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Pertencimento não se concede: a importância de reconhecer o lugar histórico do povo negro

há 2 dias
7 min de leitura

Por: Lelo Oliver

✅ 5/11/2026 | 19:07


Pertencer é uma das necessidades mais profundas do ser humano. Todos nós buscamos espaços nos quais nossa história seja reconhecida, nossa identidade respeitada e nossa presença compreendida como legítima. Quando essa possibilidade é negada, não está sendo questionada apenas uma presença individual. Está sendo atingido um sentimento fundamental de existência.


É por isso que discussões sobre pertencimento dentro das religiões de matriz africana precisam ser tratadas com cuidado. Quando o lugar da população negra é questionado em uma tradição profundamente relacionada à ancestralidade africana, o debate ultrapassa a esfera religiosa e alcança questões históricas, culturais e sociais.


A Onirá Editora entende que ninguém deveria precisar justificar sua existência dentro da própria história.



O povo negro tem uma relação histórica profunda com as tradições de matriz africana no Brasil. Essa relação foi construída em meio a processos de violência, deslocamento, resistência e reconstrução cultural. Pessoas africanas foram trazidas para o país contra sua vontade, separadas de suas famílias e submetidas a condições desumanas. Ainda assim, conseguiram preservar elementos fundamentais de suas culturas.


Essa preservação foi uma das maiores formas de resistência da população negra.

Manter uma língua, uma música, uma tradição, uma prática religiosa ou uma memória familiar pode parecer simples quando observado a partir do presente. Mas, em determinados contextos históricos, preservar significava desafiar uma estrutura que pretendia destruir identidades.


As religiões de matriz africana fazem parte dessa história de resistência.

Os terreiros foram e continuam sendo espaços de transmissão de conhecimentos, convivência comunitária e preservação de valores ancestrais. São espaços onde gerações diferentes se encontram, onde os mais velhos ensinam aos mais novos e onde práticas que atravessaram séculos continuam encontrando formas de permanecer.


Quando se questiona o lugar histórico do povo negro nessas tradições, portanto, é necessário lembrar que o pertencimento não começou ontem.


Existe uma memória anterior.

Existem ancestrais anteriores.

Existem comunidades anteriores.

Existem histórias que antecedem a presença contemporânea de qualquer indivíduo.

Essa constatação não precisa ser utilizada para excluir pessoas que não são negras. Pelo contrário. Uma compreensão madura de pertencimento permite reconhecer que diferentes pessoas podem participar de uma tradição sem que isso apague a história de seus povos de origem.


É possível acolher sem apagar.

É possível conviver sem substituir.

É possível participar sem reescrever.


O problema surge quando alguém entende que sua própria presença contemporânea é suficiente para redefinir a origem histórica de uma tradição.

Nenhuma pessoa possui esse poder.

A história não pertence ao indivíduo que chega depois. Ela é construída por gerações.

Essa é uma questão especialmente importante quando falamos sobre o Candomblé. A presença africana não é uma interpretação criada posteriormente. Ela está na própria matriz histórica da tradição. Os conhecimentos preservados pelas comunidades negras fazem parte daquilo que permitiu a continuidade dessas religiões em território brasileiro.


Por isso, negar ou diminuir essa dimensão significa produzir uma narrativa incompleta. A discussão sobre pertencimento também precisa considerar a diferença entre participação e protagonismo histórico. Uma pessoa pode participar de uma tradição. Pode aprender. Pode desenvolver uma relação espiritual profunda. Pode contribuir para uma comunidade. Mas isso não elimina a necessidade de reconhecer quem historicamente construiu e preservou aquele patrimônio. O reconhecimento não é uma ameaça. É respeito.


Quando uma pessoa entra em uma casa antiga, ela não precisa destruir os alicerces para provar que agora também pertence àquela casa. Pelo contrário. Conhecer a história daquele espaço é uma maneira de demonstrar respeito por quem o construiu.

O mesmo princípio pode ser aplicado às tradições religiosas.

Quem chega encontra uma história.

E essa história precisa ser conhecida.

Conhecer não significa submeter-se a uma identidade que não lhe pertence. Significa compreender o território cultural e espiritual no qual está entrando.

Essa compreensão pode produzir relações mais respeitosas e menos marcadas por disputas de legitimidade.


O problema do racismo aparece justamente quando o pertencimento é organizado por uma lógica em que determinadas pessoas são consideradas naturalmente legítimas e outras precisam provar que têm direito de estar ali.

A história brasileira conhece profundamente essa lógica.

Durante séculos, pessoas negras precisaram lutar para ocupar espaços dos quais deveriam fazer parte por direito. Precisaram lutar para estudar, trabalhar, produzir conhecimento, publicar livros, ocupar instituições culturais e ter sua voz reconhecida.

A escrita preta é parte dessa luta.


Não porque toda literatura negra precise falar explicitamente sobre racismo, mas porque a existência de uma produção literária e intelectual negra já representa uma ampliação do espaço de representação.


Quando uma pessoa negra escreve, ela produz memória.

Quando publica, ela amplia a circulação dessa memória.

Quando encontra leitores, estabelece uma ponte entre gerações.


A Onirá Editora reconhece nesse processo uma responsabilidade cultural.

Uma editora pode ajudar a construir espaços de pertencimento. Pode publicar histórias que representem diferentes experiências. Pode colocar autores negros em circulação. Pode contribuir para que leitores tenham contato com perspectivas que durante muito tempo permaneceram fora das principais vitrines editoriais.


