitária, produtora cultural e educadora social, desenvolvo projetos voltados para direitos humanos, educação, fortalecimento comunitário, e preservação de memória e território, com foco em identidade racial.
4 CRIOLA. JUSTEZA: Caminhos para o Enfrentamento ao Racismo Religioso. Rio de Janeiro: Criola, 2024. Disponível em: https://criola.org.br/formacoes/justeza-caminhos-para-o-enfrentamento-ao-racismo-religioso/. Acesso em: 12 jun. 2026.
5 Entrevista da Mãe Elen de Iansã, dirigente do terreiro de Umbanda em Guarulhos “Cantinho de Orações Caminhos de Aruanda”
6 Mãe Sarah, foi eleita pela irmandade e pelo Abassái cultura e arte, eleita a Rainha Conga da
Cidade de São Paulo, então eu e meu irmão desde 2013 somos patrimônio tombado pelo Estado de
São Paulo. Ela como Rainha e o irmão dela como Rei Congo. É um título perpétuo.
Referências Bibliográficas:
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BRASIL. Decreto no 6.040, de 7 de fevereiro de 2007. Institui a Política Nacional de
Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais.
BRASIL. Decreto no 12.278, de 29 de novembro de 2024. Institui a Política Nacional para Povos e Comunidades Tradicionais de Terreiro e de Matriz Africana.
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CRIOLA. CRIOLA. **JUSTEZA: Caminhos para o Enfrentamento ao Racismo Religioso. Rio de Janeiro: Criola, 2024.
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RENAFRO – Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde. Relatório Respeite o
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GONZALEZ, Lélia. Por um Feminismo Afro-Latino-Americano.
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THEATRO MUNICIPAL DE SÃO PAULO. História Institucional.
RAMOS DE AZEVEDO. Acervo e documentação histórica.
Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de São Paulo: Lugar de Memória da Escravidão e da Resistência Negra. Saí da Igreja do Rosário, andei por São Paulo e
tropecei na história.
SECCO, Lincoln. A destruição da Igreja do Rosário dos Pretos.
IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
Documentação sobre a **Lavagem do Bonfim** e patrimônio cultural imaterial.
ARTIGO 19. Luta e luto pelo assassinato da liderança quilombola Bernadete Pacífico.
Documentação sobre o assassinato de Marielle Franco e relatórios sobre violência política de gênero e raça.
Manifesto da 1a Parada do Orgulho Macumbeiro.
Materiais de divulgação produzidos pela organização.
Registros fotográficos e audiovisuais do evento.
Entrevistas com Mãe Su de Nanã, Mãe Ellen de Oya e Mãe Sarah de Oya e as construções de rodas de conversas entre todas as participantes do Colo Ancestral.
Cobertura da imprensa alternativa e mídias digitais sobre a 1a Parada do Orgulho
Macumbeiro.

Iya Agnes Oyasomi
Agnes Karoline de Farias Castro (Iya Agnes Oyasomi) é cientista social pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), especialista em Direitos Humanos pelo Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF/UNIFESP), mestranda em Filosofia e pesquisadora do Observatório de Violência contra as Mulheres do CAAF. É Promotora Legal Popular (PLP) desde 2013, com atuação na formação de mulheres e no fortalecimento do acesso à justiça em São Paulo, Guarulhos (Pimentas) e Mairiporã... [+ informações de Iya Agnes Oyasomi]
Contatos de de Iya Agnes Oyasomi
Site: yabassaberecura.com.br
Artigo de Opinião: texto em que o(a) autor(a) apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretações de fatos, dados e vivências. ** Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do AxéNews. |

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