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A Iniciação em Ifá: qual é, afinal, o seu verdadeiro sentido?

  • Foto do escritor: WR Express
    WR Express
  • 11 de set. de 2025
  • 3 min de leitura

Por: Babalawo Rogério Amorim



11/09/2025 | 11:07


É cada vez mais recorrente a nós, praticantes de Ifá, seja ao Babalawo, Apetebi, Awofakan ou mesmo para um não iniciado, o questionamento do que ganhamos ou quais as concretudes de sorte e de axé que ganhamos ao percorrer os caminhos de Ifá. É claro que, naturalmente, essas questões procuram prescrutar se houve, na realidade, de forma unívoca e imediata, uma espécie de recompensa ou ganho palpável com o ingresso no culto de Ifá.



Tal concepção, embora compreensível diante do cenário contemporâneo de mercantilização do sagrado, revela um equívoco recorrente. Persiste, tanto no campo de Ifá quanto no universo dos Orixás, uma falsa crença de que a iniciação implicaria, por si só, uma transformação instantânea das circunstâncias de vida — como se fosse possível fazer uma barganha, regateio ou permuta com a espiritualidade em troca do destino.


A tradição de Ifá, no entanto, propõe algo diferente. Sua função não é conceder favores, mas oferecer diretrizes. Trata-se de um sistema complexo de sabedoria, ética e conduta, cuja finalidade é orientar o indivíduo rumo a um desenvolvimento pessoal e coletivo mais íntegro.


Nesse sentido, é importante entendermos que a iniciação ao culto de Ifá tem antes um caráter revelatório, e que por meio da voz de Orunmilá identifica-se a vocação de cada indivíduo. A “boa sorte”, a “prosperidade”, o “bem-estar” que se busca está no movimento dessa descoberta, dessa voz única que compõe cada ser humano. Nem o desejo pessoal e nem a autoridade de quem conduz todo o cerimonial é capaz de substituir o reconhecimento oracular.


Tanto a iniciação em Ifá para mulheres (Ikofá) e para homens (Awofakan) representa a conscientização da presença de Orunmilá na trajetória vital da iniciada e do iniciado. Não se trata de um rito decorativo, mas de um compromisso profundo com um código de existência. Ifá é o código da vida. É a própria vida. Por isso, trata-se de um pacto ético, um marco simbólico de adesão a uma nova forma de estar no mundo.


O iniciado torna-se, então, uma espécie de oferenda viva à ordem cósmica que rege os princípios de Ifá. A prática religiosa não opera milagres sobre realidades que não foram internamente transformadas. Nenhum rito, por mais elaborado que seja, substitui o esforço existencial de reformulação pessoal.


Ifá oferece, sobretudo, orientação. Os direcionamentos — transmitidos por meio de consultas (Osode) ou da revelação iniciática (Itá de Ikofá ou Awofakan) — funcionam como chaves interpretativas da vida. Segui-los não é garantia irrestrita de sucesso, mas condição sine qua non para o profundo alinhamento com as forças que regem o Equilíbrio Cósmico.


Trata-se de uma espiritualidade que exige adesão consciente. Aceitar seus ditames é aceitar um modo de vida, não uma lista de promessas. A boa sorte, nesse contexto, não é um dom distribuído arbitrariamente, mas o resultado de um ajustamento entre ação, ética e destino.


A partir da iniciação criam-se condições para a superação de padrões repetitivos de erros, sofrimentos e conflitos. Abrem-se possibilidades para reorientar a trajetória existencial de acordo com os princípios escolhidos antes mesmo do nascimento. No entanto, cumpre lembrar sempre que tais possibilidades exigem comprometimento e práticas contínuas.


A transformação não decorre apenas de oferendas ou pedidos. Ela nasce da reformulação da conduta, da adoção de uma nova ética de vida. É por meio dessa mudança que a espiritualidade se manifesta de forma concreta, promovendo harmonia interior e reestruturação externa.


Por fim, Ifá não deve ser compreendido como um talismã ou escudo protetor. Ele não funciona como um objeto mágico. Sua potência está em sua capacidade de orientar, prevenir, advertir e guiar. É uma bússola, e não uma armadura. Sua função não é blindar, mas conduzir.


Aqueles que se permitem guiar por Ifá encontrarão, com o tempo, caminhos mais claros, decisões mais justas e um sentido de direção mais firme. Não se trata de promessa, mas de consequência natural de um vínculo real com a sabedoria ancestral.




Babalorixá Fabio ti Odé - AxéNews

Babalawo Rogério Amorim

Awo ni Orunmila Iwori Boshe Ifá L’omã. Consagrado em Ifá pelas mãos do Maestro Oluwo Siwaju Evandro Luis de Carvalho Otura Airá Ifá ni L’Órun. É membro da Associação Yorubá Cuba-Brasil... [+ informações do Babalawo Rogério Amorim]



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