Essa missão se torna ainda mais importante quando o debate envolve ancestralidade.

A ancestralidade não é apenas uma referência ao passado. Ela estabelece uma relação entre aqueles que vieram antes, aqueles que vivem hoje e aqueles que ainda virão. É uma corrente. Quando uma geração rompe essa corrente, parte da memória pode desaparecer.


Por isso, preservar a ancestralidade significa assumir responsabilidade com o futuro.

O que será que uma criança daqui a cinquenta anos saberá sobre as tradições de matriz africana se hoje permitirmos que suas origens sejam apagadas?

O que ela encontrará nos livros?

Quem estará registrado como protagonista?

Quais comunidades serão lembradas?

Quais autores serão lidos?

Quais histórias terão sobrevivido?

Essas perguntas mostram que o debate não é apenas sobre o presente.

É sobre o futuro da memória.


A sociedade brasileira precisa ser capaz de construir uma compreensão mais ampla de suas próprias raízes. Isso significa ensinar que a cultura negra não é um elemento periférico da identidade nacional. Significa reconhecer a importância dos povos africanos e de seus descendentes na construção do país.


Significa também compreender que o combate ao racismo não acontece apenas quando se denuncia uma ofensa explícita. Ele também acontece quando se questionam narrativas que colocam a população negra permanentemente em posições secundárias.


O racismo cultural pode aparecer justamente nesse deslocamento.

Quando uma tradição de matriz africana é apresentada sem sua história negra, algo é perdido.

Quando seus símbolos são valorizados, mas suas comunidades são ignoradas, algo é perdido.

Quando sua estética é celebrada, mas sua ancestralidade é questionada, algo é perdido.

Quando pessoas negras precisam provar que pertencem a uma tradição relacionada à própria história, algo está profundamente equivocado.

O pertencimento histórico não é uma concessão.

Não depende da autorização de outra pessoa.

Ele existe porque existe uma trajetória.


Por isso, a Onirá Editora entende que o melhor caminho diante de situações que colocam essa história em risco é ampliar o conhecimento.

Quanto mais se pesquisa, menos espaço existe para versões simplificadas.

Quanto mais se lê, mais difícil é apagar experiências.

Quanto mais autores negros publicam, mais vozes passam a fazer parte da memória coletiva.


Quanto mais histórias são registradas, menor é a possibilidade de que apenas uma versão seja apresentada como verdade absoluta.

A resposta ao apagamento precisa ser construída pela presença.

Presença nos livros.

Presença nas escolas.

Presença nas bibliotecas.

Presença nos espaços culturais.

Presença nos debates.

Presença nas pesquisas.

Presença na memória.


Não se trata de ocupar espaços para retirar outros. Trata-se de garantir que o povo negro não continue sendo colocado como visitante em uma história que também construiu.


A pluralidade religiosa não deve ser confundida com apagamento histórico. A diversidade é possível quando existe respeito às origens.

E respeitar a origem é reconhecer que as tradições de matriz africana carregam uma história marcada por África, diáspora, resistência negra e transmissão ancestral.


Essa história merece ser contada.

Merece ser estudada.

Merece ser publicada.

Merece ser ensinada.

Merece ser respeitada.


A Onirá Editora acredita que ninguém deve ser obrigado a escolher entre sua espiritualidade e sua ancestralidade. Também não acredita que uma pessoa precise apagar sua própria história para acolher outra.


O verdadeiro pertencimento não nasce da negação.

Nasce do reconhecimento.

Reconhecer quem veio antes.

Reconhecer quem preservou.

Reconhecer quem sofreu perseguição.

Reconhecer quem transmitiu conhecimento.

Reconhecer quem escreveu.

Reconhecer quem continua escrevendo.


Quando reconhecemos tudo isso, entendemos que o debate não precisa ser transformado em uma disputa sobre quem é mais legítimo.


A questão fundamental é outra: como podemos garantir que nenhuma história seja apagada para que outra possa ocupar seu lugar? Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes que permanecem. Porque o povo negro não precisa retirar ninguém de seu caminho para afirmar sua própria existência.

Precisa apenas que sua história seja reconhecida como parte fundamental da história brasileira. E quando essa história é registrada, publicada e transmitida, o pertencimento deixa de depender da autorização de quem quer que seja.

A memória passa a falar por si.


E a ancestralidade, quando conhecida, não precisa ser defendida apenas por palavras. Ela se torna presença viva, registrada e transmitida de geração em geração.

É esse o compromisso da Onirá Editora: fazer da palavra um lugar onde a memória negra possa existir sem pedir licença, onde a ancestralidade possa ser reconhecida sem ser transformada em estética vazia e onde o povo negro possa continuar contando sua própria história.


Porque pertencer também é ser lembrado.

E ninguém deve ser apagado da própria memória.




Lelo Oliver - AxéNews

Lelo Oliver

Produtor Editorial, Design Gráfico, Capista e Diagramador. CEO da Onirá Editora e do selo Novos Griôts. Com Vários Livros e Revistas produzidos e Lançados dentro e fora do Brasil. Revista Escrita Sete (Portugal, Frankfurt e em breve Estados Unidos). Foi indicado com dois livros no Aclamado Prêmio Jabuti. Foi indicado com um livro na academia Brasileira de Letras.   [+ informações de Lelo Oliver]



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Artigo de Opinião: texto em que o(a) autor(a) apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretações de fatos, dados e vivências. ** Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do AxéNews.


 
 
 

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