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Perspectivas para reflexões e vivências libertárias

  • 7 de ago.
  • 5 min de leitura

Por: Ademir Barbosa Junior

7/8/2026|10:18


Cada pessoa está aqui para escrever a própria história, não para preencher as lacunas de quem não escreve a sua. O texto, claro, é coletivo e colaborativo, mas isso não retira a autoria e a individualidade de ninguém. Se alguém optar por ser “ghost writer” (escritor fantasma), tenha a certeza de que será mais “ghost” do que “writer”. Mas, se cada um é único (a), por que a história que escrevive também não seria?


Ao abraçar a religião de Umbanda, ninguém entrega o poder pessoal a Orixás, Guias e Guardiões, nem aos dirigentes espirituais. Isso abrange todas as áreas e, portanto, também a vivência do erótico, da sexualidade, a construção da identidiade sexual. Ou seja, não se abole o livre-arbítrio de ninguém. A própria ideia de “abraçar a religião de Umbanda” evoca a cumplicidade do toque, o diálogo e a segurança, que não pode se transformar num esmagador abraço de urso e/ou de traição pelas costas. A ética de nenhum sistema religioso pode estar a serviço da fragmentação da individualidade ou promover o medo, o servilismo, o terror psicológico etc. Quando uma religião se pauta pela violência, em qualquer nível, esvazia-se de espiritualidade.



Dessa forma, espero que este ensaio traga conforto e inquietação. Conforto para libertar do corpo, da mente e do espírito as amarras que nos impedem de viver de formas saudáveis o erotismo e a sexualidade. Inquietação para que ninguém (indivíduo) nem nossos terreiros (coletividades) se fechem para o acolhimento e para o diálogo. Ao contrário, nossos terreiros sejam sempre espaços de diálogo a respeito dessa temática, com vistas ao desenvolvimento da saúde integral. Para tanto, sejam respeitados e debatidos os diversos pontos de vista, bem como se abram as portas para profissionais que acrescentem ao diálogo e às demais ações dentro e fora do terreiro, como psicoterapeutas, médicos (as), terapeutas holísticos, conselheiros tutelares, advogados (as) etc.


O ponto de partida e de chegada das reflexões e vivências é o corpo. Você pode começar a observar-se (sobretudo se existe algum entrave para fazer isso diante do espelho ou no banho) no próprio terreiro. Como o seu corpo interage no ambiente do terreiro, na convivência, nas liturgias? Você se sente à vontade ou não? Consegue identificar as razões e as circunstâncias, possíveis alterações, como expansão ou retração?


Atrelados ao físico, os aspectos emocionais e espirituais o universo da identidade do ser, inclusive no que tange às expressões da sexualidade e do erotismo. Com o tempo, você perceberá que não necessita esforço para ser você mesmo (a), pois deixará sua essência fluir e, com naturalidade, conseguirá se expressar.


O poeta Mário Quintana escreveu que “o segredo é não correr atrás das borboletas… é cuidar do jardim para que elas venham até você.” A Umbanda é como o jardim de Quintana, aberto a borboletas de cores e formatos diferentes, cada qual única. Respeitar os fundamentos e as normas de um terreiro não significa abdicar da individualidade e do livre-arbítrio, e isso vale para a própria identidade sexual. Ninguém é peça ou tijolinho a ser encaixado (a), mas um universo, uma mandala, um caleidoscópio orbitando ao lado de outros, numa coreografia da diversidade.


A força vital que se manifesta no desejo, no erotismo e na sexualidade em geral também é circulação de Axé e, portanto, natural. Uma força tão grande precisa ser vivenciada com equilíbrio, para não sobrecarregar nem faltar. Tanto a superexcitação quanto a apatia nos mantêm estáticos, enquanto a energia retroalimentada e trocada constantemente (e, como vimos, não apenas no ato sexual em si) nos leva a diversas espirais.


Infelizmente sistemas espirituais, religiosos ou filosóficos que rechacem o corpo são tendenciosos. A Umbanda, como repetimos diversas vezes, desde a sua origem, é holística, portanto inclusiva de todas as áreas da vida. Reconhece e valoriza a natureza, logo também a natureza humana. Mitos de diversas culturas, incorporados na literatura e no cinema, apresentam seres espirituais que invejam os seres humanos porque temos sensações específicas do corpo físico. Tais seres carecem dessas experiências, enquanto os seres humanos, desencarnados e em ascensão espiritual, experimentaremos outras tantas sensações espirituais específicas de não-encarnados ou desencarnados. Embora essa visão maniqueísta não seja própria da Teologia de Umbanda, é interessante meditar sobre ela: o ser humano aspira tanto à espiritualidade a ponto de muitas vezes se despir de sua humanidade, tornando-se, daí, menos espiritual(izado).


As espirais são cíclicas e, portanto, cada fase da vida, cada momento do calendário litúrgico de um terreiro, cada alegria e dor vão potencializar/evidenciar corpo, mente e espírito, juntos ou separados. Em nenhum momento isso significará a anulação de um elemento em detrimento de outro. Vale lembrar: poeira debaixo do tapete apenas confere mais poder à poeira e ao tapete, não a quem organiza o cômodo. Somos feitos de vários cômodos, o que inclui salas iluminadas, porões e sótãos. Identificar e reconhecer cada cômodo é exercício de autoconhecimento para toda a vida. O erotismo e a sexualidade vicejam (ou não) em cada um desses cômodos e se manifestam de forma muito criativa e profunda sobretudo nas frestas, nas passagens, nas portas e janelas entreabertas, no “entre” tanto quanto (ou mais do que) no “dentro” e no “fora”.


Entre o moralismo e a permissividade, entre a contenção rigorosa e o esgotamento energético, estão as histórias e memórias de quem ama, sofre, lambe as feridas e olha as cicatrizes como lições e aprendizados. Cada pessoa pode ouvir todas de seu convívio, contudo a voz mais segura é a do seu interior. Quando você a sintoniza com a de Orixás, Guias e Guardiões, percebe o quanto você é único (a).

Desejo (e o desejo é força motriz) que você viva histórias muito profundas e seguras, com parceiros (as) que honrem a própria integralidade e também a sua, o que, naturalmente, inclui os Orixás, Guias e Guardiões que o (a) assistem. O Desejo que habita em mim saúda o Desejo que habita em você!


Saravá Umbanda!

Abraço, gratidão e Axé!




Ademir Barbosa Junior - AxéNews

Ademir Barbosa Junior

Ademir Barbosa Júnior (Pai Dermes de Xangô) é dirigente da Tenda de Umbanda Caboclo Jiboia e Zé Pelintra das Almas (Piracicaba – SP), fundada em 23/4/2015. É Doutor em Comunicação pela UNIP (Bolsa PROSUP/CAPES) e Mestre em Literatura Brasileira pela USP, onde se graduou em Letras. Pós-graduado em Ciências da Religião pelo Instituto Prominas, é professor e terapeuta holístico. Já coordenou fóruns, eventos, festas públicas e outros, congregando Umbanda, Candomblé, Pastoral Afro (Igreja Católica), MPB, Ioga, Dança do Ventre e outros segmentos. Dirigiu 04 curtas-metragens, um deles com a participação da cantora e deputada estadual Leci Brandão. Foi idealizador e presidente da Associação Brasileira de Escritores Afro-religiosos (Abeafro). [+ informações de Ademir Barbosa Junior]


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|| Artigo de Opinião: texto em que o(a) autor(a) apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretações de fatos, dados e vivências. ** Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do AxéNews.

 
 
 

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