O verdadeiro desafio de ser umbandista
Por: Marcela omó Ogum

✅ 1/11/2026 | 06:58
O verdadeiro desafio de ser umbandista não acontece dentro do terreiro e sim depois que você atravessa o portão e volta pra sua rotina. Porque dentro da Casa, do terreiro, é fácil lembrar do respeito, da fraternidade, da espiritualidade, da fé e da imagem de santidade. É fácil pedir licença, abaixar a cabeça, falar de humildade, de evolução com seus mais velhos e com seus irmãos.
Quero ver sustentar isso quando a vida aperta. Quando mexem no seu ego. Quando você é contrariado. Quando alguém te decepciona. Quando você tem a oportunidade de ferir exatamente onde sabe que vai doer na pessoa que te ataca.
Quando é desafiado ou instigado a mostrar seu lado mais primitivo, suas sombras…
Quando não há nenhuma preocupação com os julgamentos alheios…
Para mim, ser umbandista nunca foi somente colocar o branco, usar uma guia, receber santo ou estar presente em uma gira. Por trás da rotina de ser médium existe uma responsabilidade muito maior nisso.
É tentar levar para a vida aquilo que aprendemos dentro de um terreiro, com os guias e seu sacerdote; e até mesmo na convivência com seus irmãos!
E não é fácil.
Nós erramos, nos irritamos, falhamos e algumas vezes percebemos que ainda estamos muito distantes daquilo que tanto pregamos. Talvez seja justamente aí que esteja o verdadeiro trabalho espiritual: perceber, reconhecer e tentar fazer diferente da próxima vez.
Sempre digo que a espiritualidade não está somente diante do gongá, ou é despertada apenas quando toca os atabaques ou a mãe pega na sineta e chama o santo. Ela está contigo 24 horas, como um guia! Que a partir do seu chamado, ela estará ali intermediando por ti, basta ouví-la; sentí-la.
A Umbanda que eu acredito precisa atravessar o portão do terreiro junto com todos aqueles que aprendem e carregam consigo, os valores e ensinamentos dos Guias.
Precisa estar na forma como trato as pessoas, nas escolhas que faço, na maneira como conduzo meus conflitos e, principalmente, naquilo que faço quando ninguém está vendo.
Porque dentro do terreiro existem regras que nos lembram o tempo inteiro de quem devemos ser. E quando digo de “regras” falo de Leis! Leis que regem toda e qualquer convivência humana e saudável na sociedade.
Quando nos deitamos, existe apenas a nossa consciência. E é com ela que eu presto contas!
E talvez seja exatamente aí que comece o maior desafio de ser umbandista.
É aí que eu quero saber o que a Umbanda tem feito dentro de você.
Porque espiritualidade não pode ser um personagem que vestimos junto com a roupa branca e deixamos no terreiro quando a gira termina. Esse branco da roupa não é apenas uma cor que complementa mas sim aquela que mostra a busca da purificação, da paz, da evolução! Ou pelo menos para um começo… Rs! Afinal ainda teremos centenas de anos a serem vividos para; quem sabe; completar a plenitude! Rs!
Mas vale uma reflexão!
De que adianta pedir conselho ao Preto Velho se você não consegue ouvir ninguém? Se julga, se exclui, se se lhe falta humildade em acolher, em ter afeto ou compaixão!?
De que adianta pedir caminho ao Caboclo se continua escolhendo os mesmos caminhos que machucam você e os outros? Se continua a falhar com as suas escolhas, mesmo recebendo orientações e conselhos de como caminhar?!
De que adianta pedir proteção, evolução e força pros Exús, se você não aceita olhar para as próprias sombras e refletir se a justiça dos seus próprios atos, estão condizentes com a justiça daquilo que a Lei de Pemba exige de nós?!
Lembre-me-nos sempre: “A vida é um espelho! Vida e morte se refletirão!”
Se a Umbanda é pra você, nunca se esqueça que Guia nenhum vai alimentar nosso ego, muito menos enaltecer as nossas vaidades e desejos mesquinhos.
Orixá nenhum tem obrigação de concordar com nossas escolhas e muito menos permitir que erremos, e sintamos ainda sim, orgulho de si próprio! Orixá não nos envergonha! Ele nos coloca à prova, oportunidades de sermos o melhor da nossa essência, dia após dia!
Às vezes, a resposta espiritual que tanto pedimos é justamente aquela que mais nos incomoda: mudar e o que se pode fazer para isso?
E mudar dói.
Dói reconhecer que nem sempre somos tão humildes quanto pensamos. Que ainda julgamos. Que ainda somos orgulhosos. Que ainda precisamos aprender a pedir desculpas, calar na hora certa, controlar a língua e abandonar a necessidade de vencer todas as discussões.
O terreiro ensina…
A Sacerdote ensina…
Todos ensinam…
A vida ensina!
Mas é a rua que mostra o quanto realmente aprenderemos.
E a maior prova da nossa fé não será aquela que acontece quando o Guia chega e fica frente a frente com você, e sim aquela que permanece em nós depois que ele vai embora.
A Umbanda que você vive lá fora diz muito mais sobre você do que o branco que você veste lá dentro.
Na Casa de Jurema eu sempre digo que: “Me diga quem tu és lá fora, que eu saberei como serás aqui dentro com suas companhias espirituais!”
Porque a Umbanda que você diz seguir dentro do terreiro só se torna verdade quando aparece na pessoa que você escolhe ser lá fora!
E assim vamos evoluindo…
Tentando, aprendendo, errando, construindo!

Marcela omó Ogum
Médium, estudiosa e pesquisadora da religião de Umbanda desde 2002. Sacerdotisa da Casa de Jurema desde a sua fundação, em 2018, Apètèbí de Ifá e Oraculista de Cartas. Filha de Ogum com Iansã. Formada em Marketing e Administração pela faculdade Unicarioca do Rio de Janeiro, é empreendedora em ramos variados. [+ informações de Marcela omó Ogum]
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