O Terreiro e a Política
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Por: Pai Caio

✅ 14/7/2026 | 18:10
A assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, foi uma canetada jurídica que declarou a liberdade formal, mas não restabeleceu o direito à existência digna. Sem terra, sem indenização, sem moradia e sob o peso de um Estado que transformou a capoeira e a vadiagem em códigos penais, o povo preto viu a liberdade nascer com os pés amarrados. Cento e trinta e oito anos depois, a verdade incômoda salta aos olhos: nós ainda vivemos em um processo de abolição. E, se há um lugar onde a engrenagem do apagamento não conseguiu moer a memória; esse lugar é o terreiro.
Muito além do caráter sagrado e da beleza litúrgica das cantigas, o terreiro nasce e se mantém como um profundo espaço político. Ele é, por excelência, a resposta comunitária a um projeto de nação que escolheu a exclusão. Após a promessa vazia de 1888, as roças de candomblé e os gongás de umbanda atuaram como verdadeiros quilombos urbanos e rurais. Elas organizaram a sobrevivência, preservaram tecnologias ancestrais e acolheram corpos que eram historicamente julgados e marginalizados.
Esses mesmos corpos — pretos, periféricos, LGBTQIAPN+ e de mulheres — continuam sendo os alvos preferenciais de uma máquina que derruba vidas diariamente. O obituário da violência urbana e rural no Brasil tem um recorte cirúrgico de raça, gênero e territorialidade. São os jovens negros das favelas e subúrbios que seguem preenchendo as páginas policiais e as estatísticas de homicídios. A periferia sangra sob o manto de uma guerra que escolhe a cor de suas vítimas.
É dentro desse cenário de carne barata no mercado que a estrutura trabalhista contemporânea se revela. A atual jornada de trabalho na escala 6x1 (seis dias de trabalho para um de descanso), que drena a saúde mental, o tempo de afeto e a dignidade da classe trabalhadora periférica, nada mais é do que a senzala disfarçada de modernidade. É o confinamento do tempo produtivo em troca da mera sobrevivência, impedindo o sujeito de viver e forçando-o apenas a operar a riqueza alheia.
O terreiro, portanto, precisa ser provocado e, ao mesmo tempo, provocar o pensamento crítico e abolicionista. Ele não pode se isolar em um misticismo alienado enquanto a vizinhança ao seu redor é sitiada pela fome ou pelo caveirão. O Axé é ação, é movimento, é a energia que gera a vida. Uma espiritualidade de matriz africana que não se indigna com a escala 6x1 ou com o extermínio da juventude preta perdeu o vínculo com a sua própria ancestralidade de resistência.
É preciso demarcar, de forma nítida, uma diferença fundamental: a luta das comunidades tradicionais de terreiro nunca foi, e jamais será, pela conversão de ninguém. Proselitismo e expansionismo religioso não fazem parte das nossas tradições. Nós desejamos igrejas cheias e comunidades vivas. Nossa oração se materializa na busca por políticas públicas, por segurança alimentar, por saúde mental e o direito de ir e vir sem o medo do estigma ou da bala “perdida”.
O terreiro é a política do afeto, da partilha do alimento e da guarda do conhecimento. Em tempos de neofascismo e avanço do racismo religioso, erguer a voz a partir das nossas comunidades é lembrar ao Brasil que a nossa maior vitória não é o domínio de f iéis, mas a garantia de uma vida plenamente digna para o povo. À abolição que a princesa não assinou está sendo costurada, dia após dia, no ritmo do couro dos nossos tambores e na firmeza do nosso chão. Venceremos!
Ngunzu!

Pai Caio
Caio Bayma nasceu na Baixada Fluminense, Nilópolis, foi morar no Morro dos Macacos por conta da proximidade com o trabalho, faculdade e atuação no movimento social, hoje reside no centro do Rio de Janeiro. Graduando em Matemática, integra a equipe do Observatório Adolescente (OPPA /UERJ) no eixo de religiosidade e atuou como primeiro extensionista na Superintendência de Saberes Tradicionais da UFRJ. [+ informações de Pai Caio]
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Artigo de Opinião: texto em que o(a) autor(a) apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretações de fatos, dados e vivências. ** Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do AxéNews. |

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