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Por que somos família?

  • Foto do escritor: WR Express
    WR Express
  • 10 de jan.
  • 3 min de leitura

Por: Julio Cesar Rodrigues

✅ 10/01/2026 | 07:44


No universo das religiões de matrizes africanas, a palavra família nunca foi apenas metáfora. Ela é experiência vivida, construída no cotidiano, no cuidado, no conflito e no afeto. Falamos em família de axé, pai e mãe de santo, irmãos e irmãs de santo, avós de santo. Falamos também de padrinhos e madrinhas espirituais. Essas palavras não surgem por acaso. Elas revelam uma forma própria de compreender os vínculos, o pertencimento e a responsabilidade que assumimos uns com os outros.


Somos família porque nos filiamos ao sagrado. Criamos laços com nossos Orixás,

Voduns e Minkisi, aprendendo suas histórias, seus itáns, seus gestos e ensinamentos. Essas narrativas atravessam nossas vidas e nos ajudam a compreender quem somos, de onde viemos e como podemos caminhar. A partir delas, também construímos redes de afiliação humana, no terreiro, no convívio, no trabalho coletivo, nos rituais, nos silêncios e nas partilhas. É nessas relações que nos constituímos como sujeitos. É nelas que aprendemos a existir em comunidade.



Falar de família é falar de afeto. E afeto é tudo aquilo que nos afeta. Nem sempre o

afeto é confortável. Às vezes ele incomoda, provoca, exige revisão de postura, chama para a responsabilidade. Mas afeto não é sinônimo de desafeto. Pelo contrário. É justamente porque somos afetados que crescemos, amadurecemos e aprendemos a cuidar melhor de nós e dos outros.


Nesse caminho, é fundamental lembrar que autoconhecimento é uma tarefa pessoal

e intransferível. Não cabe responsabilizar o Sagrado pelos conflitos que vivemos, como se fossem castigos, punições ou testes de fé. Essa lógica pertence a uma filosofia colonizadora que distorce o sentido da espiritualidade afro-diaspórica. Nossas divindades nos veem, nos compreendem e nos inspiram a buscar o melhor em nós. Elas não nos isentam de responsabilidade. Não justificam comportamentos inadequados, violências ou desequilíbrios. Assumir nossos atos é parte do amadurecimento espiritual.


Uma família de terreiro é, antes de tudo, uma rede de apoio. É lugar de acolhimento

para quem chega sem saber, buscando orientação, cuidado, resposta ou simplesmente abrigo. O chão de terreiro é sagrado porque acolhe a diversidade humana em suas fragilidades e potências. Todos somos falhos. Por isso, disputas de ego não deveriam ocupar o espaço onde o princípio maior é o cuidado. Não se trata de quem faz mais ou melhor, mas de quem está disposto a caminhar junto, louvar o Sagrado em harmonia e colocar o bem coletivo acima das vaidades individuais.


Toda família tem seus conflitos. Isso não é sinal de fracasso, mas de humanidade. O

que diferencia uma família saudável é a disposição para compreender os problemas e buscar soluções, sem a necessidade de apontar culpados. Um terreiro é um organismo vivo, formado por pessoas com histórias, dores, desejos e limites. Aprender a olhar para si de forma honesta e completa é parte essencial dessa construção.


Somos família porque temos laços que nos unem. Mas somos família também

porque deveríamos compartilhar o mesmo objetivo: o bem-estar comum. Somos família

porque dividimos o mesmo chão, que é mais sagrado do que a soma de todos nós. É nesse chão que dançamos em louvor ao Sagrado. É nele que entregamos nossas lágrimas, nossos risos, nossos pedidos, nossos Mutuês ou Orís. É nele que caminhamos, cuidamos e somos cuidados.


A comunidade de terreiro, essa coletividade chamada Família de Santo, é preciosa.

Complexa, desafiadora, imperfeita. Mas profundamente necessária. Ela educa, forma,

confronta e acolhe. Ensina que ninguém cresce sozinho.


Não somos família porque nos afiliamos a uma instituição onde há a figura

hierárquica de um pai ou mãe de santo. E nem também porque existe uma relação com vários pais e mães de cabeça e que, por ventura, alguns são pais, mães, filhos, filhas, irmãos, com nos Itáns.


Somos família porque não somos sós.

Somos família porque somos cheios de axé e ngunzo.

Somos família porque somos abençoados por nossas ancestralidades.

E talvez seja exatamente por isso que seguimos. Juntos. Mesmo quando não é fácil.

Especialmente porque é sagrado.




Julio Cesar Rodrigues - AxéNews

Julio Cesar Rodrigues

Julio é administrador com sólida carreira executiva em marketing e branding, tendo atuado em setores como moda, varejo, educação, publicidade, telecomunicações e TV, onde ocupou posições de liderança em empresas de referência. É doutor e pós-doutor em Psicologia Social, pesquisador sobre comportamento de consumo e produção de subjetividades contemporâneas, com ênfase em estudos de gênero e masculinidades... [+ informações de Julio Cesar Rodrigues]  



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|| Artigo de Opinião: texto em que o(a) autor(a) apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretações de fatos, dados e vivências. ** Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do AxéNews.

 
 
 

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