Tudo o que você sente é espiritual ?
Por: Pai Marcos

✅ 1/11/2026 | 06:05
Existe uma coisa que venho observando há muitos anos dentro da religião e que, sinceramente, acredito que precisamos conversar mais sobre ela: essa necessidade que algumas pessoas têm de encontrar uma explicação espiritual para absolutamente tudo o que acontece em suas vidas.
Se acordou cansado, é demanda. Se está triste, é energia negativa. Se teve uma discussão com alguém, é porque alguma entidade está tentando avisar alguma coisa. Se está com dor de cabeça, alguém está sugando sua energia. Se não consegue dormir, tem espírito por perto. Mas será que é sempre assim?
Será que tudo aquilo que sentimos, pensamos ou vivemos precisa necessariamente ter uma origem espiritual? Ou será que, em alguns momentos, estamos tão preocupados em encontrar uma explicação espiritual que esquecemos de olhar para aquilo que está acontecendo diante dos nossos olhos?
Nos últimos dois artigos que escrevi, falei sobre a importância de manter nossa fé através do conhecimento e sobre como, quanto mais aprendemos, menos certezas absolutas deveríamos ter. E acredito que o assunto deste mês seja justamente uma consequência dessas reflexões.
Porque estudar, aprender e amadurecer espiritualmente também deveria nos ensinar uma coisa muito importante: nem tudo é espiritual.
E dizer isso não significa negar a existência da espiritualidade, muito menos diminuir a importância das entidades, dos Orixás ou dos fundamentos da nossa religião, significa compreender que somos seres humanos, com um corpo físico, uma mente, emoções, responsabilidades, problemas e limitações. E tudo isso também influencia diretamente aquilo que sentimos.
Às vezes a pessoa está esgotada porque trabalha demais, dorme pouco, não se alimenta corretamente ou está passando por um período difícil. Mas, em vez de olhar para essas possibilidades, começa a procurar uma explicação spiritual, e aí vem o banho, a defumação, a firmeza, a consulta, o descarrego e, muitas vezes, a pessoa continua exatamente da mesma maneira. Por quê?
Talvez porque aquilo que ela esteja vivendo não precise de um descarrego, mas de descanso. Talvez não precise de uma firmeza, mas de uma conversa. Talvez não precise de uma consulta espiritual, mas de acompanhamento médico ou psicológico e uma coisa não precisa excluir a outra.
Agora, existe uma questão ainda mais delicada nessa história: a responsabilidade de quem oferece essas explicações, porque, convenhamos, não é difícil encontrar alguém dentro da religião que tenha uma resposta espiritual pronta para absolutamente tudo.
A pessoa chega dizendo que está com dificuldades no relacionamento e alguém já afirma que fizeram um trabalho para separar o casal. Está enfrentando problemas financeiros e logo aparece uma demanda. Está emocionalmente fragilizada e alguém garante que existe um espírito obsessor acompanhando seus passos. E eu pergunto: com base em quê?
Em que momento uma impressão, uma interpretação ou uma suspeita passou a ser tratada como uma verdade absoluta? E pior, quantas vezes essas afirmações são feitas por pessoas que sequer conhecem profundamente a realidade de quem está procurando ajuda?
Não podemos esquecer que uma pessoa que procura um terreiro muitas vezes está fragilizada, assustada, confusa ou simplesmente tentando compreender aquilo que está vivendo. E uma palavra dita por alguém que ocupa uma posição de autoridade espiritual pode ter um peso enorme na vida dela.
Imagine alguém que já está enfrentando ansiedade, medo ou dificuldades para dormir e escuta de um dirigente que está sendo perseguido espiritualmente, será que estamos ajudando essa pessoa ou aumentando ainda mais seu sofrimento? E se não for nada disso? E se ela estiver enfrentando uma condição de saúde, um problema emocional ou simplesmente um momento difícil da vida?
Será que, em nossa vontade de oferecer uma resposta espiritual, não estamos deixando de enxergar o ser humano que está diante de nós?
Eu acredito na espiritualidade, dedico minha vida à Umbanda e tenho experiências que fazem parte da minha caminhada religiosa. Mas isso não significa que eu deva abandonar minha capacidade de observar, questionar e procurar outras explicações para aquilo que acontece comigo ou com as pessoas que procuram nossa casa, aliás, acredito que quanto maior a responsabilidade espiritual de alguém, maior deveria ser também o cuidado com aquilo que essa pessoa afirma.
