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Povo de Santo e o direito à defesa

  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

Por: Mãe Jaci

10/8/2026 | 18:42


Há uma armadilha antiga que cerca os povos de terreiro: a de nos convencer de que o debate político é incompatível com nossa espiritualidade. Não é.


Defender a vida, a dignidade e os direitos do nosso povo nunca foi, nem nunca será, uma violação do sagrado. Pelo contrário: é uma extensão dele.


O Candomblé nunca nos ensinou a viver isolados do mundo. Nossos Abassás são espaços de acolhimento, cuidado, partilha e organização comunitária. Antes mesmo de o Estado reconhecer muitos dos direitos que hoje reivindicamos, já cuidávamos da saúde e das doença das nossas crianças, dos nossos idosos, das mulheres, da alimentação de quem tinha fome e da preservação da memória ancestral.


Isso é política, mas a política da vida.



Quem afirma que política não se discute parece não saber que a política já entra em nossas casas de santo todos os dias. Ela entra quando um terreiro é atacado pela intolerância religiosa. Quando uma comunidade perde seu território. Quando faltam políticas públicas para a população negra. Quando jovens negros são mortos antes de realizar seus sonhos. Quando o racismo tenta transformar nossa fé em crime.


Tudo isso nasce de decisões políticas.


Por isso, é ilusório acreditar que a neutralidade nos protege. Ela não protege, apenas nos torna reféns de decisões tomadas por quem não nos conhece, não nos respeita ou, pior, nos combate.


Precisamos perguntar, sem medo: quem defende a liberdade religiosa quando ela é atacada? Quem protege os direitos dos povos de religiões afro-brasileiras? Quem compreende que nossos terreiros são patrimônios vivos, produtores de cultura, educação, solidariedade e cidadania? Quem age para enfrentar o racismo estrutural e promover a reparação histórica?


Essas perguntas não pertencem à direita nem à esquerda. Pertencem ao povo que deseja continuar existindo com dignidade.


Acabei de participar das discussões promovidas pela Coalizão Negra por Direitos, em São Paulo, sobre a iniciativa Quilombo nos Parlamentos, e voltei a refletir sobre uma verdade que considero inescapável: ocupar os espaços de decisão também faz parte da luta do povo preto. Não porque precisemos transformar nossos terreiros em comitês eleitorais, mas porque sabemos que toda ausência política tem consequências.


Quando o povo de santo se cala, alguém fala por nós.


E, muitas vezes, fala contra nós.


Defender direitos não diminui o Axé.


Defender direitos é proteger o Axé.


Se as leis afetam nossos terreiros, se os orçamentos alcançam nossas comunidades, se as decisões dos parlamentos podem proteger ou ameaçar nossa liberdade religiosa, então a consciência política deixa de ser uma opção e passa a ser um dever coletivo.


Que cada pessoa faça sua escolha com liberdade. Mas que ninguém escolha sem memória, sem consciência e sem compromisso com a continuidade da vida do nosso povo.


Porque o Axé que recebemos dos nossos ancestrais não nos foi entregue apenas para ser preservado dentro do barracão. Foi confiado a nós para que também tivéssemos coragem de defendê-lo onde quer que ele esteja ameaçado.


Afinal, quem defenderá o povo de terreiro, se o próprio povo de terreiro abrir mão de participar da construção do seu futuro? Essa é a pergunta que não pode ficar sem resposta.




Ẹ̀gbọ́n Moyses de Ògún - AxéNews

Mãe Jaci

Jacineide Soares é Mãe Jaci, Sacerdotisa do Candomblé, formada em Gestão de Recursos Humanos pela Unigranrio. Empreendedora Cultural, escritora, palestrante, fundadora do Coletivo Colo de Mãe Preta e do CHAO - Centro Humanitário Abebé de Ouro. Presidente estadual do MOVIDADE - Movimento Democrático Afrodescendente pela Igualdade e equidade racial, e dirigente do Terreiro Casa do Abebé de Ouro, no município de Maricá, RJ.


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Artigo de Opinião: texto em que o(a) autor(a) apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretações de fatos, dados e vivências. ** Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do AxéNews.


 
 
 

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