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Reportagem Especial: Relatório inédito do Observatório Mãe Beata de Iemanjá revela desafios contra a violência aos povos de terreiro

  • há 16 horas
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Pesquisa transforma registros de denúncias em ferramenta de defesa de direitos

✅ 5/8/2026 | 07:58


Durante séculos, o racismo religioso contra os povos de terreiro foi empurrado para a invisibilidade. Histórias de invasões a terreiros, agressões físicas e verbais, destruição de símbolos sagrados, ameaças, perseguições e discriminações cotidianas permaneceram, muitas vezes, restritas ao silêncio das vítimas. Não porque essas violências não existissem, mas porque raramente eram registradas, sistematizadas ou reconhecidas pelo poder público como expressão de um problema estrutural.


Foi justamente para romper esse ciclo que nasceu o Observatório Estadual Mãe Beata de Iemanjá contra o Racismo Religioso, uma iniciativa pioneira no país criada pela Lei Estadual nº 9.512/2021, de autoria da deputada estadual Renata Souza. Na noite desta terça-feira (4), o Auditório 11 da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), no Campus Maracanã, recebeu representantes do poder público, pesquisadores, lideranças religiosas, movimentos sociais e integrantes dos povos de terreiro para a apresentação pública do primeiro relatório produzido pelo Observatório, consolidando dados coletados entre julho de 2025 e julho de 2026.



O encontro transformou estatísticas em histórias, reafirmou a importância da memória de Mãe Beata de Iemanjá e consolidou um entendimento compartilhado entre os participantes: combater o racismo religioso exige conhecimento, articulação institucional e, sobretudo, a capacidade de ouvir aqueles que historicamente foram silenciados.


Realizado em parceria com a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e com a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos (SEDSODH), o evento apresentou um panorama inédito sobre os casos registrados de racismo religioso no estado, discutiu os desafios enfrentados na produção desses dados e apontou caminhos para fortalecer políticas públicas voltadas à garantia da liberdade religiosa.


Um auditório tomado pela resistência

A cerimônia foi conduzida pela historiadora e comunicadora Pâmela Carvalho, que destacou o significado daquele encontro antes de convidar as autoridades para compor a mesa.


Participaram do debate o coordenador-geral do Observatório e professor da Faculdade de Educação da UERJ, Gustavo Coelho; a professora da PUC-Rio e coordenadora do Núcleo Interdisciplinar de Reflexão e Memória Afrodescendente (NIREMA), Ekedi Thula Pires; o pró-reitor de Políticas e Assistência Estudantis da UERJ, Daniel Pinha; o babalorixá Adailton Moreira Costa; a assistente social e ativista dos direitos humanos Ekedi Lúcia Xavier; a subsecretária de Promoção, Defesa e Garantia dos Direitos Humanos do Estado do Rio de Janeiro, Aline Forasteiro; e a deputada estadual Renata Souza.



Antes mesmo das falas institucionais, o ambiente acadêmico foi tomado pelos sons dos atabaques. Uma apresentação da Orquestra de Ritmos Afro-Brasileira o Despertar dos Tambores exaltou Exu por meio de cânticos tradicionais, conduzindo o público a uma celebração coletiva que reafirmava a espiritualidade como elemento inseparável da identidade dos povos de terreiro.


A força de um legado que ultrapassa a família


Entre os discursos mais emocionantes da noite, o babalorixá Adailton Moreira Costa, filho biológico de Beatriz Moreira Costa, eternizada como Mãe Beata de Iemanjá, lembrou que o legado deixado por sua mãe pertence a toda a sociedade.


| "Eu olho hoje aqui a plateia e vejo pessoas importantes, que foram e continuam sendo minha referência. O legado de Mãe Beata de Iemanjá não é somente da sua família biológica, mas de todos aqueles que lutam contra os racismos, os feminicídios, o genocídio da população preta deste país, a violência contra as mulheres negras, contra a população LGBTQIAPN+ e tantas outras violências pelas quais a gente vem passando."


Ao relacionar diferentes formas de opressão, Adailton situou Mãe Beata para além da condição de liderança religiosa. Sua trajetória, afirmou, ensinou gerações inteiras a resistirem às tentativas de apagamento promovidas por uma estrutura racista.


| "Ela deixou para nós muito mais do que o exemplo de uma religiosa. Ela se tornou uma mulher que nos ensinou a não nos recolhermos diante dessas investidas de uma estrutura racista do nosso país."


