A espiritualidade diante da era da informação
Por: Pai Ortiz Belo

✅ 12/9/2026 | 09:14
Há alguns anos venho realizando meu trabalho espiritual. Ao longo dessa caminhada, tive o privilégio de encontrar pessoas especiais, receber ensinamentos, ouvir experiências e, principalmente, ser preparado por aqueles que compreendiam que conhecimento espiritual não se resume à informação: exige vivência, responsabilidade, disciplina e tempo.
Venho de uma geração diferente.
Sou do tempo da televisão em preto e branco, das músicas gravadas em fitas cassete, das fotografias com filme, que precisavam ser reveladas para sabermos como haviam ficado. Sou de uma época em que não existia uma resposta pronta na palma da mão. Para aprender alguma coisa era necessário procurar, perguntar, ler, ouvir, observar e experimentar.
E talvez justamente por isso o conhecimento tivesse outro peso.
Os anos passaram e chegou a internet. Com ela, aconteceu uma verdadeira explosão de informações. Aquilo que antes demorava dias, meses ou até anos para chegar até alguém passou a estar disponível em segundos.
Hoje chegamos à era da Inteligência Artificial. A tecnologia avança numa velocidade impressionante e coloca diante de nós possibilidades que, poucas décadas atrás, pareceriam ficção científica.
Entretanto, existe um paradoxo que precisa ser observado:
quanto mais informação temos disponível, menos necessariamente estamos produzindo conhecimento.
Ter acesso à informação não significa possuir sabedoria. Saber pesquisar não significa saber interpretar. Repetir aquilo que alguém escreveu não significa compreender. E ter milhares de seguidores não transforma ninguém em autoridade sobre determinado assunto.
Talvez este seja um dos grandes problemas de nosso tempo.
Nunca tivemos tantas ferramentas para aprender e, paradoxalmente, talvez nunca tenhamos convivido com tamanha superficialidade apresentada como conhecimento.
E aquilo que acontece na sociedade inevitavelmente chega aos terreiros.
Nos últimos anos assistimos ao surgimento de uma quantidade gigantesca de novos sacerdotes e sacerdotisas, nas mais diferentes vertentes religiosas. Evidentemente, existem pessoas sérias, comprometidas, estudiosas e responsáveis. Pessoas que merecem respeito pelo trabalho que realizam.
Mas existe também outro fenômeno que precisa ser enfrentado.
O celular nas mãos transformou muitas pessoas em personagens públicos antes que elas tivessem construído conhecimento suficiente para sustentar aquilo que passaram a ensinar.
A câmera passou a funcionar como púlpito.
A curtida passou a funcionar como reconhecimento.
O número de seguidores passou a ser confundido com autoridade.
E a popularidade começou a ocupar o espaço que deveria pertencer ao conhecimento.
O problema não está na tecnologia. O problema está no uso que fazemos dela.
Internet, redes sociais e Inteligência Artificial são ferramentas extraordinárias quando colocadas a serviço do conhecimento. Porém, tornam-se perigosas quando utilizadas apenas para ampliar ignorância, vaidade, fanatismo e desinformação.
Dentro da espiritualidade isso se torna ainda mais grave.
Um dirigente espiritual não trabalha apenas com sua própria vida. Suas palavras podem interferir na maneira como outras pessoas compreendem Deus, os Orixás, os Guias, Exu, a mediunidade, a religião e até a própria existência.
Por isso sempre defendi dentro da Umbanda Tradicional que:
Conhecimento é libertação.
E conhecimento verdadeiro exige senso crítico.
É preciso perguntar.
É preciso duvidar.
É preciso comparar.
É preciso estudar.
É preciso compreender que tradição não significa permanecer intelectualmente parado. Preservar fundamentos não significa abandonar a capacidade de pensar.
Ao contrário.
Quanto maior a responsabilidade espiritual, maior deveria ser a responsabilidade intelectual.
Infelizmente, observo hoje uma espécie de catarse coletiva em determinados espaços religiosos e nas redes sociais. Muitas pessoas não procuram conhecimento; procuram confirmação. Não querem algo que desafie aquilo que pensam; querem alguém que diga exatamente aquilo que desejam ouvir.
Quando apresentamos uma reflexão mais profunda, poucos param para analisar.
Quando apresentamos estudo, poucos querem estudar.
Quando apresentamos questionamentos, muitos interpretam como afronta.
Mas quando aparece o espetáculo, a polêmica, a fantasia ou aquilo que alimenta o ego, imediatamente surgem milhares de interessados.
É o velho “pão e circo”, agora transportado para as telas dos celulares.
E talvez essa seja uma das maiores batalhas intelectuais de nossa época: não permitir que a facilidade de acesso à informação destrua nossa capacidade de pensar.
A sociedade brasileira apresenta sinais preocupantes dessa superficialidade, assim como outras sociedades pelo mundo. E, nesse aspecto, agradeço por ter vivido minha adolescência e parte da vida adulta em um período no qual ainda era necessário procurar respostas com mais esforço.
Não porque o passado fosse melhor em tudo.
Não era.
Mas porque algumas dificuldades obrigavam o indivíduo a desenvolver algo que hoje precisamos desesperadamente preservar:
a capacidade de pensar por si mesmo.
É justamente isso que procuro transmitir em meus estudos, aulas e reflexões.
Não quero pessoas repetindo Pai Ortiz Belo.
Quero pessoas pensando.
Não quero formar seguidores incapazes de questionar.
Quero estimular pessoas capazes de observar um conhecimento sob diferentes prismas, confrontá-lo com aquilo que já sabem e construir suas próprias conclusões.
Porque uma religião que proíbe perguntas produz dependência.
Uma religião que estimula conhecimento produz consciência.
E uma espiritualidade consciente não deveria ter medo da filosofia, da ciência, da história, da antropologia ou de qualquer outro campo do saber. Se determinada ideia possui fundamento, ela deve suportar perguntas.
Esta reflexão, portanto, não pretende ser uma sentença contra todos.
É apenas uma garrafa lançada ao mar.
Talvez passe despercebida por muitos.
Talvez seja ignorada por quase todos.
Mas, se em algum momento alguém encontrar essa garrafa, abri-la e permitir que estas palavras provoquem alguns minutos de reflexão, ela já terá cumprido sua finalidade.
Porque em uma época na qual tantos querem falar, talvez o verdadeiro ato revolucionário seja aprender a ouvir, estudar, refletir e pensar antes de repetir.
Não permita que a modernidade pense por você.
Não permita que algoritmos escolham todas as suas verdades.
Não confunda seguidores com conhecimento, popularidade com sabedoria ou espetáculo com espiritualidade.
Questione. Estude. Observe. Compare. Pense.
E, principalmente:
não tenha medo de fazer parte da minoria que ainda prefere o desconforto do conhecimento ao conforto da ignorância.

Pai Ortiz Belo
Escritor umbandista e espiritualista. Dirigente espiritual do Templo Portais de Umbanda desde 1997. Nasceu em berço religioso de Umbanda, consagrado pai pequeno aos 19 anos e dirigente aos 26. Filho de pai Xangô e mãe Oxum, sempre procurou fazer pela religião desde jovem, participando de momentos valiosos para a Umbanda. [+ informações do Pai Ortiz Belo]
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Artigo de Opinião: texto em que o(a) autor(a) apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretações de fatos, dados e vivências. ** Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do AxéNews. |

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