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A criança na Umbanda: prática religiosa como lugar de aprendizagem

há 14 horas
11 min de leitura

Por: Mãe Lelê

12/10/2026 | 10:39


Quando falamos da inserção da criança na religião, sabemos que, em geral, essa criança pode ser levada pelos pais ou responsáveis, de forma sistemática ou esporádica aos locais de culto de sua família. Ou até mesmo nem ser levada para esses locais. Porém, de uma forma ou de outra, essa criança irá sempre interagir com os conhecimentos partilhados acerca da religião e pode, a princípio, se identificar com o modelo que sua família segue.


Assim, uma criança que vive em uma família umbandista é socializada dentro de uma relação família – religião, uma vez que a religião umbandista é um sistema estritamente familiar e a família é o núcleo central desse processo. Dessa forma, pode partilhar crenças e costumes, participando ou não dos rituais e festas especiais; brincar e conversar com as entidades, aprendendo e armazenando informações.


Os terreiros, ao acolherem crianças em suas práticas rituais, constituem espaços de socialização, transmissão de saberes, exercício de alteridade e enfrentamento da intolerância religiosa. Nesse sentido, a prática religiosa se configura como lugar de aprendizagem, no qual a criança aprende a viver em comunidade, lidar com diferenças e desenvolver identidades plurais.



No entanto, as crianças de família umbandista apresentam, por vezes, uma variável que as outras religiões não têm: de participarem de duas religiões ao mesmo tempo.

Muitas vezes as crianças que vão ao terreiro de umbanda para as giras, sessões (lembremos, particularmente, da sessão de Cosme e Damião) ou que vão para as consultas para serem rezadas pelo caboclo ou preto velho, também participam, na sua grande maioria, dos rituais católicos: são batizadas, fazem catecismo, primeira comunhão, frequentam encontros de crianças ou jovens com Cristo e outras atividades. Uma prática bem recorrente antigamente. Foi assim comigo e, de certa forma, com o meu filho também. Ainda continua assim? Quais os argumentos que justificam isso? Sempre gosto de fazer algumas indagações sobre o tema.


Sabemos que há catecismo na igreja católica; escola dominical nas igrejas evangélicas; evangelização nas casas espíritas Kardecistas... e nos terreiros de Umbanda o que há para as crianças? Para os adolescentes? Como os terreiros lidam com os filhos dos médiuns frequentadores da Casa que estão no terreiro quando há gira, sessão festiva ou outra atividade? As crianças estão nas giras e sessões de roupa branca na umbanda tal como as crianças participam das rodas no candomblé? Há pesquisas científicas acerca da inserção da criança na Umbanda? O que essas pesquisas abordam? É possível criar atividades para crianças sobre a Umbanda sem o caráter de catequese?


Por que as pessoas acham normal uma criança ou um adolescente estarem na missa, no culto evangélico, na palestra espírita, na mesquita e reprovam ou tecem comentários depreciativos quando veem as crianças ou adolescentes com a roupa ritualística branca, com guias no pescoço, participando de uma religião de matriz africana: umbanda, candomblé, omolokô?

Para o último questionamento a resposta vem de imediato: racismo religoso.

Buscando respostas para as minhas indagações, procuro ler acerca da temática em questão, em diversos referenciais teóricos de diferentes áreas do conhecimento a fim de me ajudar a fazer uma reflexão que dialogue com os meus conhecimentos adquiridos e que redimensione a minha vivência/ experiência na prática de Umbanda.


Gutman (2018) nos diz que nas religiões de matriz africana, como Umbanda e Candomblé, as crianças circulam nos terreiros e nas giras; mas, questiona de que forma essa circulação acontece e como se dá o contato entre adultos e crianças, bem como a troca de saberes entre eles e das crianças com seus pares. De acordo com a autora, estas são ainda questões que devem ser campo de pesquisa.

Em seu artigo, Gutman ( 2018) aborda, a meu ver, duas questões bem pertinentes: qual a posição da infância nas Religiões Umbanda e Candomblé? E Como se cuida da infância ou como se presta atenção nela nessas religiões? A autora procura refletir sobre as culturas infantis nesses contextos religiosos, com base na nova Sociologia da Infância em que a categoria geracional infância tornou-se um marco referencial de pesquisas e as culturas infantis são estudadas em diversas instituições sociais.