Uma política pública construída com o povo de terreiro


Criado por iniciativa da deputada estadual Renata Souza, o Observatório nasce com uma missão inédita: produzir conhecimento qualificado sobre o racismo religioso para orientar ações concretas do Estado. Em sua fala, a parlamentar destacou que o projeto representa uma experiência pioneira no Brasil.


| "O Observatório é uma experiência nova no Brasil, e a gente garantir que esse trabalho também sirva de referência para os demais estados é o nosso desafio."


Segundo Renata, conhecer a dimensão da violência sofrida pelas comunidades tradicionais é condição indispensável para que o Estado deixe de atuar apenas de forma reativa.


| "Vamos ter um diagnóstico mais preciso de como está essa situação, porque isso vai balizar as políticas públicas de enfrentamento ao racismo religioso, mas também de promoção de uma política para a liberdade religiosa."


Para a deputada, trata-se de uma conquista que extrapola os povos de terreiro.


| "É uma grande vitória não só para o povo de axé, mas uma vitória da democracia brasileira. O Estado laico garante a liberdade religiosa. Hoje, as religiões de matriz africana sofrem com o cerceamento e não têm a mesma liberdade que as outras religiões."


A avaliação foi compartilhada por Pai Dário, que destacou o significado político da iniciativa ao enfatizar que a produção de dados precisa estar conectada às próprias comunidades afetadas.


| "Costumo dizer que é muito importante a gente ter um Observatório com o nome da Mãe Beata de Iemanjá. Na verdade, é política pública acontecendo para quem precisa de política pública."



Pai Dário lembrou ainda sua preocupação quando o projeto começou a ser estruturado.


| "Quando isso fica na mão da universidade, nem sempre a gente tem acesso a tudo. E, graças aos Orixás, foi uma mulher preta que estava no comando do Observatório, Thula Pires. Então, a gente está aqui agora para ver os resultados. Mas, para mim, já é um grande resultado."


Para ele, a iniciativa representa a produção de conhecimento comprometido com a transformação social.


| "Uma emenda parlamentar junto com uma deputada preta para um Observatório que vai nos dar dados do nosso povo, sobre o nosso povo, para que a gente continue combatendo e enfrentando a intolerância e o racismo religioso."


Muito além das estatísticas


Ao apresentar oficialmente o relatório, Ekedi Thula Pires fez questão de esclarecer que o documento não representa um ponto de chegada, mas o início de um processo permanente de construção coletiva.


| "Hoje a gente chega a um momento muito importante, que é o momento de prestação de contas pública, sobretudo para os povos de axé, apresentando os resultados das pesquisas feitas ao longo do último ano."


Segundo ela, a missão do Observatório vai muito além da produção de números.


| "O Observatório tem como uma de suas principais missões tentar identificar, articular e sistematizar dados referentes ao racismo religioso. E, a partir desses dados, conseguir influenciar a incidência política e a formulação de políticas públicas para a proteção dos povos e comunidades de terreiro."


Mas produzir esse retrato revelou um desafio que poucos imaginavam. Cada órgão público registra denúncias de maneira diferente, utiliza metodologias próprias, armazena informações em formatos distintos e, muitas vezes, sequer disponibiliza os dados de forma pública.


Foi necessário, segundo Thula, mergulhar nesse universo burocrático para compreender as lacunas existentes.


| "A gente teve um ano encontrando uma série de desafios e obstáculos. Cada órgão coleta dados de um jeito, usa metodologias diferentes e disponibiliza, ou não, esses dados de forma muito distinta."


Ela ressaltou que esse diagnóstico revelou uma realidade preocupante: a subnotificação dos casos e a dificuldade de transformar denúncias em respostas efetivas do Estado.


Quando denunciar também significa disputar a narrativa


Ao aprofundar a apresentação da metodologia do relatório, Ekedi Thula Pires chamou a atenção para um aspecto que, muitas vezes, passa despercebido quando se discute o enfrentamento ao racismo religioso: a qualidade das informações registradas nas denúncias.



Segundo ela, um dos maiores desafios enfrentados pela equipe foi compreender como os diferentes órgãos públicos coletam, organizam e compartilham essas informações. O problema, explicou, não está apenas na ausência de integração entre os sistemas, mas também na forma como as próprias denúncias chegam ao Estado.


| "Para além do que cada órgão coleta e traz, a forma como se tem acionado esses órgãos também pode ser aprimorada", afirmou.


