top of page

O voto como ebó político

há 12 horas
3 min de leitura

Por: Pai Caio

Foto: Reprodução

20/9/2026 | 08:35


No altar cotidiano da vida brasileira, a política institucional e o sagrado das religiões de matriz africana compartilham uma premissa fundamental: a busca pela transformação da realidade e pela correção dos caminhos. Se no terreiro movimentamos as forças da natureza e a ancestralidade para equilibrar o orí e restituir a saúde, a fartura e a proteção, no espaço público o voto se ergue como um ebó político. É a oferenda coletiva, a ação concreta e ritualizada que, de tempos em tempos, nos concede a oportunidade de reorientar o destino da comunidade, abrindo caminhos de liberdade, vida digna e um futuro sem medo para as gerações que virão.


Durante séculos, a existência dos nossos corpos e terreiros foi marcada pelo imperativo da resistência. Sobreviver ao racismo, à violência patrimonial e ao racismo religioso exigiu uma vigília ininterrupta. No entanto, resistir eternamente não pode ser o único horizonte possível. O voto consciente e engajado é o instrumento que nos permite transitar da mera sobrevivência para o direito pleno de sonhar. É o ato de desatar as amarras estruturais que ainda hoje condicionam o nosso povo à fome, à doença, ao desemprego e à precarização.



Essa missão não nasce no vazio; ela é continuidade. Em cada gira que se abre, incorporamos aqueles e aquelas que nos antecederam — pretos velhos, caboclos, exus e pombagiras, ancestrais que carregam nos pés e na memória os segredos de sobrevivência e travessia. Eles não apenas nos amparam, mas nos legam uma tarefa histórica: garantir a liberdade plena que lhes foi brutalmente negada no passado e que, sob novas e perversas roupagens, continua a ser negada a nós no presente.


É preciso reafirmar com firmeza: todo terreiro é um quilombo! Os terreiros nasceram como territórios livres de acolhimento, preservação de saberes, cura, solidariedade e reinvenção da vida. São, por excelência, espaços políticos de resistência e produção de cidadania. Não há separação entre a fé que acolhe o faminto na assistência espiritual e a ação política que exige comida no prato e políticas públicas de segurança alimentar.


A luta institucional culmina nos fóruns, câmaras e parlamentos onde se decide, diariamente, o orçamento público: a distribuição de verbas para a saúde, o fomento à cultura, a preservação do meio ambiente, a implementação das leis de ensino de história afro-brasileira e a salvaguarda dos direitos humanos. Omitir-se desses espaços é permitir que outros decidam a manutenção do nosso apagamento.


Precisamos ter GENTE NOSSA lá, ocupar e fazer valer nossas vozes, nossas presenças e nossa autoridade nesses espaços de decisão. Transformar o voto em ebó político é mobilizar a comunidade, eleger compromissos com a vida e com a justiça social, e assentar nos parlamentos a força daqueles que sabem que sem o povo de terreiro não há democracia real. Que a nossa oferenda nas urnas seja de luz, coragem e restauração do nosso destino.



Bàbé Ifálóba Ifálósèyí - AxéNews

Pai Caio

Caio Bayma nasceu na Baixada Fluminense, Nilópolis, foi morar no Morro dos Macacos por conta da proximidade com o trabalho, faculdade e atuação no movimento social, hoje reside no centro do Rio de Janeiro. Graduando em Matemática, integra a equipe do Observatório Adolescente (OPPA /UERJ) no eixo de religiosidade e atuou como primeiro extensionista na Superintendência de Saberes Tradicionais da UFRJ.   [+ informações de Pai Caio]


Contatos de Pai Caio

Redes Sociais: Instagram



Artigo de Opinião: texto em que o(a) autor(a) apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretações de fatos, dados e vivências. ** Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do AxéNews.


 
 
 

Comentários


bottom of page