Em relação à sociologia da infância, Sarmento (2005 : 366) nos diz que ela


propõe-se a constituir a infância como objeto sociológico, resgatando-a das perspectivas biologistas, que a reduzem a um estado intermédio de maturação e desenvolvimento humano, e psicologizantes, que tendem a interpretar as crianças como indivíduos que se desenvolvem independentemente da construção social das suas condições de existência e das representações e imagens historicamente construídas sobre e para elas. Porém, mais do que isso, a sociologia da infância propõe-se a interrogar a sociedade a partir de um ponto de vista que toma as crianças como objeto de investigação sociológica por direito próprio, fazendo acrescer o conhecimento, não apenas sobre infância, mas sobre o conjunto da sociedade globalmente considerada.


Gutman( 2018) além de narrar um pouco da sua própria história com a religião de matriz africana ( iniciou na Umbanda aos 48 anos, apesar de ter nascido em uma família umbandista - o avó tinha um terreiro de umbanda, a avó era parteira e rezadeira), também nos conta como algumas casas de Umbanda lidam com a inserção das crianças na umbanda e de que forma fazem isso.


Relata que em uma das casas de Umbanda onde frequentou como médium, a categoria infância não participava de todos os espaços da casa, pois a categoria geracional dos adultos é a gira. De acordo com aquela Casa em que frequentou, a articulista observou que a infância, ali, precisava ainda ser preparada com a evangelização, que funcionava no horário da gira; os pais médiuns levavam seus filhos e a assistência também podia inscrever seus filhos. Naquela Casa, as crianças que não participavam da evangelização ficavam perto dos seus pais nas consultas com as entidades. E, diversas vezes, a autora viu alguns médiuns tomando conta de crianças no momento da consulta dos pais com as entidades, na gira, tanto para que não escutassem o que era dito, como para que elas não entrassem em contato com as entidades. Esses pais tinham como deixar seus filhos na evangelização, pois era no mesmo horário da gira, mas optavam por não as levar. A maioria das crianças da evangelização era de crianças filhas dos médiuns, do que da assistência.


Acrescenta, ainda, Gutman ( 2018, p. 13 ) que:


Percorrendo o universo da Umbanda na pesquisa, a ida das crianças às casas e sua iniciação se deve muito também à participação e sensibilidade de seus pais e parentes para com a religião e seus ensinamentos (CUNHA, 2013, p.10). Os adultos da família podem frequentar a Umbanda, mas isso não deixa claro que todos aceitem e sigam a mesma linha religiosa para os filhos. Outros trazem os filhos apenas por não ter onde deixá-los, não se preocupando em repassar os fundamentos.


Há relatos, em que aparece a preocupação de dar tarefas básicas para as crianças e ocupá-las e não de repassar os fundamentos religiosos. Há também uma preocupação em retirá-las de rituais mais complexos, principalmente nos chamados rituais pesados, como ir em uma encruzilhada, separando o mundo da aprendizagem adulta nos rituais e o da infância.


Diferente de outras religiões de matriz africana, as crianças umbandistas, que são levadas pelos pais para a gira, têm formas de iniciação na religião diferenciada:


1- umas são batizadas pela entidade/ guia chefe do terreiro, utilizando uma série de elementos: água, ervas, pemba ... A iniciação de fato ou o “desenvolver”, pode ou não acontecer na fase adolescente ou adulta, quando a pessoa manifestar a vontade de seguir a religião.


2- alguns terreiros aceitam crianças apenas cujos pais também frequentam o terreiro, tendo como argumento a consideração de que o processo de aprendizado se dá de maneira mais fácil. E, além disso, não há ritual específico para a iniciação das crianças.


3- outras casas de umbanda, preferem adiar o desenvolvimento até a criança atingir a maturidade para que ela possa compreender o que está acontecendo. Quanto a isto, Gutman nos lembra que na umbanda se usa o termo trabalhar e que na modernidade o trabalho não faz parte do ofício da criança. Além disso, há uma questão legal, em se tratando de menores de idade, que é o fumo e a ingestão bebida pela entidade incorporada que não deve ocorrer, pois constitui um crime.


O umbandista não questiona se uma criança pode ter mediunidade; pelo contrário, isto muitas vezes é celebrada e é desejado que as crianças de terreiro manifestem cedo seus dons. Porém, alguns adeptos têm dúvidas quanto à validade do seu transe e da forma como a entidade vai atuar no terreiro.