Antecipando uma possível interpretação equivocada, Thula fez uma reflexão que mobilizou o auditório.


| "Eu estou querendo inverter a responsabilidade do combate ao racismo religioso para nós?"


Ela própria respondeu imediatamente.


| "Não. Mas estou dizendo que, se a gente quiser mobilizar órgãos públicos para fazer denúncias e querer resultados diferentes dos resultados que temos, precisamos também fazer essas denúncias de outra forma."


Ela explicou que o relatório priorizou os dados produzidos pelos principais canais oficiais de denúncia, entre eles o Disque 100, o Disque Cidadania e a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).


No entanto, ao analisar cada registro, a equipe encontrou um problema recorrente: muitas denúncias chegavam sem informações essenciais para permitir uma atuação mais efetiva do poder público.


| "Quando a gente lê as denúncias, verificamos que não fornecemos as informações. E não podemos pressupor que um Estado racista e violento como o nosso vai atrás dessas informações ou vai tentar ler, a partir do pouco que a gente diz, o tamanho da violência que a gente sofre."


Para Thula, quanto mais detalhada for a denúncia, maiores são as possibilidades de articulação entre os órgãos responsáveis e de responsabilização dos autores das violências.


| "Quanto mais a gente detalha, mais a gente pode exigir articulação dos órgãos públicos."


A pesquisadora ressaltou, entretanto, que isso não significa transferir às vítimas a responsabilidade pelo funcionamento do Estado. Trata-se, segundo ela, de reconhecer que a produção de informações qualificadas também fortalece a luta coletiva por direitos.


Os números contam uma parte da história. As pessoas contam o restante.


Ao assumir a apresentação técnica do relatório, o professor Gustavo Coelho, coordenador-geral do Observatório Estadual Mãe Beata de Iemanjá, fez questão de esclarecer que os dados divulgados representam apenas o primeiro passo de uma pesquisa que continuará sendo ampliada.


Ele explicou que o levantamento reúne denúncias registradas ao longo de todos os meses de 2025 e dos meses de abril, maio e junho de 2026. Segundo Gustavo, o Observatório ainda aguarda informações provenientes do Disque 100 referentes a parte desse período, motivo pelo qual alguns dados permanecem pendentes de incorporação ao estudo.



Além disso, revelou que, poucas semanas antes da apresentação pública, a equipe recebeu os bancos de dados referentes aos anos de 2022, 2023 e 2024. Essas informações, explicou, integrarão as próximas edições do relatório, permitindo uma análise histórica muito mais consistente da evolução do racismo religioso no estado do Rio de Janeiro.


Mesmo assim, o diagnóstico já revela um cenário preocupante. Ao todo, foram identificadas 56 denúncias, das quais 31 apresentavam características compatíveis com racismo religioso.


Dessas 31 ocorrências: 23 foram registradas em 2025, correspondendo a 74,2% dos casos; 8 ocorreram em 2026, representando 25,8%. O mês de fevereiro de 2025 concentrou o maior número de registros, com seis denúncias, enquanto abril e junho de 2026 apresentaram quatro casos cada.


Mas foi justamente ao analisar os detalhes dessas notificações que surgiu um dado ainda mais revelador. Entre os 31 casos, apenas dez vítimas informaram claramente a tradição religiosa à qual pertenciam. Cinco declararam ser do Candomblé. Quatro se identificaram como praticantes da Umbanda. Uma afirmou pertencer à Kimbanda.


Nos demais registros, apareceram expressões como "Matriz Africana", "Casa de Santo", "Barracão", "Macumba", "Filho de Santo", "Culto de Axé", "Templo Religioso", "Seus Guias", "Sua Religião" e até "Nenhuma Religião".



O dado evidencia outro desafio enfrentado pelo Observatório: a ausência de padronização na identificação das tradições religiosas e a dificuldade de reconhecer, nos sistemas oficiais, a diversidade existente entre os povos de matriz africana.


O silêncio institucional também produz invisibilidade


Outra etapa do trabalho revelou uma realidade igualmente preocupante. A equipe do Observatório entrou em contato com todas as prefeituras do Estado do Rio de Janeiro para solicitar informações sobre registros de racismo religioso em seus municípios.


