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São Jorge e Ogum no feriado de 23 de abril: confluência religiosa, relações de poder e conflitos no Rio de Janeiro

  • há 1 dia
  • 4 min de leitura

Por Ana Paula Miranda

22/4/2026 | 17:15


O calendário brasileiro possui muitos feriados religiosos, mostrando a ligação histórica entre Estado e religião católica. Assim, a organização oficial do tempo incorpora referências religiosas em sua estrutura.


Constata-se uma predominância de datas religiosas, especialmente no âmbito municipal, onde a instituição de feriados relacionados a santos padroeiros é amplamente observada, o que resulta em uma distribuição mais descentralizada e em maior capilaridade local, na qual devoções específicas ganham reconhecimento jurídico.


Dessa forma, há maior número de feriados religiosos, em virtude da sua proliferação entre os municípios, ao passo que os feriados políticos se mostram menos frequentes e concentram-se principalmente em nível nacional, associados a eventos históricos e à consolidação do Estado.



Entre os estados que definem feriados religiosos para santos, existe apenas um feriado estadual claramente dedicado a um santo: o de São Jorge no Rio de Janeiro. Nesse dia, 23 de abril, mais de um milhão de pessoas participam de celebrações em igrejas, terreiros, ruas, escolas de samba e casas. Este evento vai além de uma simples data religiosa; ele estrutura diversas práticas religiosas, interações sociais, deslocamentos e manifestações públicas da religião.


Sob uma perspectiva antropológica, a força dessa data não pode ser reduzida à devoção ao santo, englobando a formação de vínculos de pertencimento, a ocupação dos espaços urbanos e a relação entre diferentes dimensões da vida social. São Jorge, nesse contexto, constitui uma figura que sintetiza experiências marcadas por incerteza, luta, violência e desigualdade, operando como proteção e mediação no cotidiano. Cabe destacar que esse feriado foi instituído inicialmente no âmbito do município do Rio de Janeiro, em 2006. Em 2008, a data foi elevada a feriado estadual.


No Rio de Janeiro, a devoção muitas vezes se conecta ao orixá Ogum, criando uma ligação entre São Jorge e Ogum, na qual não fica claro quem influencia quem. Como já expliquei em outro artigo desta coluna (Religiões em Encontro: Sincretismo ou Confluência e Resistência?), não devemos considerar essa relação como simples fusão ou equivalência. Prefiro enxergá-la como uma confluência, ou seja, uma interação entre repertórios religiosos distintos que não se misturam totalmente, mas se atravessam e dialogam entre si.


Essa confluência revela, de um ponto de vista singular, que as fronteiras entre o político, o religioso e o secular são permeáveis e não se apresentam como espaços totalmente opostos. É justamente devido a essa permeabilidade que a ligação entre São Jorge e Ogum prospera no Rio de Janeiro, principalmente em práticas religiosas como umbanda e candomblé. Isso ocorre porque, para os povos de terreiro, esse feriado representa o reconhecimento da importância da religiosidade em seu modo de vida.


Ao examinar a relação entre São Jorge e Ogum, é importante observar como poderes religiosos e seculares militarizados se conectam, especialmente em lugares onde predominam violência e grupos armados. Nesses contextos, tanto membros das forças públicas quanto de organizações criminosas recorrem a São Jorge e/ou Ogum como fontes de proteção, força e legitimidade para suas ações. Essas práticas não são periféricas; elas fazem parte das relações de poder existentes e revelam como o aspecto religioso permeia dinâmicas de conflito. Além disso, evidenciam o papel político das lideranças religiosas nesses territórios, que reconstroem o cotidiano em meio a uma estrutura marcada pela violência.


Nesse contexto, Ogum e São Jorge são utilizados por diferentes atores — grupos armados, políticos e comunidades religiosas. A criação do feriado surgiu num cenário de crescente exaltação de São Jorge como figura pública religiosa, apresentada como exemplo de moralidade cristã a partir de suas virtudes militares e guerreiras. Essa valorização não é nova nem inédita. Em Portugal, São Jorge foi o principal patrono oficial do país até 1640, protetor dos exércitos, guardião das fronteiras e figura associada ao triunfo militar do cristianismo. No Rio de Janeiro, sua presença contemporânea se reinscreve em outros circuitos, tornando-se também patrono de forças policiais, bombeiros e escolas de samba e circulando em diferentes esferas da vida social.


Ogum e São Jorge são mobilizados como figuras de “guerreiros”, não apenas como referência simbólica, mas como modelos de ação que orientam práticas e decisões no cotidiano. A “força” atribuída ao orixá ou ao santo não é entendida como algo abstrato, mas como uma capacidade efetiva de enfrentar situações concretas — conflitos, riscos, dificuldades. Nesse sentido, a relação entre santos e devotos não pode ser reduzida a um modelo contratual, como se fosse apenas uma troca de promessas.


Trata-se de um vínculo que se realiza na prática, produzindo efeitos nas formas de agir, interpretar e atravessar experiências, sendo, portanto, gerador de transformações nas trajetórias dos indivíduos. No entanto, essas associações não são homogêneas, Ogum e São Jorge não são vistos como uma coisa só, mas isso não impede que sejam acionados alternadamente ou conjuntamente, conforme os contextos.


A comparação entre diferentes localidades evidencia isso. No estado da Bahia, Ogum é frequentemente associado a São Sebastião, enquanto Oxóssi é associado a São Jorge. Já no Rio de Janeiro, ocorre o inverso: São Jorge é associado a Ogum, e São Sebastião a Oxóssi. Essas variações reforçam que não há um padrão único de significados, mas formas situadas de construção dessas relações.


A institucionalização do 23 de abril como feriado estadual, em 2008, evidencia, portanto, que essa devoção ultrapassa o campo religioso. Quando o Estado oficializa uma prática como essa, ele reconhece sua relevância social, mas também participa de disputas sobre quais expressões podem ser legitimadas no espaço público, especialmente no cenário de crescimento de casos de discriminação religiosa.


Desde 2009 passou-se a noticiar que a celebração do 23 de abril também evidencia tensões entre grupos religiosos1 . Casos recentes de destruição de imagens de São Jorge e ataques a espaços religiosos (católicos e afrorreligiosos) mostram que os responsáveis pelas agressões passaram a direcionar seus ataques de forma unificada, combatendo tanto símbolos católicos quanto afro-brasileiros. Com o aumento da visibilidade dessas manifestações religiosas, os conflitos cotidianos ficaram ainda mais evidentes. Isso torna claro que essa data passou a destacar também as práticas de resistência e resiliência da população fluminense.





Joana Bahia - AxéNews

Ana Paula Mendes de Miranda

Doutora em Antropologia (USP); Professora da Universidade Federal Fluminense; Coordenadora do Ginga; Pesquisadora do INCT Ineac.




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