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A identidade negra como existência, reconhecimento e resistência

há 1 dia
4 min de leitura

Por: Gisele Rose

✅ 15/9/2026 | 08:59


No que tange à definição mais simples de identidade, podemos dizer que seria simplesmente aquilo que se é, ou seja, aquilo que cada sujeito percebe ser e entende como sendo constituinte de suas subjetividades.


Parece simples, mas não é, pois se pensarmos a relação que os grupos excluídos constroem ao longo do tempo com seus corpos e sua localização no mundo, percebemos que existe uma dificuldade em compreender “onde se encaixar”. Se perceber dentro de uma construção social e geopolítica enquanto busca conhecer-se individualmente não é uma tarefa fácil sendo diferente do padrão vigente.


Ao tentar nos invisibilizar, subalternizar, subtrair ou hierarquizar nossa condição humana, naturalizando as críticas condições de desigualdades sociais e étnicas no intuito de não nos tornarmos conscientes de quem somos, o racismo dificulta o processo de construção da identidade negra. Para que uma determinada identidade exista socialmente é preciso que haja reconhecimento. Entretanto, este processo de construção deve se dar de modo subjetivo, pois entender-se como componente de um grupo heterogêneo, cujas características que não podem ser padronizadas, requer um certo entendimento de quem se é. Sobre a dificuldade estrutural em conceber as diferenças como potências, encontramos os “padrões mercadológicos".



Na afirmação de que somos todos humanos, buscamos padronizar todos os pormenores envolvidos no fato de ser humano, mas deixamos de lado todas as diferenças que compõem cada indivíduo dentro de suas humanidades. Mas, justamente as diferenças é que vão nos tornar únicos em nossas subjetividades.


No que diz respeito às essas identidades múltiplas, pensar sobre corpos diversos inseridos nos espaços é também pensar na multiplicidade de ações e saberes que podem ser criados e utilizados para o fortalecimento de construção de potências. Cada sujeito se constrói com base na sua existência, que terá como matriz fundamental suas subjetividades, o conhecimento do seu corpo, espaço e entorno.


A definição de existência está ligada a todas as experiências vividas que irão compor o ser, às experiências e escolhas únicas e individuais que irão influenciar diretamente na essência e na subjetividade de cada um. Como promover a Educação pela VIDA e para a VIDA, na qual a exclusão, a subalternização e a desumanização do outro não sejam possíveis?


Eu era ao mesmo tempo responsável por meu corpo, responsável por minha raça, pelos meus ancestrais. Lancei sobre mim um olhar objetivo, descobri minha negridão, minhas características étnicas, - e então detonaram meu tímpano com a antropofagia, com o atraso mental, o fetichismo, as taras raciais, os negreiros, e sobretudo com “y’ a bon banania”. (FANON, 2008, p. 106)


Para compreendermos a construção existencial das identidades negras é necessário entender que existe uma essência humana que nos determina, mas essa essência é constituída por meio da existência, ou seja, a partir das escolhas feitas, pois o primeiro esforço do existencialista é de pôr todo ser no domínio do que ele é e de lhe atribuir a total responsabilidade da sua existência. E, quando dizemos que este é responsável por si próprio, não queremos dizer que é responsável pela sua estrita individualidade, mas que é responsável por todos os seres.


O que significará aqui o dizer-se que a existência precede a essência? Significa que o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e que só depois se define. (SARTRE, 1978, p. 242).


De acordo com o existencialismo, é impossível achar em cada ser humano uma essência universal que seria a natureza humana, existe, contudo, uma universalidade humana de condição. As situações históricas variam: o ser humano pode nascer escravo numa sociedade pagã ou senhor feudal ou proletário. Mas o que não varia é a necessidade para ele de estar no mundo, de lutar, de viver com os outros e de ser mortal. O escritor Amadou Hampaté Bâ, o ser é, ao mesmo tempo, simples e múltiplo, pois comporta elementos físicos, psíquicos e espirituais, sendo tudo aquilo que se apresenta com maior facilidade de compreensão à existência física ‒ essa, por sua vez, é precedida por uma preexistência, que aqui será denominada de essência.


O ser humano não é uma unidade monolítica, limitada a seu corpo físico, mas sim um ser complexo habitado por uma multiplicidade em movimento permanente. Ele não se trata, portanto, de um ser estático, ou concluído. A pessoa humana, como a semente, evolui a partir de um capital primeiro, que é o seu próprio potencial e que vai se desenvolvendo ao longo da fase ascendente de sua vida, em função do terreno e das circunstâncias encontradas. (HAMPATÉ BÂ, 1981, p. 3).


O pensar sobre a construção existencial de identidades negras perpassa a elaboração de uma ideia de que o homem branco não é universal, mas que esta concepção invisibilizou sujeitos e suas subjetividades, pois quando Fanon afirma que se descobriu objeto em meio a outros objetos, ele está afirmando a dificuldade de se pensar uma existência negra que advém de um projeto ancestral de existência e que precisa ser ressignificada com base na resistência.


De certa forma, porém, o racismo que conhecemos hoje não deixa de ter em comum com as ideias etnocêntricas mais antigas, a questão do uso das diferenças como justificação para a exclusão de um grupo por outro. Ao propor um diálogo entre a definição de existencialismo escrita por Sartre e a construção existencial do ser negro, percebemos que este existencialismo proposto não abraça o racismo sofrido pelos negros, sendo necessário refletir sobre a ideia de um humanismo considerado universal.


Referências

FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Tradução de Renato da Silveira. Salvador: EDUFBA, 2008.

HAMPATÉ BÂ, A. A noção de pessoa na África Negra. Tradução de Luiza Silva Porto Ramos e Kelvlin Ferreira Medeiros [1972]. In: DIETERLEN, Germaine (ed.). La notion de personne en Afrique Noire. Paris: CNRS, 1981, 181-192.

SARTRE, de Jean Paul. O existencialismo é um humanismo. 2ª edição. Tradução de Vergílio Ferreira. Lisboa: Editorial Presença, [1978].



Gisele Rose - AxéNews

Gisele Rose

Filósofa e escritora. Professora da Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro (SEEDUC-RJ). Mestra em Relações étnico raciais pelo Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET-RJ), Especialista em Energia e Sociedade no Capitalismo Contemporâneo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Graduada em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)...  [+ informações de Gisele Rose]  


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