O resultado surpreendeu. Apenas 11 prefeituras responderam ao levantamento. E todas afirmaram não possuir qualquer registro de racismo religioso. Para Thula Pires, a resposta não significa, necessariamente, ausência de violência. Ao contrário, evidencia falhas profundas nos mecanismos de registro, monitoramento e circulação das informações entre os diferentes órgãos públicos.


| "Eu preciso dizer que todas as prefeituras recebem essas denúncias do Disque 100. Não é só o Estado que recebe."


Ela prosseguiu, apontando uma das principais fragilidades identificadas pela pesquisa.


| "Então, temos essa questão dos órgãos não responderem e, quando respondem, é de forma negativa."


É justamente por isso, explicou, que um dos avanços conquistados pelo Observatório é estabelecer um fluxo direto com a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos.


| "Por isso é importante que hoje a gente receba diretamente essas denúncias a partir do momento em que elas chegam à Secretaria. A partir daí, a gente consegue entender qual é o caso, o que aconteceu, como aconteceu e onde aconteceu."


Ao longo de sua apresentação, Thula insistiu em uma ideia que atravessou praticamente toda a noite. Os números apresentados pelo relatório não representam toda a realidade. Na avaliação da pesquisadora, eles são apenas a parte visível de um fenômeno muito maior.


| "O número de denúncias é muito reduzido diante do quadro de racismo religioso que vivemos."


E concluiu com uma das frases mais contundentes do encontro.


| "Não vamos nos contentar com o que as fontes dizem. Se eu continuo o tempo inteiro ouvindo relatos de racismo religioso, e as fontes não me trazem isso, o problema passa a ser meu, que terei que buscar em outros lugares, porque o nosso telefone não para."


A fala sintetizou um dos maiores méritos do Observatório: reconhecer que a produção de dados não pode se limitar aos registros oficiais quando a própria estrutura institucional ainda falha em enxergar a dimensão da violência vivida pelos povos de terreiro.


Quando um número tem nome, rosto e memória


Embora o relatório tenha ocupado o centro das discussões da noite, o encontro foi marcado também pelas vozes de quem, há décadas, constrói a resistência muito antes de existirem estatísticas sobre o racismo religioso.


Sacerdotisas, sacerdotes, pesquisadores e militantes compartilharam experiências que reafirmaram uma compreensão comum: cada denúncia registrada representa uma vida atravessada pela violência, mas também pela coragem de continuar existindo.


Para a sacerdotisa de Candomblé Doné Conceição de Lissá, falar de Mãe Beata de Iemanjá é recordar uma mulher que transformou acolhimento em militância e espiritualidade em instrumento de transformação social.


| "Mãe Beata de Iemanjá foi uma mulher que esteve à frente de seu tempo, na luta, no direcionamento de cada um de nós, porque eu me sinto uma das que aprendeu muito com ela. Foi uma pessoa sensível a toda luta e todo sofrimento que eu mesma sofri em relação ao racismo religioso."



Seu depoimento encontrou eco nas palavras da antropóloga Ana Paula Miranda, coordenadora do GINGA-UFF, que fez uma das reflexões mais contundentes da noite ao lembrar que nenhum levantamento estatístico pode reduzir a dimensão humana da violência.


| "Nós não estamos aqui fazendo pesquisa. Nós estamos aqui ouvindo histórias."


A afirmação provocou um breve silêncio no auditório. Logo em seguida, Ana Paula aprofundou sua reflexão.


| "Por trás de cada número desse Observatório, há uma história de dor. Eu costumo dizer que não precisava de muitos. Para mim, bastava um caso. Bastava uma casa violada. Bastava uma vítima para que o Estado não se fizesse inoperante."


Na avaliação da pesquisadora, a realidade observada nos últimos anos demonstra um agravamento da violência.


| "Se antes a gente estava falando de briga de vizinhos, hoje a gente está falando de assassinatos."



Ao destacar a importância da continuidade do projeto, ela fez um alerta para que os avanços conquistados não sejam interrompidos pelas mudanças políticas.


| "Estamos em período eleitoral, e é muito importante que a gente fique atento a isso. Quem é capaz de fazer junto com a gente? E quem é que vai desfazer tudo aquilo que lutamos para construir? Para mim, esse é o ponto fundamental."


Da universidade ao terreiro, do terreiro à universidade


Entre as manifestações que encerraram o encontro, a fala da Iyalorixá Wanda Araújo simbolizou outro aspecto histórico daquela noite: a ocupação da universidade pelos saberes tradicionais de matriz africana.


