O direito de ser criança de terreiro
Por: Ìya Elisangela D’Onira

✅9/9/2026 | 08:09
Viver o axé, a vida de axé é maravilhosa, sem dúvida, principalmente quando você compreende sua caminhada e que de fato sempre pertenceu ao mesmo, porém nem sempre é fácil se compreender como uma pessoa que tem um chamado, um destino previamente traçado, muitas vezes só compreendemos esse caminho caminhando e olhando com gratidão e simpatia por tudo que se percorreu e apreendeu.
Se para um adulto compreender sua função ou diria, missão nessa longa jornada no Aiyê é complexo e desafiador, imagina para uma criança? Ainda mais quando essa criança vive nesse tempo no qual vivemos, onde ter tantos atributos atrelados a vida de terreiro parece coisa de outro mundo, parece crime ou algo extremamente maligno que sequer pode ser sussurrado, imagina falado. Tenho refletido muito sobre a palavra 'caminho', nem todos os caminhos são fáceis ou acessíveis para todos, ainda mais quando você não nasce dentro da religião, ou quando vem de família que já cultua o Sagrado, mas mesmo assim tem medo de expor e pior, ainda tenha o cristianismo enraizado a ponto de achar necessário e "prudente" esconder sua fé.
Como Iyalorixa e professora tenho acompanhado de pertinho a vida dessas crianças no âmbito escolar e o quanto, embora amem a religião e muitas vezes ensinem os adultos nas funções de seus terreiros, sentem-se constrangidas e acuadas, sendo muitas vezes levadas a negar sua fé. O país, segundo a constituição, é um estado laico, mas o básico dessa laicidade não é respeitado e ainda apontam e discriminam quem abertamente professe uma fé "contraria" aos interesses de muitos.
E o mais triste é constatar que muitas vezes o preconceito parte de adultos que deveriam simplesmente acolher, sem constranger ou soltar ironias e perguntas descabidas a essas crianças. Ninguém é obrigado a concordar ou professar a mesma fé, mas respeitar é primordial e essencial!
Recentemente, estava indo para casa após o término de meu período de aula, quando uma aluna de onde leciono me abordou na rua, ela sabe que sou da religião pois sempre me vê com fios ou turbante (não me escondo e assim como respeito os demais, exijo ser igualmente respeitada), veio me contar que seu zelador em um jogo disse-lhe bem como a sua mãe, que sua guardiã é Maria Padilha e que logo a mesma começaria a incorporar, contou-me feliz e perguntou-me qual era minha guardiã, eu sorri , a abracei e saudei dizendo-lhe bem vinda pois quem tem Padilha como guardiã, tem tudo. No decorrer daquela semana, ela adentrou minha sala de aula, me deu um beijo e me entregou um desenho, no qual para minha surpresa, era Dona Padilha ali retratada.

É com sorriso nos lábios e o coração aquecido que relato esse episódio recente, pois me vi nela, cresci em berço umbandista, conversava com as entidades de meus pais, como se conversasse com meus melhores amigos, aprendi a cuidar, a servir, a traduzir e dar recados, mas era tudo segredo, lá fora, eu era católica, fui batizada, crismada, fiz catequese, aprendi a me esconder e esconder minha fé para não ser apontada e discriminada e hoje, me vejo acolhendo, ouvindo e me alegrando com crianças que assim como eu um dia quis, só querem compartilhar seus avanços religiosos, sua paixão pelo que lhes é tão puro e sagrado, só querem vivenciar sua fé sem ser apontada ou julgada.
Nosso dever como povo de terreiro, como os mais velhos dessa nova geração é ensinar-lhes a ter orgulho de ser quem são, porque somos feitos de fé e axé e isso não tem preço, tem valor!

Elisangela D’Onira | Iyalorixá
Elisangela Achilles Fernandes Silva (Ìya Elisangela D’Onira).
Nascida em São Paulo (SP) em 20 de dezembro de 1977, filha de um comerciante e de uma dona de casa, Elisangela Achilles Fernandes Silva — conhecida religiosamente como Ìya Elisangela D’Onira — é uma mulher negra, casada, mãe e avó. Reside na capital paulista com sua família, onde atua como professora na rede municipal de ensino. [+ informações de Ìya Elisangela D’Onira]
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Que lindo esse encontro. Salve o sagrado! Laroyê Maria Padilha! Que nossas crianças sempre estejam protegidas e cada dia mais orgulhosas de sua ancestralidade 🙌🏼✨