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Quem ouve as mães negras? Uma perspectiva de falta saúde mental por adoecimento social

  • há 3 dias
  • 3 min de leitura

Por: Yakekere Katiuscia de Yemanjá

21/5/2026 | 15:21


Há 17 meses nossa comunidade ancestral, localizada aqui na extrema zona oeste do Rio de Janeiro, em Guaratiba, tem realizado em parceria com a ONG Criola para atuação em nome da saúde das mulheres negras Cis e Trans.


E neste mês de celebração a memória das mães não consigo parar de pensar nos impactos que temos vistos à saúde mental das mães negras no nosso território. A tradição ancestral que significa esta que vos escreve é uma tradição étnico-cultural forjada, alimentada, gestada e sustentada por mulheres negras.


Mães negras que vivenciaram na prática e na memória as auguras da travessia transatlântica forçosa e cruel. Mas essas são as mesmas mães que criaram sentido para o que chamamos de esperança. Se hoje posso estar aqui me atrevendo a escrever estas palavras ousadas e cortantes, é porque essas mães nos fizeram vivos e vivas para tal. Elas inventaram um mundo possível para a população negra resistir.



Estas mães foram alimentadas por versos dos ensinamentos de outras mães, aquelas que fazem parte dos muitos mundos que não vemos. E é um desses versos que quero trazer aqui como reflexão e ponto de onde parte a angústia dessa análise.


Segundo os versos de Oseturá, Oxum lava suas joias antes de cuidar de seus filhos e filhas. Nós aqui em nossas caminhada de cuidado com as mulheres temos estes versos no nosso horizonte mais imediato.


Contudo, minha questão aqui enquanto lugar de saúde é como a sociedade branca, cisheteronormativa e patriarcal tem interditado o direitos de nós, mães negras, lavarmos nossas joias! Ora, corpo na nossa tradição não é lugar de pecado, corpo é lugar do sagrada. O corpo de uma mulher negra é um território sagrado, bem

nos ensina doutora Helena Theodoro.


Este corpo negro, negras formas de existir é o que se desenha como joia a ser cuidada. Mas nos relatos que ouvimos durante as formações nas rodas de saúde estão muito longe do que ensina o direito ancestral de cuidado que nossas velhas deixaram para nós como forma mais profunda de resistência.


E logicamente não podemos eximir de culpa a construção social racista. Indubitavelmente, ela é a maior propulsora da lógica que coloca o corpo de mulheres negras facilmente na invisibilidade. “Eu nem tenho vontade de estar neste mundo”, uma frase que temos ouvido com frequência em algumas situações. “me sinto perdida, sei lá”, outra voz diz: “não aguento mais sentir dor, estou há anos na fila para cirurgia”, e vemos o choro angustiado, apertado de uma senhora de 67 anos que já 4 espera por uma assistência cirúrgica para seu joelho.


“Sei lá, parece que eu não tenho para onde ir, não sei como cheguei nesse ponto”, fala uma jovem mãe de apenas 21 anos. Essas mulheres a muito custo relatam entre uma dinâmica ou outra dificuldades de se enxergar no acesso a direitos básicos como saúde, educação, cultura. Muitas não querem mais desenvolver perspectivas na vida. O silêncio também é um lugar muito comum, não é que seja confortável, é um

impeditivo de sentir dor.


Qualquer pesquisa no Google vai dar a nítida noção de como anda o adoecimento de mulheres, muito se diz da sobrecarga de tarefas, mas eu correndo o risco da falha, me atrevo a dizer que a questão quando se trata de mulheres negras não é exata e somente sobrecarga.


Longe de reiterar o mito da mulher forte que tudo aguenta que nós colocou a escravidão, mas é preciso dizer que as mães negras têm sofrido da ausência! Da ausência de políticas específicas que olhe a trajetória escravagista que nos colocou no limbo, no vácuo do direito de existir.


E aí,você já ouviu uma mãe negra hoje?

Nota: O projeto da Mulher Negra Cis e Trans tem sido um movimento muito fundamental de escuta e ação. Sem políticas para as mulheres, e sobretudo as mulher negras tão ainda esquecidas não caminharemos para rumos de justiça.




Katiuscia de Yemanjá - AxéNews

Yakekere Katiuscia de Yemanjá

IYÁ Katiuscia de Yemanjá, mulher de terreiro, mãe, Yakekere do Rei Xangô, da família Òbá Labi, corpo-memória cabocla-nordestina ; forjada pela força e o afeto das muitas mulheres. “De anel no dedo e aos pés de Xangô”, mestre em linguagens pela UERJ, professora da educação básica pública e periférica, pesquisadora e defensora dos saberes ancestrais na diáspora. [+ informações de Yakekere Katiuscia de Yemanjá]



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Artigo de Opinião: texto no qual o(a) autor(a) expressa e defende suas ideias, interpretações e vivências sobre determinados temas. As opiniões aqui apresentadas são de responsabilidade do(a) autor(a) e compõem a diversidade de vozes que o AxéNews valoriza e apoia.


 
 
 

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