Para ela, não se tratava apenas do lançamento de um relatório, mas da consolidação de um espaço de diálogo entre diferentes formas de produção de conhecimento.


| "Primeiro, quero dizer da minha alegria de estar aqui e de esse lançamento do relatório do Observatório acontecer num espaço do cimento, que eu digo que é a universidade."



Em seguida, explicou que levar as discussões dos povos de terreiro para dentro da universidade representa uma conquista construída ao longo de muitos anos.


| "Trazer para dentro da universidade as nossas discussões, as nossas alegrias, os nossos anseios, as nossas possibilidades, realmente é um grande avanço."


Ao olhar para o auditório completamente ocupado, ela recordou o longo caminho percorrido até aquele momento.


| "Até chegar aqui, nós passamos por muitas e muitas etapas. Hoje temos o auditório cheio, com o nosso povo. No nosso jeitinho, a gente sempre tem uma confraternização, e isso muito nos engrandece, muito nos fortalece. Nós somos, de verdade, um povo resistente."


Foi então que sua fala retornou à mulher cuja trajetória inspirou a criação do Observatório.


| "Mãe Beata, matriarca que juntou o matriarcado com a matripotência, que é a criação, que é o acolhimento, que são as nossas invenções, o nosso jeitinho de ser."


A palavra matripotência, evocada por Wanda, parecia sintetizar o espírito do encontro. Ela traduzia a capacidade ancestral de criar caminhos, proteger vidas, reinventar estratégias de resistência e transformar cuidado em força política.


Um Observatório que observa para transformar


Ao final da noite, os gráficos projetados na tela já haviam sido desligados. Os números permaneceram registrados nas páginas do relatório. Mas o que parecia permanecer na memória de quem deixou o Auditório 11 da UERJ era algo impossível de quantificar.


O primeiro relatório do Observatório Estadual Mãe Beata de Iemanjá demonstra que o racismo religioso continua sendo uma realidade persistente no Estado do Rio de Janeiro, marcada pela subnotificação, pela fragmentação das informações e pelas dificuldades institucionais de acolher e responder às denúncias.


Ao mesmo tempo, evidencia que produzir dados é, também, produzir reconhecimento. Cada informação sistematizada rompe um pouco do silêncio que historicamente cercou a violência contra os povos e comunidades tradicionais de matriz africana. Cada denúncia registrada deixa de ser apenas um relato isolado para integrar um diagnóstico capaz de orientar políticas públicas, fortalecer redes de proteção e exigir responsabilidades do Estado.


Não por acaso, o encontro começou reverenciando Exu, senhor dos caminhos e da comunicação, e terminou sob a inspiração de Iemanjá, orixá da maternidade, do acolhimento e da ancestralidade de Mãe Beata.


A conexão entre memória, espiritualidade e resistência também esteve presente em uma das homenagens mais marcantes da noite. Cânticos e danças dedicados a Iemanjá emocionaram o público e reforçaram o simbolismo da orixá que inspira o nome do Observatório e representa a trajetória de uma mulher cuja caminhada se tornou referência na luta contra o racismo religioso. A apresentação, conduzida com a representação de Iemanjá por Yza Diordi, foi embalada pelos toques da Orquestra de Ritmos Afro-Brasileira o Despertar dos Tambores, que conduziu o momento de celebração e reverência à ancestralidade.



Com movimentos, cantos e a força dos tambores, a homenagem transformou o auditório em um espaço de conexão entre espiritualidade, memória e resistência. Entre um momento e outro, a universidade abriu espaço para que ciência, espiritualidade, memória e direitos humanos compartilhassem o mesmo território.



O relatório completo produzido pelo Observatório Estadual Mãe Beata de Iemanjá será disponibilizado ao público a partir do dia 31 de agosto, nos canais oficiais da iniciativa. A publicação permitirá que pesquisadores, gestores públicos, lideranças religiosas, movimentos sociais e toda a sociedade tenham acesso ao diagnóstico integral construído durante o primeiro ano de funcionamento do Observatório.


Ao dar nome, método e continuidade a uma realidade tantas vezes invisibilizada, o Observatório reafirma que enfrentar o racismo religioso não significa apenas contabilizar casos de violência. Significa reconhecer a dignidade de um povo, preservar sua memória e transformar conhecimento em ação.


Porque, como lembrou Ana Paula Miranda ao longo da noite, por trás de cada número existe uma história.


E nenhuma delas pode voltar ao silêncio.

 
 
 
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