Quanto a isto, Campelo & Monteiro (2017) dizem que os discursos que se manifestam a favor do desenvolvimento mediúnico infantil, não veem nenhum problema, pois “ valoriza a continuidade do grupo e a certeza da ancestralidade”. Já os discursos que são contra, consideram que pode prejudicar o desenvolvimento físico e intelectual das crianças Segundo os autores, os que contradizem argumentam que a criança tem um organismo frágil e imaturo, que nem sempre acompanha o seu desenvolvimento intelectual e vice-versa. “Chegam mesmo a afirmar que a criança tem muita imaginação e iniciá-la poderia ocasionar consequências perigosas ao seu equilíbrio espiritual e mental”.


Na Umbanda, o que separa no campo geracional da criança do adulto é a determinação da verdade mediúnica. Como é possível dizer que um adulto está com aquela entidade e a criança não? O adulto por conhecer determinadas características das entidades, pode tornar mais fácil dissimular estar incorporado. E a criança que não tem essa percepção de dissimular, enganar, pode estar mais incorporada que um adulto.


Isso não significa que a criança não brinque de estar incorporada. Isso é diferente do seu envolvimento espiritual na gira, na incorporação. Tanto o adulto como a criança podem ser afetados por imaginações psicológicas que podem influenciar na sua incorporação. Apesar disto, o poder de decisão da participação das crianças nas giras está nas mãos dos adultos.


Pensar o que é importante para essa criança tanto no Candomblé quanto na Umbanda, agora, no seu presente, é entender que ela precisa ser ouvida e que conheçamos suas culturas infantis, dentro desse contexto religioso


Ao participar das rotinas do terreiro, as crianças aprendem as regras e percebem que variações de regras são possíveis e até desejáveis. Essas transgressões são toleradas e incentivadas, porque o importante é que haja um entendimento na interação adulto-criança, pois nem tudo as crianças compreendem plenamente.


Nascimento e Araújo (2023), ao analisarem o projeto “Ser Criança” em um terreiro paraibano, evidenciam que o espaço religioso promove saberes voltados ao acolhimento e à resistência à intolerância religiosa. As crianças aprendem, de forma prática e vivencial, a valorizar sua identidade, respeitar diferenças culturais e religiosidades diversas. Essa experiência pode ser vista como um processo educativo ampliado, em que o terreiro se torna um currículo vivo.


A presença infantil nos terreiros também se traduz em práticas pedagógicas não formalizadas. A observação, a participação em cânticos, danças e oferendas constituem modos de aprender que se aproximam do conceito de aprendizagem situada (Lave & Wenger, 1991). No convívio com mais velhos e guias espirituais, a criança adquire noções de coletividade, disciplina, respeito ao sagrado e responsabilidade social.


Bergo (2011), falando da Umbanda em sua tese de doutorado, apresenta relatos sobre os meninos que tocam os atabaques nos rituais, e concluem que eles procuram participar além do que é esperado, praticam, olham e criam. Essa criação é uma produção de culturas infantis, que devem ser apontadas e estudadas. Os adultos também foram crianças um dia e aprenderam com seus pares e essa troca continua na sua vida adulta com outras crianças. Há uma circularidade na aprendizagem e na troca de saberes nas religiões de matriz africana, que permeiam o conhecimento e a aprendizagem. Essa troca com seus pares e adultos nas culturas infantis são produções coletivas e criativas que se integram no modelo de teia global


Bergo e Gomes (2018) destacam que, em um terreiro de Belo Horizonte, as crianças eram reconhecidas como sujeitos de fala e sensibilidade espiritual, ocupando um lugar privilegiado no processo de aprendizagem, visto que sua percepção aguçada era compreendida como proximidade maior com o mundo espiritual.


No Brasil, a infância negra e periférica frequentemente é marcada por desigualdades e processos de exclusão. Nos terreiros, porém, há uma ressignificação desse lugar: a criança é reconhecida como detentora de saberes espirituais e sociais. A prática religiosa, nesse sentido, é também um espaço de resistência simbólica, em que valores de solidariedade, ancestralidade e dignidade são reafirmados.

Ao vivenciar a Umbanda, a criança aprende não apenas rituais religiosos, mas também formas de existir em sociedade pautadas no respeito, na diversidade e na superação de estigmas.


