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Um novo ano à luz da Dikenga: cuidar do centro para seguir

  • Foto do escritor: WR Express
    WR Express
  • 6 de jan.
  • 4 min de leitura

Por: Pai Sid

06/01/2026 | 08:30


O início de um novo ano costuma ser anunciado com pressa, promessas e metas, sonhos que lançamos ao vento. Em meio a tantos estímulos, ruídos e distrações que disputam nossa atenção, corremos o risco de nos afastar do que é essencial. A filosofia bantu e os saberes de terreiro nos convidam a um gesto mais profundo: antes de avançar, é preciso retornar. Retornar ao centro. Retornar ao eixo. Retornar ao Didi.


A Dikenga, símbolo ancestral kongo que organiza os ciclos da vida, nos ensina que o tempo é circular e que a vida se move em ciclos contínuos de nascimento, amadurecimento, responsabilidade, declínio, transformação e renascimento. Não há ruptura absoluta, apenas deslocamentos. E todo deslocamento saudável começa no centro, dentro de nós — exatamente o ponto que tantas distrações tentam nos fazer esquecer.



Na cosmovisão bantu-kongo, Didi é o centro interior, o ponto focal onde se concentram as forças vitais — o ngolo zanzingila, a força que gira, o movimento da energia que anima a existência. Didi não é apenas um lugar simbólico: é o coração do ciclo da vida, a essência que mantém o ser humano em equilíbrio consigo, com a comunidade, com a ancestralidade e com o mundo. Quando nos afastamos desse centro, não é apenas o indivíduo que se desorganiza, mas também os laços que sustentam a vida coletiva.


Pelo olhar de quem vive a comunidade, pode-se dizer que o Didi é o chão invisível onde o espírito pisa, onde o Muntú se firma, onde a vida se organiza. É dali que a pessoa age quando está alinhada com sua natureza mais profunda. Quando o Didi está firme, o caminhar é seguro; quando ele se enfraquece, a mente se agita, o corpo se cansa e o espírito se confunde — especialmente quando nos deixamos capturar por distrações que nos afastam de nós mesmos, do cuidado com a comunidade, dos nossos sonhos e dos sonhos que os ancestrais têm para todos nós.


O Didi pode ser compreendido como o dikenga dia moyo, o círculo interior da vida que cada pessoa é chamada a descobrir ao longo de sua caminhada espiritual. A filosofia bantu ensina que o universo não está separado do ser humano: tudo está interligado, tudo responde a tudo. Viver bem não é dominar o mundo, nem se perder em excessos e aparências, mas habitar o próprio centro, respeitando os ritmos da vida e as relações que criamos.


Quando o indivíduo age distante do Didi — movido apenas pela ansiedade, pela vaidade, pela comparação, pelo excesso de exposição ou pelas distrações que fragmentam a atenção — ele se afasta do Kinenga, o equilíbrio. Esse afastamento se manifesta como sofrimento emocional, angústia, irritação constante, sensação de vazio ou perda de sentido. A saúde mental, nessa visão, não se rompe de repente: ela se desgasta quando o centro é negligenciado e quando permitimos que o que é externo conduza nossas escolhas mais profundas.


A Dikenga nos ensina que cada etapa da vida pede uma postura específica. Há tempo de falar e tempo de silenciar. Tempo de agir e tempo de recolher. Tempo de aparecer e tempo de desaparecer para se recompor. Respeitar esses tempos é uma prática direta de cuidado psicológico e espiritual, sobretudo em um mundo que nos convoca o tempo todo a produzir, expor e reagir, mesmo quando o que precisamos é escutar e preservar ou sermos acolhidos.


Os terreiros sempre souberam disso. O fundamento, por exemplo, é guardado — não como segredo, mas como parte de um processo que une fé e maturação. Guardar um sonho, não contar o plano antes da hora, respeitar o tempo do corpo e da emoção, não se deixar dispersar por opiniões vazias e buscar as verdadeiras certezas são formas concretas de retornar ao Didi e preservar a própria saúde mental, de maturar o espírito para recomeços...


Mas é importante dizer que equilíbrio não significa ausência de conflito. Vida e morte, alegria e tristeza, luz e sombra coexistem. O que preserva a saúde mental não é negar a dor, mas não permitir que ela expulse o indivíduo do seu centro. Quando estamos ancorados no Didi ou a Dikenga, conseguimos atravessar as tensões da vida sem nos perder de nós mesmos, sem abandonar nossos propósitos e sem trair os sonhos que carregamos.


Positivo e negativo não são opostos morais, mas distâncias em relação ao centro. Reconhecer essas distâncias é sabedoria, ajustar a rota, o giro, a circularidade, é autocuidado. É também um ato de responsabilidade com a própria história, com a história dos que vieram antes de nós, com a história coletiva.


Nenhum Didi se sustenta sozinho. Por meio dos saberes de terreiro, aprendemos que o equilíbrio individual depende do coletivo: quando o mais velho orienta, quando a mãe e o pai acompanham, quando a comunidade sustenta. Pedir benção, ouvir conselho, aceitar limites e compartilhar responsabilidades são gestos simples que protegem a mente, fortalecem o espírito e nos ajudam a não nos perder nas distrações do caminho, retornando sempre ao centro.


Começar um novo ano à luz da Dikenga é reafirmar essa ética comunitária: ninguém atravessa a gira da vida isolado. O novo tempo não nasce no calendário, mas no alinhamento entre pensamento, emoção e ação. Voltar ao Didi é um gesto silencioso, profundo e transformador, onde reconhecemos nosso lugar na gira da vida e agimos com sabedoria a partir daí.


Que este novo ano seja menos sobre correr atrás do futuro e mais sobre habitar a si mesmo com a Sabedoria Ancestral. Que saibamos preservar nosso centro, o centro das nossas comunidades e o centro dos nossos sonhos. E que saibamos retornar a Dikenga sempre que o mundo, com suas distrações, tentar nos puxar para fora do eixo.



Pai Sid - AxéNews

Pai Sid

Pai Sid Soares é pai pequeno do CENSG - Centro Espírita Nossa Senhora da Guia em Volta Redonda RJ. Co-presidente da Comissão de Terreiros Mojuba, no Sul Fluminense que realiza um trabalho de fomento das políticas públicas para o povo de santo. [+ informações de Pai Sid]



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