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Resgate ancestral a partir das religiões de matrizes Afrodiaspóricas - as escrevivências de uma filha de santo

há 1 dia
4 min de leitura

Por: Iyalorixá Adriana Ty Oyá com Vitoria Rosa, sua filha de santo

Foto: Bea Domingos
Foto: Bea Domingos

✅ 23/7/2026 | 17:05


Dar voz é romper o silêncio. É devolver à palavra aquilo que a história tentou arrancar de nós.


Este texto nasce da voz de uma filha de santo que não observa a ancestralidade de fora: ela a vive, a carrega e a reivindica. Sua fala parte de um corpo, de uma fé e de uma memória atravessados por séculos de racismo, colonialismo, intolerância religiosa e apagamento dos saberes de povos negros e indígenas.


Falar em resgate ancestral nas religiões afroindígenas e diaspóricas não é falar de um passado distante. É enfrentar um presente que ainda insiste em negar nossas raízes, desqualificar nossos saberes e criminalizar nossas formas de existir e de cultuar.



Por isso, resgatar não significa simplesmente recuperar o que foi perdido. Significa confrontar quem e quais estruturas produziram o apagamento. Significa nomear a violência, desafiar as narrativas oficiais e romper com a ideia de que nossa espiritualidade precisa ser traduzida, domesticada ou legitimada pelo olhar de quem historicamente nos silenciou.


Nossos terreiros, nossos povos, nossos encantados, nossos orixás, nossas entidades, nossas rezas, nossos corpos e nossas memórias não são vestígios de um passado que ficou para trás. São presença. São resistência. São continuidade.


Pertencer, nesse contexto, é um ato político. É dizer nãoa o apagamento. É recusar a vergonha que nos foi ensinada. É reconhecer os que vieram antes, proteger os saberes que chegaram até nós e assumir a responsabilidade de fazê-los seguir adiante.


Porque ancestralidade não é uma lembrança passiva.


É uma força que nos convoca.

É memória que se levanta.

É identidade que não pede licença.

É resistência que se recusa a morrer.


E é desse lugar — de filha de santo, de herdeira e guardiã de uma memória que tentaram silenciar — que ela escreve.


Agora, que fale quem carrega no corpo a história que tantos quiseram apagar.


Mãe Adriana Ty Oyá


Resgate ancestral a partir das religiões de Matriz AfroDiaspóricas

O pertencimento é uma busca constante da população brasileira. A maior parte das pessoas busca incessantemente se encontrar em um lugar que preencha o vazio de não pertencer a lugar nenhum. Isso acontece, porque vivemos historicamente, de forma intencional, um apagamento de nossas raízes e das heranças que fizeram de nós as pessoas que somos hoje.


Falar sobre essa necessidade de pertencer é algo que me move enquanto uma pessoa que busca superar esse apagamento de forma a fazer ter sentido estar e ocupar esse território. É preciso ter consciência de que o pertencimento é um processo, não é como se em um dia acordássemos e nos sentíssemos como se tudo fizesse sentido. Esse é o lugar que as religiões de matriz afrodiaspóricas ocupam na minha vida e na vida de muitas pessoas.


O solo sagrado de um terreiro é a conexão com nossas vidas ancestrais e com as vidas que foram perdidas tentando manter esse solo vivo. Ao aprender cada fundamento, ao trocarmos a benção, nos momentos de troca com cada entidade, cada Orixá, sentimos a vida em nosso corpo nos mostrando que ancestralidade de nossos povos nos acompanha a cada passo, o sentimento de solidão diminui e a certeza de que o caminhar é coletivo, a força para seguir em frente se faz presente em nossos corpos. Movimento esse que se amplia quando nos damos conta que, para além da nossa família carnal, pertencemos a uma família espiritual que vibra no mesmo propósito.


Manter esse solo sagrado vivo é assumir um compromisso e a responsabilidade de estarmos em constante resgate ancestral. É preciso revisitar nossas raízes para que possamos ir em sentido contrário às tentativas de apagamento e silenciamento que sofremos de forma imperativa desde os processos de colonização vivenciados nesse solo. Sem contar que ao estarmos no terreiro assumimos o compromisso de nos desprendemos das amarras da vaidade, da individualidade, do egocentrismo, do distanciamento e da soberba, nos tornando assim seres humanos mais empáticos, preocupados com o próximo e priorizando os valores afrocivilizatórios como a circularidade no compartilhamento de saberes, a corporeidade quando o corpo está disponível para doar e receber e quando interligamos nossas energias vitais em prol da memória, religiosidade e comunitarismo que desenvolvemos nas trocas interpessoais.


Honrar os Orixás, as crianças espirituais, os Exus e Pombogiras, os Pretos e Pretas Velhas, Caboclos e Caboclas, é, acima de tudo, reconhecer que esse solo é deles, e é por eles que vamos reivindicar os direitos de manifestarmos nossa fé, a busca pelo estabelecimento da dignidade de pessoas que sofrem com a ânsia de pertencer, é devolvermos para esse solo o que manteve ele de pé até hoje.


Resgatar nosso passado a partir das religiões de matriz afrodiaspóricas é a melhor forma para compreendermos o presente e construirmos um futuro de superação das mazelas que atravessam nossos povos de geração em geração.


Vitoria Rosa,

filha de santo de Mãe Adriana ty Oyá



Adriano Cabral - AxéNews

Iyalorixá Adriana Ty Oyá

Nome: Adriana Silva de Santana Data de nascimento 29/01/198; Mulher Negra; Mãe do Antony;  Umbandista e Candomblecista; Naturalidade:  Duque de Caxias / RJ; Nome religioso: Mãe Adriana Ty Oyá; Profissião: Servidora Pública Educadora da Rede Pública de Ensino no Município de Duque de Caxias há 21 anos; Educadora antirracista; Pedagoga e Especialista em Raça, Etnia e Educação no Brasil ... [+ informações da Iyalorixá Adriana Ty Oyá]  



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|| Artigo de Opinião: texto em que o(a) autor(a) apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretações de fatos, dados e vivências. ** Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do AxéNews.

 
 
 

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