Em geral, em muitos terreiros de Umbanda, a categoria infância é vista com um tempo de preparação para o médium adulto. Neste sentido, é necessário que se amplie o campo de pesquisas sobre a infância na Umbanda e no Candomblé, pois os estudos apontam que as crianças ainda sofrem um apagamento do olhar adultocêntrico, o qual nega que elas existam nessas religiões e que construam suas culturas nelas.


Em relação ao questionamento de ser possível criar atividades para crianças sobre a Umbanda sem o caráter de catequese, penso que sim. É claro que estas atividades precisam ser lúdicas e estarem apoiadas em princípios filosóficos alinhados à tradição de matriz africana bem como objetivos gerais e específicos que traduzam o comprometimento com o compartilhar saberes e práticas ancestrais.


Na Casa da Jurema, as crianças que vão às sessões têm uma atenção especial. Em geral, podem ajudar na sessão caso queiram, ou brincar livremente ( sob os olhares de um médium nos espaços do terreiro); durante a sessão ou no intervalo, são oferecidas algumas atividades relacionadas àquela sessão do dia no terreiro: pintura, desenho, confecção de objeto ritualístico do Orixá ou entidade louvada, leitura de histórias, músicas e outras atividades. Até mesmo em nossa rede social do Instagram, sugerimos livros infantis com temáticas variadas, mas que privilegiem um saber afro—indígena, que possibilitem as crianças a conscientização racial e o olhar respeitoso não só para a nossa diversidade cultural como também para todas as crenças e não crenças religiosas em nosso país. Acredito que, tal como nos disse Mãe Stella em seu livro Epé Laiyé- terra viva, “quem sabe eu não plante uma árvore que ajude as crianças terem vez, e voz, na Umbanda e tenham por ela amor e respeito.


Portanto, a presença da criança na Umbanda evidencia como a religião pode constituir-se como um lugar de aprendizagem plural, no qual espiritualidade, cultura e vida social se entrelaçam. Nos terreiros, a criança não é vista apenas como ser em formação, mas como sujeito ativo, capaz de aprender e ensinar. Esse aprendizado vai além dos conteúdos escolares: envolve valores éticos, experiências comunitárias e construção identitária. Assim, a Umbanda, enquanto prática religiosa, contribui significativamente para a formação integral da criança, oferecendo um espaço de pertencimento e resistência cultural.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 BERGO, R. S.; GOMES, A. M. R. Infância e aprendizagem em um terreiro de Umbanda. 31ª Reunião Brasileira de Antropologia, 2018.

BERGO, R. S. Tese de doutorado: Quando O SANTO chama: O terreiro de umbanda como contexto de aprendizagem na prática. UFMG, Belo Horizonte, p.249, abr.2011.

CAMPELO,M.M.; MONTEIRO,A. Mediunidade e iniciação: notas sobre a iniciação de crianças na umbanda. Rev. NUFEN vol.9 no.1 Belém jan. 2017. Disponível em:

GUTMAN, C. R. Pesquisas e relatos das culturas infantis na Umbanda e Candomblé:2011 a 2016. Revista Calundu – vol.2, n.2, jul-dez 2018. Disponível em:

LAVE,J; WENGER, E. Situated Learning: Legitimate Peripheral Participation. Cambridge: Cambridge University Press, 1991.

MARTINS, J. R.; BAIRRÃO, J. F. M. H. A criança celestial: perambulações entre Aruanda e o inconsciente coletivo. Fractal: Revista de Psicologia, v. 21, n. 1, 2009.

NASCIMENTO, R. N. A.; ARAÚJO, W.B. Aprendizados na Umbanda: saberes multiculturais e sociabilidades religiosas do “ser criança”. Eccos – Revista Científica, n. 61, 2023.

SARMENTO, M. J. “Gerações e Alteridade: Interrogações a partir da Sociologia da Infância”. Educação e Sociedade, Campinas, v. 26, n. 91, p. 361-378, mai. / ago. 2005.




Yatemy Regina de Tobossy - AxéNews

Mãe Lelê

Mãe Lelê, Leizimar G. da Costa e Silva, está na Umbanda há mais de 50 anos. Foi consagrada como sacerdotisa de Umbanda no dia 23 de abril de 2011 no Centro Espírita São Jorge de Ronda, fundado em 1975 por sua mãe carnal, D. Lais, e também sua mãe na Umbanda. E sendo assim, valoriza o lugar de onde veio; lugar onde construiu a sua identidade e aprendeu a viver e a conviver com o sagrado de forma respeitosa e livre. [+ informações de Mãe Lelê]


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