Um Pai ou uma Mãe de Santo não precisa ter resposta para tudo. Não precisa transformar cada sofrimento em demanda, cada sensação em mediunidade ou cada dificuldade em interferência espiritual.
E, principalmente, não deveria ter vergonha de dizer: “Eu não sei.” Foi justamente sobre isso que escrevi no mês passado. Quanto mais aprendemos, mais percebemos o tamanho daquilo que ainda não sabemos, e reconhecer nossos limites também deveria fazer parte da responsabilidade de quem orienta espiritualmente outras pessoas.
Existe ainda outro ponto que considero importante: quando atribuímos tudo à espiritualidade, corremos o risco de deixar de assumir a responsabilidade por nossas próprias atitudes, se discutimos com alguém, foi uma energia negative, se tomamos uma decisão errada, foi uma influência spiritual e se magoamos outra pessoa, estávamos desequilibrados espiritualmente.
Mas onde fica nossa responsabilidade nisso tudo? Será que não estamos utilizando a espiritualidade como uma justificativa para comportamentos que precisamos reconhecer e modificar?
Nem sempre existe uma entidade por trás de uma atitude. Às vezes existe apenas uma pessoa que precisa aprender a controlar suas emoções, reconhecer seus erros, pedir desculpas e mudar a maneira como trata os outros, e isso também faz parte da evolução espiritual.
A Umbanda pode nos oferecer acolhimento, orientação, ensinamentos e ferramentas para nossa caminhada. Mas ela não deveria ser utilizada como uma maneira de fugir da realidade ou transferir para o mundo espiritual responsabilidades que pertencem a nós.
Ter fé não significa deixar de pensar. Confiar nas entidades não significa abandonar o discernimento. E reconhecer que determinada situação pode ter uma explicação física, emocional ou psicológica não torna ninguém menos espiritualizado.
Precisamos também compreender que espiritualidade e cuidados com a saúde não são inimigos. Procurar um médico, fazer terapia, cuidar da alimentação, descansar e reconhecer nossos próprios limites não representa falta de fé, da mesma forma, não precisamos abandonar nossas crenças para reconhecer a importância da ciência e do conhecimento humano.
Uma coisa pode caminhar ao lado da outra, desde que saibamos respeitar os limites de cada uma.
E talvez esse seja um dos grandes desafios dentro da nossa caminhada religiosa: aprender a diferenciar aquilo que acreditamos, aquilo que interpretamos e aquilo que realmente sabemos, porque existe uma diferença enorme entre acolher alguém espiritualmente e afirmar, sem elementos suficientes, que sabemos exatamente o que está acontecendo com essa pessoa.
A primeira atitude pode trazer conforto e orientação. A segunda pode gerar medo, dependência e até afastar alguém dos cuidados de que realmente precisa.
Por isso, antes de perguntar qual entidade está provocando aquilo que você sente, talvez seja importante perguntar como você está cuidando de si mesmo, da sua saúde, das suas emoções e da sua vida.
E antes de oferecer uma explicação espiritual para o sofrimento de alguém, talvez nós, dirigentes e médiuns, também precisemos aprender a ouvir um pouco mais e afirmar um pouco menos.
Nem tudo que você sente é spiritual e nem tudo que você não consegue explicar precisa ser atribuído à espiritualidade.
Talvez a verdadeira maturidade espiritual esteja justamente em compreender que podemos ter fé, respeitar nossas entidades, seguir nossos fundamentos e, ainda assim, reconhecer que nem sempre sabemos a resposta.
Porque acreditar no espiritual não significa abandonar o discernimento.

Pai Marcos
Pai Marcos, fundador e zelador do Terreiro de Umbanda Estrela Guiada UK - TUEG UK, é um homem com uma rica experiência no mundo espiritual. Desde cedo, teve a oportunidade de explorar diversas vertentes, como o Catolicismo, Kardecismo, Mesa Branca, Reiki, Umbanda e Umbandaime. Essa jornada lhe proporcionou um vasto conhecimento e uma visão abrangente sobre diferentes práticas e filosofias espirituais... [+ informações de Pai Marcos]
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